Seremos todos cyborgs. Entrevista com Raymond Kurzweil

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10 Novembro 2006

Raymond Kurzweil acredita que estará vivo para presenciar o "momento metamórfico", quando computadores superarão a inteligência humana. É verdade que, aos 58 anos, talvez tenha de viver outro meio século ou mais – mas já está cuidando disso, com seu próprio método de longevidade. Nesse futuro não muito distante, robôs microscópicos percorrerão as veias humanas até chegar ao cérebro. Ali, serão capazes de ligar e desligar os cinco sentidos, conectar-se à internet e fazer download de novas habilidades. O mais incrível é que as previsões desse cientista e inventor americano, gênio profissional desde a infância, estão sendo ou possivelmente ainda serão confirmadas pelos fatos. Como uma espécie de Professor Pardal moderno, Kurzweil dedica mais da metade do seu tempo a prever o futuro da tecnologia e a criar máquinas a partir desses avanços. Na semana passada, fez uma apresentação em São Paulo – diretamente de Dallas, no Texas: a "pessoa" que discorreu sobre tecnologia do futuro e conversou com a platéia era sua imagem virtual projetada no palco com grande realismo. A entrevista a seguir é publicada pela revista Veja, 15-11-2006.

A revista IHU On-Line, no. 200, sob o título, dedicou um amplo espaço ao tema.

Como foi sua apresentação virtual no Brasil?

Eu apareci para a platéia em tamanho natural e em três dimensões. É uma imagem muito realista. Em outras apresentações que fiz com essa tecnologia, as pessoas pensaram que eu estava presente de verdade. Um espectador até veio ao palco me entregar um papel.

Alguma semelhança com o pedido de socorro da Princesa Leia no primeiro Guerra nas Estrelas?

É outra tecnologia. A aparição dela, uma holografia, era um pouco embaçada, parecia ter baixa resolução. A minha tem alta resolução.

O senhor apostou 10.000 dólares que até 2029 um computador será capaz de responder a uma série de perguntas como se fosse humano. Como isso será possível?

Os computadores vão atingir inteligência equivalente à humana, tanto no campo do hardware (a máquina) quanto no do software (o programa). A máquina precisa ter capacidade de cálculo e memória suficientes para simular todas as diferentes áreas do cérebro, e acredito que isso será alcançado por um supercomputador até 2010 e por um computador pessoal comum até 2020. Já na parte do software, o caminho é a engenharia reversa, método que consiste em desmontar um equipamento para ver como ele funciona, aplicada ao cérebro humano. Os conhecimentos nessa área têm evoluído exponencialmente. A quantidade de informações que possuímos sobre o cérebro humano dobra a cada ano, e acho que vamos terminar de modelar e simular todas as suas áreas, inclusive aquela na qual processamos o pensamento abstrato, em cerca de vinte anos. Até 2029, teremos tudo pronto.

O senhor já mudou de idéia a respeito de alguma de suas muitas previsões?

Até agora, não. No meu primeiro livro, The Age of Intelligent Machines, escrito há vinte anos, previ o surgimento de uma rede de comunicação internacional em meados dos anos 90. Previ que um computador venceria um campeonato de xadrez em 1998 (aconteceu em 1997). Previ que em 2013 um supercomputador conseguiria fazer os cálculos necessários para um computador alcançar a inteligência humana e, logo depois que publiquei o livro, o Japão anunciou o projeto de um supercomputador que atingiria essa marca em 2010. Minhas projeções na verdade são bem conservadoras. Eu me esforço para fazê-las assim, embora as pessoas as considerem exageradamente otimistas.

Como o senhor faz suas projeções?

Eu percebi, há trinta anos, que a chave para o sucesso de projetos tecnológicos é o timing. Muitas invenções fracassaram não porque não funcionavam, mas porque não dispunham de todos os fatores necessários para dar certo. Passei a estudar tendências, acumulei dados sobre a evolução da tecnologia e desenvolvi modelos que funcionam bem. É verdade que não se pode prever o futuro, mas a forma como conteúdos e processos de tecnologia se desenvolvem é bem previsível. Veja o seqüenciamento genético: a quantidade de informação genética dobra todo ano. Não é um cálculo aproximado. É exatamente isso.

Por que a tecnologia evolui dessa forma?

Basicamente porque ela desenvolve certa capacidade e usa essa capacidade para chegar ao degrau seguinte. Os primeiros computadores levaram anos para ser criados porque foram feitos a partir de papel, caneta, fios e chave de fenda. Agora utilizamos computadores para criar as próximas gerações em questão de horas. Estamos sempre empregando a última tecnologia para desenvolver a próxima, e ela vai ficando mais e mais poderosa.

O senhor afirma que chegará o momento em que as máquinas vão superar a inteligência humana. Como será isso?

Com a engenharia reversa, seremos capazes de reproduzir todas as áreas do cérebro humano. Vamos entender como funciona a inteligência humana e utilizar esses métodos em computadores. Aí, combinando as formas em que a inteligência humana é superior com as formas em que as máquinas são superiores, teremos um poder muito grande: as habilidades da máquina, como velocidade e memória, combinadas com o reconhecimento de padrões da inteligência humana. Por volta de 2030, um computador comum será mil vezes mais poderoso que o cérebro humano.

Alguns pesquisadores temem o que pode acontecer com a humanidade quando os computadores se tornarem inteligentes demais. O senhor tem algum receio?

Nenhum. As máquinas inteligentes serão parte da nossa civilização. Vamos ficar cada vez mais próximos delas. Vamos carregá-las no bolso, elas estarão na nossa roupa – até no nosso corpo, expandindo a nossa própria inteligência.

Dentro do corpo?

Falo dos nanobots, robôs do tamanho das células do sangue. Já estão sendo testados com sucesso em animais e devem estar bem sofisticados em 2020. Os nanobots chegarão ao cérebro pelas veias e poderão interagir com nossos neurônios biológicos, tornando-nos mais inteligentes, melhorando nosso bem-estar físico e aumentando a longevidade.

O senhor acha que poderá testemunhar essas extraordinárias mudanças?

Estou me preparando para isso. No livro A Medicina da Imortalidade, que assino com Terry Grossman, falamos das trêspontes que levarão à extensão da vida. A primeira é a que pessoas como eu já estão trilhando, fazendo uso do conhecimento existente para se manter em boa forma, envelhecendo o menos possível. Só assim poderemos cruzar a segunda ponte, que será a reprogramação da biologia, resultado da revolução da biotecnologia. Descobrimos recentemente que podemos ligar ou desligar genes, adicionar novos, ligar enzimas e reprogramar a biologia, de modo a evitar doenças e envelhecimento. Isso também está avançando exponencialmente. Em dez ou quinze anos vamos ter as ferramentas para superar o processo de envelhecimento e de muitas doenças. Eu mesmo envelheci bem pouco nos últimos dezoito anos. Quando tinha 40, minha idade biológica era 38. Agora tenho 58 e minha idade biológica é 40 anos. Portanto, envelheci dois anos em dezoito. Em 25 anos, espero continuar com idade biológica de 40. E até lá teremos ferramentas ainda mais poderosas.

E qual seria a terceira ponte?

Os nanobots, que serão colocados no corpo e nos manterão saudáveis de dentro para fora. Parece ficção científica, mas muito disso já está sendo desenvolvido e demonstrado em animais. Um cientista já curou o diabetes tipo 1 em ratos com microrrobôs que controlaram a produção de insulina internamente. Outro, do MIT, fez uma conexão entre os nanobots e células cancerígenas e conseguiu destruí-las. Levando-se em consideração a impressionante evolução dessa tecnologia, o cenário que prevejo é bastante realista. As pessoas da minha idade poderão realmente continuar vivas e saudáveis por muito mais tempo.

O que o senhor faz para cuidar da sua saúde?

Eu tomo suplementos e sigo uma dieta especial. Para cada aspecto do envelhecimento – do cérebro, do olho, da pele, do sistema digestivo –, sigo um programa baseado em suplementos e aspectos nutricionais. Também monitoro a saúde, vigiando cerca de cinqüenta fatores do sangue. Acho que vou indo muito bem.

Programas de inteligência artificial já são usados na leitura de eletrocardiogramas, para decolar e aterrissar aviões, para guiar armas inteligentes e até para tomar decisões sobre investimentos. O que mais farão no futuro próximo?

Vamos ver a inteligência artificial lidar com a linguagem humana com muito mais habilidade. As ferramentas de busca, em vez de procurarem uma palavra isolada, sem entender o que significa, vão compreender o que lêem e poderão buscar conceitos. Vamos interagir com agentes virtuais, na web, no telefone, em linguagem natural. As traduções automáticas serão muito mais aperfeiçoadas. Minha empresa acaba de introduzir no mercado um equipamento portátil para cegos, que lê qualquer material impresso: outdoor, instruções numa caixa, a tela do monitor no caixa automático, cardápio. Em alguns anos vamos acrescentar a capacidade de descrever objetos e ambientes.

Computadores e telefones celulares mudaram a vida da humanidade nos últimos dez anos. No futuro próximo, alguma outra tecnologia terá impacto semelhante?

Nós dois agora estamos em um espaço de realidade virtual que incorpora um sentido, a audição, pelo telefone. Nas próximas décadas, teremos imagens projetadas diretamente na retina, através de óculos, e poderemos criar ambientes completos de realidade virtual. Ou seja, com a mesma facilidade com que você fez esta ligação, nós poderemos estar sentados frente a frente no Taj Mahal, numa praia do Mediterrâneo ou aí no seu trabalho, em um ambiente totalmente criado. No futuro, teremos também a realidade virtual sobreposta à realidade real, como uma espécie de pop-up em uma camada acima da realidade real, capaz de lembrar a pessoa de um nome, um aniversário, o que for.

A essa altura, ninguém mais vai poder se isolar em uma praia sem telefone, sem televisão, sem computador, desconectado do mundo?

Isso será possível, sim. Mas, com a realidade virtual ligada ao sistema nervoso, com nanobots substituindo os sinais enviados pelos sentidos reais por sinais de um ambiente virtual, a pessoa poderá ir para alguma praia imaginária, que talvez seja muito melhor do que as praias de verdade.

Vamos chegar ao ponto em que computadores farão tudo sozinhos, sem interferência dos humanos?

No meu modo de ver, o homem vai se fundir com a tecnologia. Teremos seres humanos com milhões de computadores no cérebro, híbridos de inteligência biológica e não-biológica. Esse tipo de cyborg ainda se considerará humano. Eu também o considerarei humano. Alguns já existem. Uma pessoa que tem a doença de Parkinson pode implantar neurônios artificiais para substituir aqueles que foram destruídos. No futuro, porém, isso acontecerá de forma não invasiva. Não vamos poder entrar numa sala e separar, de um lado, computadores e, de outro, seres humanos. Será tudo misturado.

O senhor gosta de filmes de ficção científica?

Não muito. Fico irritado com o fato de explorarem uma mudança e o resto continuar igual. Em Inteligência Artificial, por exemplo, tirando os cyborgs semelhantes aos humanos, nada mais mudava: a cafeteira era igual, os carros eram iguais, não existia realidade virtual. É ridículo. A maioria dos filmes sobre o futuro faz isso. Eles ainda tendem a mostrar a tecnologia como uma coisa ruim, que causa destruição. Eu não concordo, embora também não tenha uma visão utópica. Acho que continuaremos a ter conflitos humanos e a tecnologia será usada para o bem e para o mal. Mas é inegável que ela mais ajuda do que prejudica.

Como nasceu Ramona, seu alter ego virtual?

Em uma conferência de tecnologia, entretenimento e design, em 2001. Coloquei sensores magnéticos na minha roupa, de forma que os computadores captassem todos os meus movimentos e, em tempo real, formassem uma imagem bastante realista de uma jovem, Ramona, roqueira de 25 anos de Nova Orleans. Ela basicamente se movimentava como eu me movimentava. Minha voz foi transformada na voz dela, usando outra tecnologia. A platéia me via e também via Ramona, como se fosse ela que estivesse fazendo a apresentação. Foi muito intrigante.

Como era se ver no corpo de outra, digamos, pessoa?

Conforme eu me olhava no monitor, era como olhar no espelho, só que, em vez de ver a imagem de sempre, eu via outra pessoa. Entrei mesmo no personagem e percebi que o corpo que eu tenho é apenas uma forma de eu me expressar. No futuro, teremos experiências como essa rotineiramente, e de maneira muito mais realista.

E qual foi seu objetivo ao criar Ramona?

Mostrar que, em ambientes de realidade virtual, podemos ser outra pessoa. Acompanhe meu raciocínio. No fim da década de 2020, os nanobots instalados no cérebro poderão desligar os sinais emitidos pelos sentidos reais e substituí-los pelos sinais equivalentes vindos de um ambiente virtual. Aí teremos a realidade virtual diretamente no sistema nervoso e nos sentiremos realmente dentro do ambiente virtual, incorporando todos os cinco sentidos. Aliás, o design de ambientes virtuais será uma nova forma de arte. E a pessoa vai poder escolher não só o ambiente como também seu corpo virtual. Quando mexer a mão na frente do rosto, mexerá a mão virtual, não a real. Uma professora poderá pedir ao aluno que seja um personagem histórico, e não apenas que se vista como um. Poderemos explorar várias facetas da nossa personalidade.

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