Ex-ministro da Defesa salvadorenho, ligado aos assassinatos de Oscar Romero e de missionárias americanas, é deportado para El Salvador

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18 Janeiro 2016

Por 25 anos, a Flórida significou para o General Jose Guillermo Garcia um porto seguro, distante da violência brutal em seu país natal El Salvador, onde, como ministro da Defesa, ele desempenhou um papel central nos assassinatos de Dom Oscar Romero, de quatro missionárias americanas e de 1 mil campesinos indefesos da localidade de El Mozote.

A reportagem é de Linda Cooper e James Hodge, publicada por National Catholic Reporter, 13-01-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Mas agora os Estados Unidos, o país que lhe deu refúgio, mudou de ideia e declarou que ele deveria ser deportado. Em 8 de janeiro, as autoridades imigratórias do país, agindo com base nas decisões judiciais de que Garcia participou de torturas e massacres, o colocaram num avião com outros 130 salvadorenhos que estavam sendo forçadamente expulsos.

O avião aterrissou no meio da tarde daquele dia no Aeroporto Internacional de San Salvador, o qual fora renomeado durante a ausência de Garcia para homenagear a sua vítima mais famosa, Dom Oscar Arnulfo Romero.

À espera de Garcia estavam jornalistas e câmeras, além de um pequeno grupo de pessoas que o confrontaram com os fantasmas de seu passado, muitos carregando cartazes chamando-o de “assassino” e “torturador”.

Entre a multidão estavam Mirna Perla e o médico Juan Romagoza.

Perla é uma ex-magistrada da Suprema Corte Salvadorenha, cujo marido Herbert Anaya foi morto em frente à filha jovem do casal. Anaya atuava na Comissão Não Governamental dos Direitos Humanos, uma das duas organizações populares que Romero fomentava, a outra sendo a organização Mães dos Desaparecidos. Perla, ela própria, foi torturada com choques elétricos quando estava grávida.

Romagoza, médico cirurgião, foi severamente torturado em 1980 quando Garcia era ministro da Defesa a ponto de jamais poder realizar cirurgias novamente. Foi solto da prisão, pesando menos de 35 quilos e precisou ser conduzido nos braços de seu tio.

Romagoza foi “espancado, torturado com sondas elétricas por todo o corpo, violentado sexualmente com um bastão, tendo ficado pendurado no teto por vários dias”, de acordo com um resumo feito pelo tribunal de imigração dos EUA a partir do seu testemunho no caso que levou à deportação de Garcia.

O seu testemunho nesse caso e diante do Congresso dos Estados Unidos foi um dos principais motivos que fez com que Garcia fosse colocado abordo do avião fretado pela US Immigration and Customs Enforcement, agência que cumpre os mandados de deportação nos EUA.

Romagoza contou ao National Catholic Reporter que foi um “momento terapêutico único” ver o homem que certa vez era a pessoa mais poderosa no país, e que foi o responsável por tanto sofrimento, ser forçado a retornar a El Salvador.

Foi um momento especial, disse ele, estar ali, junto de outras “vítimas da guerra e parentes dos desaparecidos, gritando com eles e ansiando por justiça em nosso próprio país”.

O rosto de Garcia, segundo Romagoza, “era o rosto do genocídio”, mas agora “mudou da arrogância para o medo ao ver as vítimas esperando por ele e ouvindo-as gritar: ‘Assassino, o povo está esperando por você’”.

A família da Irmã Ita Ford, Maryknoll, uma das quatro missionárias americanas estupradas e assassinadas em 2 de dezembro de 1980, “está enormemente contente” em ver Garcia finalmente deportado, falou Mary Anne Ford. O seu falecido marido Bill Ford, irmão de Ita, havia levado Garcia e um outro ministro da Defesa salvadorenho, o General Carlos Eugenio Vides Casanova, ao tribunal em 2000, argumentando que eles tinham responsabilidade pelos assassinatos das religiosas.

Garcia era o ministro da Defesa e Vides Casanova era o chefe da Guarda Nacional cujos membros foram presos pelas execuções das irmãs da Congregação de Maryknoll Ford e Maura Clark; da Irmã Dorothy Kazel, da Congregação das Irmãs Ursulinas; e da leiga Jean Donovan.

“O meu único arrependimento é que Bill não está aqui para ver isso”, disse Ford. Quando um júri federal não condenou os generais, segundo ela, o seu marido mesmo assim não desistiu de esperar que, em algum dia, a justiça seria feita.

Ele viveu o suficiente para ver o Centro para Justiça e Responsabilização, sediado em San Francisco, processar os generais em 2002 em nome de Romagoza e de duas outras vítimas de tortura, incorporando o argumento da responsabilidade de comando. Mas, quando ele morreu em 2008, os generais ainda estavam “vivendo uma vida boa na Flórida”, disse ela.

O seu marido ficou “estupefato” ao saber que “estes vilões absolutos” responsáveis pelo assassinato de sua irmã “estavam vivendo aqui, em meio ao luxo”.

Garcia entrou nos EUA depois de alegar que ele e sua família estavam sendo ameaçados. O governo Bush lhe concedeu asilo político em 1989, na mesma época em que estava deportando centenas de salvadorenhos pobres para um destino incerto.

Naquele mesmo ano, Vides Casanova foi admitido apesar do fato de que o Departamento de Estado possuía documentos mostrando que ele provavelmente esteve “ciente, e por algum tempo tolerou, o acobertamento” dos assassinatos das quatro missionárias.

Segundo o ex-embaixador americano em El Salvador Robert White, o histórico de Vides Casanova o desqualificava para receber o visto para o país, mas o governo Bush contornou as políticas imigratórias com base numa lei que datava de antes da Segunda Guerra Mundial, onde a “CIA pode assentar uma centena de colaboradores por um ano nos Estados Unidos, sem ser questionada”.

“A única questão agora”, continuou, é saber se a lei de anistia será derrubada”, referindo-se à legislação salvadorenha de 1993 que têm protegido criminosos de guerra de serem processados.

Tanto Garcia como Vides Casanova enfrentam um futuro incerto, agora que os tribunais americanos ressaltaram os crimes de guerra cometidos por eles.

Vides Casanova foi deportado em março depois que a Conselho para as Apelações de Imigração dos EUA descobriu que ele havia acobertado práticas de tortura e assassinatos cometidos por suas tropas, incluindo o que levou à morte das quatro americanas.

O mesmo tribunal manteve as conclusões de que Garcia protegeu os esquadrões da morte e “auxiliou ou, de alguma forma, participou” de 14 assassinatos, seis massacres e da tortura de incontáveis civis, inclusive de Romagoza.

O tribunal igualmente decidiu que Garcia falhou em investigar os assassinatos de Romero e das religiosas, do massacre do Rio Sumpul, em 1980, envolvendo aproximadamente 600 civis, bem como falou em investigar o massacre de Mazote, de 1981, no qual o exército executou sistematicamente 1 mil moradores, incluindo mais de 250 crianças – crime que Garcia não somente se negou a investigar como também negou que alguma vez tenha acontecido, chamando-o de uma fabricação da guerrilha Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional para fins de propaganda política. Na verdade, este foi o pior massacre de civis na história contemporânea da América Latina.

A Câmara Constitucional da Suprema Corte salvadorenha levou em consideração uma ação na justiça contestando a lei de anistia, interposta pelo Instituto dos Direitos Humanos da Universidade Centro-Americana na esteira do massacre dos jesuítas em 1989, em que uma unidade militar de elite salvadorenha treinada pelos Estados Unidos matou seis sacerdotes da Companhia de Jesus, a funcionária doméstica deles e a sua filha.

A lei de anistia foi aprovada pela legislatura sob a pressão da Aliança Republicana Nacionalista (ARENA) em 1993, cinco dias depois que a Comissão da Verdade, da ONU, anunciou que os militares salvadorenhos e os seus esquadrões da morte haviam cometido 85% das piores atrocidades da guerra.

A pressão sobre a Suprema Corte no sentido punir os culpados vem se intensificando desde que o candidato da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional derrotou o candidato da ARENA na última eleição presidencial.

E as deportações de Garcia e Vides Casanova “estão mudando a paisagem”, disse Patty Blum, assessora jurídica do Centro de Justiça e Responsabilização que representou Romagoza.

“Estes caras são os do topo da lista”, disse ela, e estão envolvidos nos casos mais chocantes. “E, agora que estão de volta a El Salvador, tudo o que aconteceu e tudo o que as pessoas estão tentando fazer acontecer é reabrir o caso”.

Ela apontou Romagoza como um dos que não somente estão em busca de justiça, mas que também que estão fazendo a diferença. “Ele voou para os Estados Unidos, abriu uma clínica incrível em Washington, DC, que hoje é uma importante clínica que atende a comunidade latina, e testemunhou diante dos tribunais em vários casos envolvendo Garcia e Vides Casanova”.

Há alguns anos atrás ele retornou a El Salvador, criou uma pequena clínica e, depois que a Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional chegou ao poder, foi nomeado para o Ministério da Saúde, tendo aberto dezenas de novas clínicas.

Ainda que não tenha condições de realizar cirurgias, Romagoza tem trabalhado com os seus compatriotas para extirpar os impedimentos legais a fim de levar à justiça Garcia e Vides Casanova, de forma que o país possa se curar da violência brutal que tirou mais de 75 mil vidas.

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