Lava-pés: papa inaugura um uso, e o prefeito o dificulta abertamente. Artigo de Andrea Grillo

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17 Março 2016

O que o Concílio Vaticano II queria realizar? A repressão dos abusos ou o renascimento dos usos? Em um grave equívoco do Vaticano II, Sarah coloca-se totalmente fora da lógica com que Francisco pretende proceder, retomando em plenitude a linha do Concílio. Ele aponta para o relançamento de usos renovados, em vez da luta contra os abusos velhos e novos.

A opinião é do teólogo italiano Andrea Grillo, leigo, professor do Pontifício Ateneu S. Anselmo, de Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, de Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, de Pádua.

O artigo foi publicado no seu blog Come Se Non, 16-04-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

"Os padres não são obrigados a lavar os pés das mulheres na Quinta-feira Santa": por si só, essa declaração do cardeal Sarah é formalmente correta. No estilo abstrato e desencarnado com que é pensada a liturgia em alguns ambientes da Cúria Romana, diante das dificuldades e das novidades, refugia-se facilmente no formalismo e na indiferença da "norma": diante da demanda interessada de "rito antigo", cria-se com desenvoltura um paralelismo livre, que gera apenas confusão; diante das formas do rito da paz, simplesmente se lembra que o gesto não é obrigatório, além de definir como "abuso" todo canto e todo movimento durante o rito; diante da "nova rubrica" desejada por Francisco para o lava-pés, limita-se a lembrar que não obriga ninguém.

Essa é a tarefa do prefeito da Congregação para o Culto? Deve apenas quieta non movere e mota quietare? Ou, talvez, tomar a iniciativa apenas quando se trata de propor a introdução do ofertório de Pio V no missal de Paulo VI? Esse é o modo de aplicar o Concílio?

Se, na época da Sacrosanctum concilium, tivéssemos tido o cardeal Sarah como encarregado de aplicá-lo, o que ele teria feito dos números 51-57 da constituição? Se a maior riqueza bíblica, a homilia cotidiana, a oração dos fiéis, a língua vernácula, a concelebração e a comunhão sob as duas espécies tivessem sido julgadas simplesmente como "coisas não necessárias" – segundo a tradição –, então teríamos tido uma "verdadeira" reforma litúrgica, em que tudo permaneceria como antes. Por que, vendo bem, todas essas reformas não poderiam ser, no fundo, no fundo, nada mais do que "abusos regularizados"?

Então, chegamos ao ponto-chave: uma coisa é "evitar os abusos", outra é "reaprender os usos". Sobre essa distinção, pode-se entender a linha profética de Francisco e a defensiva de Sarah: por um lado, Francisco, para obter um uso "mais pleno" do sinal do lava-pés, pode chegar até a cometer um abuso (como ocorreu, tecnicamente, com o lava-pés na prisão, de abril de 2013 a janeiro de 2016); para Sarah, ao contrário, na intenção de evitar todo abuso, pode-se chegar até a negar o uso.

E devemos nos perguntar, então: o que o Concílio Vaticano II queria realizar? A repressão dos abusos ou o renascimento dos usos? Nesse grave equívoco do Vaticano II, Sarah coloca-se totalmente fora da lógica com que Francisco pretende proceder, retomando em plenitude a linha do Concílio. Ele aponta para o relançamento de usos renovados, em vez da luta contra os abusos velhos e novos.

E é aqui, creio eu, que a declaração de Sarah se torna um explícito obstáculo à lógica desejada por Francisco: o fato de recuperar a "plenitude de um sinal" não pode ser, de forma alguma, mediado pela sua redução à dimensão do "não necessário". Não é assim que se incentiva a liturgia, e isso está claro não só para o lava-pés, mas também para o rito da paz e ainda mais para o paralelismo entre formas diferentes do rito romano.

Por outro lado, essa diferença também aparece a partir da comparação entre a carta do papa, confirmada também pelo texto do decreto, e a declaração do prefeito. O papa não pediu para "remover um abuso", mas para "expressar plenamente o significado do gesto": de fato, ele quer "melhorar as suas modalidades de implementação, para que expressem plenamente o significado do gesto feito por Jesus no Cenáculo, o seu dar a si mesmo 'até ao fim' pela salvação do mundo, a sua caridade sem fronteiras".

A partir dessa diferença entre preocupação apenas pelo abuso e promoção pastoral do uso, decorre todo o resto. Mas é decisiva, aqui, não tanto a diferença entre o Papa Francisco e o cardeal Sarah, mas sim a diferença entre a implementação apaixonada do Concílio Vaticano II e a intolerância mal disfarçada em relação a ele.

E é essa declarada intolerância que, quando emerge abertamente em um prefeito, não pode ser considerada, de fato, como pouca coisa: diante dessa ressentida indiferença, não é possível ficar indiferente.

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