Domingo de Ramos - Ano C - Seguir Jesus no caminho de Cruz

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Por: MpvM | 12 Abril 2019

A liturgia do Domingo de Ramos nos introduz na Semana Santa, a semana mais importante do ano para a Igreja. É a culminância da quaresma, mas tem uma dinâmica própria: começa com a recordação da entrada messiânica de Jesus em Jerusalém e segue passo a passo os acontecimentos de sua paixão e morte até sua ressurreição. O ponto alto deste percurso litúrgico são os dias do tríduo pascal.

A reflexão é de Cleusa Maria Andreatta, religiosa da Congregação das Irmãs da Divina Providência, a qual possui graduação em Filosofia e Teologia pela PUCRS, mestrado em Teologia pela FAJE/BH e doutorado em Teologia pela PUC-RIO. Atualmente é professora adjunta da Universidade do Vale do Rio dos Sinos e integrante da Equipe de Coordenação do Instituto Humanitas Unisinos - IHU, com ênfase no Programa Teologia Pública.

Referências bíblicas
1ª Leitura: Is 50,4-7
Salmo: Sl 21(22),8-9.17-18a.19-20.23-24 (R/. 2a)
2ª Leitura: Fl 2,6-11
Evangelho: Lc 22,14–23,56

Neste ano, a liturgia do domingo de Ramos nos convida a refletir e meditar sobre o relato da paixão segundo o Evangelho de Lucas (Lc 22,14–23,56). Aí nós encontramos recordações sobre a prisão, condenação e morte de Jesus na cruz com características diferentes dos outros Evangelhos, as quais expressam cuidado, delicadeza e ternura de Lucas pelo Senhor.

Lucas omite cenas e detalhes caracterizados pela crueldade. Ele apresenta de maneira muito rápida a cena de escárnio, não descreve a flagelação, se cala sobre a fuga dos discípulos no momento da prisão, ameniza a negação de Pedro, na cena do Monte das Oliveiras a angústia e o medo de Jesus são expressados em conexão com uma profunda confiança em Deus; o grito da cruz é interpretado com o Salmo 31, que expressa confiança total no Pai, e não com as palavras do Salmo 22, como abandono por parte de Deus.

A narração da última ceia apresenta um discurso de despedida e é perpassada  por um tom decisivamente Pascal, indicando que Jesus enfrenta sua morte na firme esperança de antecipar o Reino de Deus no mundo e na história: “Desejei ardentemente comer convosco esta ceia pascal, antes de sofrer”.

Com diversos pormenores, Lucas apresenta um Jesus paciente, cheio de compaixão e misericórdia. Jesus se opõe à violência por parte dos discípulos no momento da prisão e repara danos, curando da orelha do guarda que foi agredido. Seu olhar proporciona a conversão de Pedro após a negação. Lucas é o único que relata o encontro de Jesus com Herodes. Em meio à dor e ao sofrimento, Jesus dispensa especial atenção às mulheres de Jerusalém a caminho da Cruz e, já na cruz, profere palavras de perdão e acolhimento aos seus algozes e ao malfeitor arrependido.

A inocência de Jesus é insistentemente ressaltada por Lucas, na voz de Pilatos (4 vezes), das mulheres, do povo, do ladrão do centurião, apesar das insistentes acusações dos judeus. Aprofundando o conhecimento do Evangelho de Lucas, aprendemos que esse reconhecimento oficial da inocência de Jesus por parte da autoridade política  tem em vista afastar as suspeitas e as calúnias que pesam sobre as comunidades cristãs que vivem dispersas no Império Romano.

Enfim, Lucas vai conduzindo seus leitores e as comunidades cristãs no seguimento de Jesus, à fé e à fidelidade a uma pessoa concreta e não a um sistema de doutrinas. Hoje também nós somos convidadas e convidados a nos deixar envolver por esta narrativa da paixão. Podemos meditá-la nos colocando junto de Jesus, contemplando seus gestos, acolhendo suas palavras, nos envolvendo em suas orações e súplicas, deixando-nos envolver por seu olhar de misericórdia e amor.

A primeira e a segunda leitura nos ajudam a contemplar a paixão e morte de Jesus enquanto momento supremo de uma vida feita de dom e serviço, revelando a plenitude do amor de Deus.

A primeira leitura (Is 50, 4-7) é o terceiro dos quatro cânticos do livro de Isaías, nos quais nos é apresentada a figura do servo de Javé (cf. Is 42,1-9; 49,1-13; 50,4-11; 52,13- 53,12). Esta figura, esta ideia do servo de Javé, que tudo indica que vem do profeta Jeremias, o servo sofredor que nunca baixou a cabeça diante de seus opressores, inspirou o segundo Isaías para fazer os quatro cânticos. Estes cânticos todos têm como foco animar a esperança do povo num tempo de crise e muito desânimo e também auxiliar o povo a compreender e ressignificar sua missão enquanto povo de Deus.

No cântico proclamado na liturgia deste domingo, a missão do Servo de Javé é impulsionada pela escuta e entrega incondicional à Palavra e ao plano de Deus. É uma missão que se concretiza no sofrimento e na dor, mas na certeza da fidelidade de Deus, que nunca abandona a quem chama. Esta figura inspirou Jesus na realização de sua missão no mundo como servo através de toda a sua vida, inclusive sua morte na cruz.

A segunda leitura nos apresenta um hino (pré-paulino) que se encontra na Carta de Paulo aos Filipenses (Fl 2,6-11), o qual era recitado nas celebrações litúrgicas cristãs. Este hino enfatiza o “despojamento” (“kenosis”) de Cristo de sua condição divina, assumindo a condição de servo, sua obediência até a morte na cruz e sua exaltação por Deus. Dessa forma, nos ajuda a contemplar a paixão de Jesus em perspectiva pascal.

A comunidade cristã de Filipos, que era muito generosa e atenta às necessidades de Paulo e do resto da Igreja, enfrentava algumas dificuldades. Por isso Paulo convida os filipenses a encarnar os valores e o estilo de vida que caracterizaram a trajetória de vida de Jesus Cristo: "Tende entre vós o mesmo sentimento que em Cristo Jesus." (Fl 2,5). Esse convite se estende a todas as pessoas que assumem o caminho do seguimento de Jesus como apelo à humildade, ao desprendimento, seguindo o exemplo desse Cristo, servo sofredor e humilde, que fez da sua vida um dom a todos.

Deixemo-nos interpelar e conduzir pela Palavra de Deus hoje dirigida a nós. Vivemos um momento histórico difícil, marcado por muitas contradições, situações de sofrimento, injustiças, violação de direitos cidadãos, violência, perseguição e assassinatos. Aqui e agora a Palavra de Deus a nós dirigida nos questiona e convida a discernir nossa missão de cristãos e cristãs em meio às situações concretas do nosso cotidiano.

Façamos o caminho da semana santa, tendo por horizonte de nossa caminhada a certeza do Espírito do Ressuscitado presente entre nós. Nesta certeza, podemos seguir Jesus em seu caminho rumo à cruz carregando em nossas mãos também nossa própria cruz, as nossas dores, sofrimentos, decepções, lágrimas. Mas não podemos entrar neste caminho como quem anda sozinha/o. Caminhemos na comunhão e solidariedade também com nossa gente, em suas dores, lutas e sofrimentos, em solidariedade com os crucificados de nosso tempo.

Caminhemos na certeza da Ressurreição, da Vida que é mais forte do que a morte!

 

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