Gandhi foi um estrategista refinado que encontrou a maneira de combater o império

Revista ihu on-line

Caetano Veloso. Arte, política e poética da diversidade

Edição: 549

Leia mais

Mulheres na pandemia. A complexa teia de desigualdades e o desafio de sobreviver ao caos

Edição: 548

Leia mais

Clarice Lispector. Uma literatura encravada na mística

Edição: 547

Leia mais

Mais Lidos

  • Só um radical ecossocialismo democrático pode mudar o horizonte

    LER MAIS
  • Seu bispo necessita dos seus conselhos: o que dirá a ele?

    LER MAIS
  • Dinâmica religiosa nos Estados Unidos. Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


29 Janeiro 2008

“É nojento ver um advogado sedicioso subir, a passos largos e meio nu, as escadarias do palácio para conversar, como um igual, com o representante do Rei”, afirmava Winston Churchill, primeiro ministro inglês, referindo-se a Mahatma Gandhi, relata John Lloyd, jornalista inglês, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 29-01-2008.

Eis o artigo.

Diz-se que quando, em 1930, Mahatma Gandhi visitou a Índia, já como líder do movimento nacionalista indiano contra a Grã Bretanha, lhe foi perguntado sobre o que pensava da civilização ocidental e ele respondeu: “Seria uma boa idéia”. Trata-se de uma resposta espirituosa que refletia a amargura sarcástica de quem, tendo já vivido dois anos na prisão, tinha compreendido o lado ruim do imperialismo britânico. Era, no entanto, imprópria porque dava a entender que a Grã Bretanha não tinha levado nenhuma influência civilizatória e nenhuma instituição para a Índia, inclusive a democracia parlamentar e a legalidade. Mas, por outro lado, a frase de Ghandi era legítima pois dava claramente a entender aos britânicos e ao mundo ocidental que seus princípios liberais e democráticos não tinham sido exportados ao País que governavam.

A genialidade de Gandhi consistiu no amadurecimento, durante os 21 anos que ele passou na África do Sul, de 1893 a 1914, da estratégia da resistência não-violenta, conhecida também como a resistência passiva: um confronto com as autoridades de massas de pessoas que se recusavam trabalhar, mover-se e, muito menos, obedecer ás ordens, mas tudo feito pacificamente, sem oferecer nenhuma resistência ativa à polícia ou ao exército. Esta sua estratégia o tornou um modelo para muitos protagonistas do século XX, entre os quais Martin Luther King, nos EUA e Aung San Suu Kyi, na Birmânia. Ela garantiu que o movimento popular contra os ingleses fosse, em grande parte, não violento e ofereceu uma alternativa positiva às revoluções e aos golpes de Estado que marcaram o século passado. Mas, mais do que qualquer outra coisa, a sua estratégia conseguiu o objetivo proposto: desqualificar o império britânico.

O imperialismo britânico na Índia se tornara inadmissível, particularmente, para todos os indianos que tinham completado os seus estudos na Grã Bretanha, como Nehru, o primeiro ministro indiano, Muhammad Ali Jinnah, o fundador do Paquistão, e o próprio Gandhi, que fizera o curso de Direito, em Londres. Os princípios de justiça, igualdade e direitos que eles aprenderam estavam em conflito aberto com a clara exclusão dos indianos da maior parte das questões do seu País. Gandhi, consciente das divergências de opinião, inclusive, na Grã Bretanha, sabia que tinha pela frente duas platéias diferentes: de um lado, a dos seus compatriotas, que ele persuadira a resistirem aos ingleses, e aquela formada pelos liberais e socialistas britânicos e sempre mais contagiados pela opinião que o Império era uma responsabilidade pesada e ao mesmo tempo uma vergonha.

A segunda platéia foi acreditando aos poucos. Era a Índia, mais do que qualquer outro território do Império Britânico, que dava à Grã Bretanha o seu status de superpotência mundial, nos anos anteriores à guerra. Churchill se opôs frontalmente a qualquer iniciativa que concedesse a independência. Numa série de discursos nos anos 1930, quando ainda não estava no governo e não gozava das graças do Partido Conservador ao qual pertencia, se posicionou claramente contra Gandhi. Num discurso de 1931, denunciou publicamente o vice-rei indiano de ter libertado Gandhi da prisão para deixar que ele negociasse o fim da sua campanha de desobediência não violenta. Churchill afirmou: “É nojento ver um advogado sedicioso subir, a passos largos e meio nu, as escadarias do palácio para conversar, como um igual, com o representante do Rei”.

Esta declaração mostra o ponto mais baixo a que chegou Churchill, incapaz de compreender os argumentos e as motivações da independência e do auto-governo, determinado a considerar a Índia nada mais do que uma possessão, a serviço do poderio e do comércio britânicos. A posição de Churchill era compartilhada por muitos ingleses e muito popular.

As coisas mudaram. Até os governos conservadores de antes da guerra começaram a tomar em consideração a idéia de conceder à Índia o mesmo estatuto de autogoverno que tinham a Austrália, Canadá e Nova Zelândia. Estourou a guerra e Gandhi se opôs que a Índia enviasse suas tropas para lutar na guerra. Ele, pelo contrário, organizou o movimento “Quit Índia” que visava a expulsar os britânicos. Ainda que não tivesse apoiado as posições de Subhas Chandra Bose, que, influenciado pelo fascismo fundara o Exército nacional indiano para combater, com os japoneses, os ingleses, contudo, Gandhi viu na guerra uma oportunidade para conquistar a independência e lutou decididamente por ela. Foi preso mais uma vez, ainda que no luxo relativo do Palácio de Aga Khan de Pune (onde morreu sua esposa). O governo trabalhista, depois da Guerra, enfrentando uma forte oposição, se empenhou para conceder a independência, em 1946. Seguiu-se a separação da Índia em dois Estados distintos, um hindu (Índia) e outro muçulmano (Paquistão). A esta separação Gandhi se opôs energicamente e que criou fortes hostilidades que geram tensões e perigos até hoje.

Como modelo inspirador e símbolo, Gandhi não teve nenhum equivalente no século XX.

Durante a guerra chegou a exortar os britânico que convidassem “Herr Hitler e o Signor Mussolini a tomar tudo que quisessem dos Países que chamais de vossas possessões... e se estes senhores decidirem ocupar as vossas casas, deixai; se não permitirem que ides embora, deixai que vos massacrem, mas refutai categoricamente jurar fidelidade a eles”. Numa entrevista concedida no final da guerra, foi além, declarando que “os judeus na Europa deveriam se oferecer à faca do carniceiro”.

Para Gandhi, tentar derrubar uma tirania, ou opor-se a um genocídio, equivalia a cometer um gesto tão execrável como a própria tirania e o próprio genocídio – opinião que parece retomada hoje por aqueles que se opõem a qualquer tipo de intervenção para acabar com um genocídio. Mas, apesar disso, Gandhi não somente derrotou o Império britânico, mas a própria idéia de império. E fez isso resistindo aos britânicos e ao mundo, fazendo-se de espelho no qual eles pudessem se refletir enquanto pregavam a legalidade, a democracia e os direitos civis na pátria, oprimindo os outros povos estrangeiros. E na segunda metade do século XX foi esta a visão que triunfou.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Gandhi foi um estrategista refinado que encontrou a maneira de combater o império - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV