John Henry Newman poderia ser o santo padroeiro da relevância

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26 Janeiro 2016

"Poder-se-ia descrever Newman como o 'santo padroeiro da relevância' para o catolicismo, em que se pode concordar ou discordar das conclusões daí decorrentes, sendo impossível porém descartá-las como relíquias de uma mentalidade medieval.Todo aquele que lê Newman hoje, e muitos ainda o leem, reconhece nele imediatamente um representante moderno. Não é sem querer que uma de suas mais conhecidas obras se chama 'Tratado para os tempos'", escreve John L. Allen Jr., em artigo publicado por Crux, 23-01-2016.

Eis o artigo.

A partir das décadas de 1950 e 1960, os sociólogos de maneira mais ou menos uniforme passaram a aceitar o que ficou conhecido como a “tese da secularização”, ideia segundo a qual as sociedades, na medida em que se tornam mais modernas, inevitavelmente ficam menos religiosas.

Conforme apontou cinco décadas depois o mais famoso convertido da tese da secularização, Peter Berger, está claro que os seus colegas tinham razão somente em se tratando da Europa oriental e central – e mesmo aí, as pessoas religiosas continuavam sendo uma “minoria criativa” teimosa, para empregar a frase do Papa Bento XVI, pessoas que simplesmente se recusavam a desaparecer.

Há muitos motivos por que a religião continua a prosperar, mas no alto da lista está a capacidade de um punhado de pensadores religiosos influentes em fazer, para a situação contemporânea, relevantes as suas tradições antigas, pondo aquelas tradições em diálogo criativo com as questões propostas pelos homens e mulheres modernos.

Nesse universo, poucas figuras católicas tiveram um impacto maior no século passado do que o Cardeal John Henry Newman, o convertido anglicano britânico do século XIX cujo trajeto cuidadosamente pensado para o catolicismo continua a inspirar e provocar.

Poder-se-ia descrever Newman como o “santo padroeiro da relevância” para o catolicismo, em que se pode concordar ou discordar das conclusões daí decorrentes, sendo impossível porém descartá-las como relíquias de uma mentalidade medieval.

Todo aquele que lê Newman hoje, e muitos ainda o leem, reconhece nele imediatamente um representante moderno. Não é sem querer que uma de suas mais conhecidas obras se chama “Tratado para os tempos”.

Tudo isso ocorre à luz de uma informação, primeiramente dada pela revista The Tablet, de que Newman pode estar a caminho da canonização depois que a Arquidiocese de Chicago investigou um milagre atribuído à sua intercessão envolvendo uma mulher com gravidez de risco. O caso agora está no Vaticano.

Se aprovado, o milagre poderia abrir caminho para o Papa Francisco declará-lo santo.

(Curiosamente, o milagre que permitiu Newman ser beatificado em 2010 também veio dos EUA, envolvendo a cura de um diácono em Boston com graves problemas crônicos de coluna. Nesse sentido, poder-se-ia dizer que os ingleses teriam de agradecer aos Yanks caso Newman se tornar, de fato, o primeiro santo inglês desde 1970.)

Os escritos clássicos de Newman, incluindo “Apologia Pro Vita Sua” e “Gramática do Assentimento”, ainda são insuperáveis como modelos de apologética católica em língua inglesa, quer dizer, uma defesa fundamentada da fé.

Um grupo claramente inspirado em Newman é o “Catholic Voices”, projeto lançado para a visita do Papa Bento XVI à Inglaterra em 2010, em que a beatificação do religioso foi o último ato na programação do pontífice.

O “Catholic Voices” foi tão bem-sucedido que passou a ser uma marca mundial, um dos programas mais buscados e eficazes para os comunicadores católicos atualmente.

A ideia era dar um curso intensivo aos jovens católicos, em sua maioria leigos e leigas, sobre a linguagem midiática e questões candentes relacionadas à Igreja, tais como os direitos das mulheres, o matrimônio gay, aborto e métodos contraceptivos, e então disponibilizá-lo para publicações e entrevistas.

Com efeito, estes católicos se tornaram a trilha sonora da viagem de Bento. Eles estiveram onipresentes na imprensa inglesa, contrariando a impressão de que o catolicismo estaria à beira da morte.

Eu já contei essa história antes, mas vale a pena repeti-la quando se está diante da possibilidade iminente de canonização de John Henri Newman.

Porque a crise dos abusos sexuais na Europa havia explodido em 2009 e 2010, a imprensa teve um enorme interesse na viagem de Bento. Embora tenha sido considerada um sucesso, esta visita também gerou um aumento no sentimento antipapal, na medida em que 10 a 15 mil secularistas e ateus, defensores dos direitos dos gays, vítimas de abuso sexual e outros marcharam em Londres em um “Protesto ao Papa!”.

Eu estava trabalhando para a CNN durante esta viagem em 2010 e assim, no dia 19 de setembro, um domingo, o último dia do papa no país, eu não pude acompanhá-lo até Birmingham para a cerimônia de beatificação. Em vez disso, fiquei em Londres para comentar a partir do estúdio.

Como as redes de TV não católicas geralmente fazem, a CNN não transmitiu a toda a missa ao vivo, fechando os trabalhos logo após a homilia do papa. Eu e a equipe fomos a um bar ali próximo de onde estávamos para comemorar uma transmissão bem-sucedida.

Sendo domingo, havia um monte de torcedores de futebol à espera para assistir aos jogos da rodada. Quando chegamos, os aparelhos de tevês ainda traziam as imagens finais da missa e, no ar naquele momento, tinham comentadores do grupo Catholic Voices.

Eu consegui um lugar no bar, perto de uns caras com um sotaque local forte, que, não tendo outra coisa a fazer, se viram assistindo televisão, onde uma jovem católica estava descrevendo o significado da fé em sua vida cotidiana. Ela se saiu um tanto racional, engraçada e, bem, completamente normal e sã.

Um dos jovens disse aos outros: “Ah!, na verdade acho que os católicos não são tão malucos assim”.

Esse, em uma palavra, é o legado em ação de John Henry Newman.

Ao escutar Newman ou um de seus discípulos do século XXI discutir a fé, podemos ser persuadidos ou não. Mas ninguém poderá classificar a sua mensagem como irrelevante ou anacrônica. A sua racionalidade serena, juntamente com a clara relevância para o mundo contemporâneo, leva as pessoas a apreendê-la, ao invés de ignorá-la.

Em breve, se o relato de milagre de Chicago sobreviver ao exame minucioso do Vaticano, este legado do cardeal pode ser acrescido com uma auréola de santo.

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