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30 Novembro 2010

A pessoa não é mero corpo nem puro instinto, nem copula, como os animais, só para procriar.

A opinião é do teólogo moralista e sacerdote espanhol Benjamín Forcano, autor de "Nova Ética Sexual" (Ed. Musa, 1996), em artigo para o jornal El Periódico, 29-11-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Quem não conhece um pouco a história certamente pensará que, na Igreja Católica, as normas são inamovíveis. Mas nada é mais distante da realidade. No século XIII, bulas do Papa Inocêncio IV e, no século XVI, do Papa Leão X afirmavam "ser vontade do Espírito queimar os hereges", e Galileu foi censurado para evitar que a razão científica pudesse se constituir à margem do magistério. Mais recentemente, continuava-se afirmando que a Igreja "é uma sociedade de desiguais", que "a divisão de classes na sociedade está conforme à vontade divina", que "a liberdade religiosa era pouco menos do que um delírio", que "o matrimônio era um contrato entre um homem e uma mulher para procriar".

O Concílio Vaticano II (cúpula do magistério eclesial) modificou essas perspectivas. Afirmou que é lei fundamental a igualdade de todos os membros dentro da Igreja, que é fundamental o direito à liberdade religiosa e compreender o matrimônio como uma comunidade de vida e amor, tendo razão de ser mesmo quando falte a descendência.

Duas coisas parecem ser muito claras aqui: o matrimônio com seu âmbito de intimidade sexual não se justifica nem se ordena à procriação, e sua razão fundante é o amor – que pode ser fecundo ou não – e se manifesta nas expressões gozosas do prazer. O prazer, componente e consequência do amor, é tão legítimo como o próprio amor. Descarta-se a necessidade de justificá-lo como subordinado à procriação. Ele é bom, legítimo e santo como o amor.

O problema surge quando, no exercício dessa intimidade, pretende-se estabelecer como única norma dominante o respeito à estrutura biológica do ato sexual, que deveria se desenvolver sem interposição ou alteração de nenhum tipo. Tal norma responderia a uma visão fisicista da sexualidade humana, reduzida ao quadro natural-instintivo de uma sexualidade animal, que se esgota – supostamente – apenas na procriação: "Natural, dizia Ulpiano, é o que a natureza ensinou a todos os animais".

Mas esse aforismo falseia o significado natural da sexualidade humana. A pessoa humana não é mero corpo nem puro instinto, nem copula, como os animais, só para procriar. A pessoa tem a responsabilidade de discernir e, em uma situação de conflito de valores, de escolher aqueles que, conscientemente, considere como mais importantes.

Essa é a moral tradicional, que diversos episcopados ensinaram, quando do conflito da encíclica "Humanae Vitae" de Paulo VI: "A esse respeito, recordaremos simplesmente o ensinamento constante da moral: quando se está em uma alternativa de deveres, na qual qualquer que seja a determinação tomada não se pode evitar um mal, a sabedoria tradicional prevê buscar diante de Deus qual é, em tal conjuntura, o dever maior" (La Croix, 10 e 11 de novembro de 1968).

Uma proposta idêntica cabe ser aplicada à Aids. "O que diz o moralista cristão quando surge o dilema: ou preservativo ou Aids?", pergunta-se nas páginas de "Nueva Utopía". "Encontramo-nos diante de um caso típico, no qual o Papa atual (João Paulo II, quando o livro foi publicado) pensa de um modo diferente da maior parte dos teólogos e dos leigos que pensam criticamente.

"Imagine-se – continua – dois casos: um homem casado sabe que está infectado com Aids. De nenhuma forma pode expôr sua mulher ao perigo de contágio. Nessa situação, seria irresponsável gerar uma nova vida, que, com toda probabilidade, também seria infectada. Usando o preservativo, pode evitar os dois perigos. Sem preservativo, o ato matrimonial com sua mulher seria sem dúvida um pecado contra o quinto mandamento.

"Outro caso: um homem tem, fora do matrimônio, contatos sexuais, embora sabe que está infectado com Aids. Se o fizer com preservativo, comete, sem dúvida, um pecado contra o sexto mandamento. Se o fizer sem preservativo, peca, além disso, contra o quinto mandamento".

Houve Papas (Alexandre VII e Inocêncio XI) que declararam como pecado grave o uso do matrimônio feito apenas por prazer e até um beijo que é dado só por prazer.

A esse respeito, comenta Häring: "A história e a própria experiência nos ensinam, mais do que suficientemente, que todos nós, sem excluir os Papas, com frequência podemos errar e asseverar estupidezes com uma seriedade surpreendente. A Igreja ganharia muito se todos nós – em todos os planos – quiséssemos aprender com tudo isso".

É um fato comum que o Evangelho tem poucas orientações ou normas de caráter sexual. Vazio esse que se preencheria historicamente com o recurso ao modelo cultural dominante. É o que fizeram os Santos Padres, entre eles Santo Agostinho e São Tomás.

O enfoque do Vaticano II deve marcar o pensar e o agir dos cristãos: "É dever de todo o Povo de Deus e sobretudo dos pastores e teólogos, com a ajuda do Espírito Santo, saber ouvir, discernir e interpretar as várias linguagens do nosso tempo, e julgá-las à luz da palavra de Deus, de modo que a verdade revelada possa ser cada vez mais intimamente percebida, melhor compreendida e apresentada de um modo conveniente".

 

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