Dia de Natal - Ano C - Deus armou sua tenda entre nós

Revista ihu on-line

Ontologias Anarquistas. Um pensamento para além do cânone

Edição: 543

Leia mais

Vilém Flusser. A possibilidade de novos humanismos

Edição: 542

Leia mais

Planos de saúde e o SUS. Uma relação predatória

Edição: 541

Leia mais

Mais Lidos

  • Vaticano, roubadas da igreja estátuas indígenas consideradas “pagãs” e jogadas no Tibre

    LER MAIS
  • A peleja religiosa. Artigo de José de Souza Martins

    LER MAIS
  • Começa a hora da decisão para os bispos da Amazônia na semana final do Sínodo. Artigo de Thomas Reese

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

Por: MpvM | 21 Dezembro 2018

A reflexão é de Ceci Baptista Mariani, teóloga leiga. Ela é doutora em Ciências da Religião pela PUC/SP, mestre em teologia dogmática pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção/SP. É professora no Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião e  na Faculdade de Teologia da Pontifícia Universidade Católica de Campinas - PUC-Campinas. É membro da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião - SOTER  e coordenadora do Grupo de Trabalho “Espiritualidade e Mística”.

Referências bíblicas
1ª Leitura: Is 52,7-10
Salmo 97 (98)
2ª Leitura: Heb 1,1-6
Evangelho: Jo 1,1-18

É com alegria que celebramos nesse dia o Mistério da Encarnação, convidados, convidadas pela Igreja a meditar sobre o belo hino de abertura do Evangelho de João que proclama “Deus se fez carne”. Como afirma o biblista Antonio Pagola: “Deus não se comunicou conosco por meio de conceitos e doutrinas sublimes que só os doutores podem entender. Sua Palavra encarnou-se na vida entranhável de Jesus, para que até os simples possam entendê-lo, os que se comovem diante da bondade, do amor e da verdade que se encerra em sua vida”. (PAGOLA, 2013, p.18).

O prólogo do Evangelho de João, como demonstra Johan Konings (2005, p.75ss.), pode ser comparado a um díptico, um conjunto literário dividido em duas partes (dois painéis), que expressa a percepção profunda que o autor tem do mistério de Jesus.

O primeiro painel fala da Palavra junto a Deus, preexistente a tudo e atuante na criação com a qual Jesus será identificado. Para a tradição judaica a Palavra de Iaweh é dabar, palavra viva, criadora, que dá forma e consistência às coisas, conforme podemos ler na narrativa da criação.

No Antigo Testamento a palavra de Deus diz respeito ao ato criador e também às ações salvíficas de Deus na história. Se refere em geral ao carisma do profeta. A palavra profética não é apenas predição e cumprimento, é também poder de transformar e conhecer a realidade. Por isso Isaías proclama: “Como são belos, andando sobre os montes, os pés de quem anuncia e prega a paz, de quem anuncia o bem e prega a salvação, e diz a Sião: “Reina teu Deus!” (Is 52, 7)

A Palavra criadora, em sua atuação, é também luz, diz o prólogo. Ilumina a criação apontando o caminho de realização plena. A Palavra é luz que revela o desejo de Deus realizando a sua vontade: que a vida alcance a felicidade plena através do exercício do amor gratuito, incondicional. “Ela brilha nas trevas e as trevas não a podem deter” (Jo 1,5). Jesus é essa luz e João Batista é testemunha disso.

Contudo, a Palavra de Deus por meio da qual tudo foi criado, é luz que se oferece ao mundo, mas não se impõe. Pede licença e aguarda abertura para realizar a sua obra de salvação, que é a de tornar aqueles que a acolherem em filhos de Deus (Jo1, 12). A Palavra de Deus que desce ao mundo, apequena-se. No respeito à liberdade humana chega a submeter-se à rejeição: “Veio para o que era seu, mas os seus não o acolheram” (Jo 1,11); “o mundo não a reconheceu” (Jo 1, 10).

O segundo painel do díptico vai ousar afirmar que Jesus é a Palavra de Deus que se fez carne. Afirmação que é nuclear para a revelação cristã e escandalosa para uma sociedade que está em interlocução com o dualismo grego, que ressalta a alma e desvaloriza a dimensão material do humano, o corpo de carne. Polemizando contra os gnósticos, a retórica crua de Tertuliano nos dá a dimensão da novidade que significou a afirmação da encarnação da Palavra de Deus, Jesus Cristo, no seio de uma mulher, Maria de Nazaré. Na obra A carne de Cristo, ele desafia Marcião a enfrentar o paradoxo do amor de Cristo que se fez homem por amor a esse homem gerado na “imundice da carne”:

(...) Odeias o nascimento do homem: e como podes, então, amar alguém? (...) Cristo, pelo menos amou a esse homem, esse coágulo formado no útero entre as imundices, esse homem vindo ao mundo pelos órgãos vergonhosos, esse homem alimentado com carícias irrisórias. Foi para ele que ele desceu, para ele que pregou, por ele que, com toda a humildade, se rebaixou até a morte, e morte de cruz. (...) (TERTULIANO, apud: SESBOÜÉ (org.), 2005, p.478)

A carne humana, com as suas contradições, é nosso grande desafio. Enganamo-nos muitas vezes assumindo espiritualidades com propostas de práticas que se colocam contra nossa dimensão carnal, imaginando que a santidade se alcança desprezando o corpo.

Desfiguramos a imagem de Deus quando nos afastamos de Jesus, aquele que veio de Nazaré, um lugarejo no interior da Palestina, lugar de onde, segundo a opinião dos próprios Judeus, não poderia vir nada de bom (cf. Jo 1, 46).

A pequena Nazaré era um lugarejo desconhecido, uma vila camponesa habitada por famílias simples voltadas ao cultivo da terra. Preocupavam-se em ganhar o suficiente para pagar os impostos e sobreviver com o que sobrava. Nas vilas pastoris como Nazaré, as famílias deveriam se manter equilibradas, de maneira a garantir que todos os filhos pudessem viver da terra. Se os filhos fossem muitos, teriam que trabalhar em terras inadequadas. A filhas destinavam-se ao serviço doméstico e, se fossem muitas, ameaçariam também os recursos da família. O movimento social tendia para baixo, a maioria dos camponeses vivia perto da situação crítica:

Homens sem terra, filhos jovens e bastardos procuravam sobreviver como artesãos, pescadores, diaristas, soldados, quando não se voltavam para o banditismo; as mulheres sem a proteção do pai, do marido ou dos irmãos tornavam-se esmoleiras ou prostitutas. (CROSSAN, J.D.; REED, J.L., 2007, p.65)

Revelamos a verdadeira imagem de Deus quando, seguindo os passos de Jesus, mergulhamos no mundo ao encontro daqueles que habitam as periferias, de gente como aquela da pobre Nazaré.

Para refletir sobre o Mistério da Encarnação nos dias de hoje, quero fazer referência aqui a uma bela imagem, fruto de um interessante trabalho do artista plástico Vik Muniz. "Lixo extraordinário" é uma coleção de oito retratos gigantes, resultado artístico de sua imersão no aterro sanitário de Duque de Caxias, Rio de Janeiro, na época, o maior do mundo. A partir da convivência com a gente pobre, trabalhadora na coleta de lixo reciclável, esse artista realizou verdadeiros ícones. Entre os painéis, podemos destacar a obra “Madonna Suellem”, uma obra realmente inspiradora para a celebração do Mistério da Encarnação.

Muitas Madonas vemos representadas na história da arte. A devoção à mãe de Jesus é antiga e foi muito importante na afirmação das duas naturezas de Cristo: a humana e a divina. A Mãe de Deus é dos símbolos religiosos mais poderosos da tradição cristã. Ele nos remete à dimensão materna de Deus. Na Itália, entre os séculos XV e XVI, surgem belas representações de Madonas. Entre elas a Madonna de Bellini que foi uma das referências de Vik Muniz na sua original composição.

Entrando no mundo dos pobres, Vik Muniz visualizou esse símbolo de forma muito original. Foi capaz de enxergar na vida sofrida da jovem Suellem, trabalhadora do lixo, traços de amor materno divinal que o povo experimenta na devoção a Maria.

Os painéis compostos com a ajuda da comunidade, são frutos da convivência amorosa do artista com essa gente pobre que vive do lixo e acaba identificada com ele. Revelam uma beleza transcendental, captada no interior dessa vida tecida com o pior tipo de material, aquele que é descartado e despejado em terreno isolado.

Suellem, retratada como “Madonna Suellem” é uma adolescente de 18 anos, mãe de dois filhos pequenos. Trabalhava na reciclagem para manter os filhos, sem poder contar com o marido, que na época vivia na boca de fumo. O Jardim Gramacho é cercado de favelas dominadas pelo tráfico. O lixo foi a opção de Suellem para não cair nas drogas ou na prostituição. Passava a semana no aterro, num quarto alugado, trabalhando como catadora para prover o necessário aos filhos que ficavam durante a semana sob os cuidados da mãe. A vida dela e, principalmente, sua dedicação amorosa aos filhos fez com que o artista visse nela o tipo de mulher que Deus escolheria para se fazer carne, uma mulher com coragem para sair de si e totalmente dedicada ao cuidado.

Enfim, esse ícone nos convida a refletir sobre o Mistério da Encarnação nos dias de hoje, a perguntarmo-nos nesse dia de Natal sobre a pobre Nazaré. Diante dele somos convocados a uma profunda meditação sobre o lugar que Deus está escolhendo para armar a sua tenda, e sobre o tipo de gente entre as quais escolhe estar.

Referências

CROSSAN, J.D.; REED, J.L., Em busca de Jesus: debaixo das pedras, atrás dos textos, S.Paulo, Paulinas, 2007.
KONINGS, J.. Evangelho segundo João: Amor e fidelidade. São Paulo: Loyola, 2005)
McKENZIE, J.L.. Dicionário Bíblico. São Paulo: Paulus, 1983)
PAGOLA, J. A., O caminho aberto por Jesus: João. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.
SESBOÜÉ, B. (org.). Os sinais da salvação: séculos XII-XX., Tomo 3. São Paulo: Loyola, 2005.

 

Leia mais

 

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Dia de Natal - Ano C - Deus armou sua tenda entre nós - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV