O encontro de Teresa D'Ávila com uma psicanalista

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22 Junho 2010

A escritora e psicanalista francesa (de origem búlgara) Julia Kristeva participou da noite de encerramento do Festival de Literatura de Roma, nesta terça-feira, na Basílica de Massenzio, na qual Tiziano Scarpa também participou. Ela leu um texto inédito intitulado "La Passione secondo Teresa D’Avila" (a santa a quem dedicou o ensaio "Teresa, mon amour", Ed. Donzelli, 2009), do qual publicamos aqui um trecho.

O artigo foi publicado no jornal La Stampa, 22-06-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Como explicar esse estranho encontro entre uma santa e uma psicanalista? Não lhes direi tudo. Lembrarei apenas que hoje é impossível viver sem se dar conta de que os encontros entre religiões não são estranhos aos cenários econômicos que incumbem sobre a nossa cotidianidade e ameaçam a paz no mundo. Confesso-lhes que faço parte daqueles (raros?) escritores e intelectuais europeus convictos de que existe uma cultura europeia da qual não andamos muito orgulhosos.

Estou profundamente persuadida de que, só a partir de uma melhor apropriação crítica da pluralidade das suas culturas, a nossa Europa poderá desempenhar um papel decisivo nos diversos conflitos que se acumulam no horizonte. Trata-se, exatamente, de uma "transavaliação" (para usar um termo nietzschiano) dos valores judaicos, cristãos, mas também muçulmanos e dos da secularização.

Sim, o fio da tradução foi cortado, advertem-nos Tocqueville e Hannah Arendt, e vocês têm diante de vocês uma mulher que se considera ateia: não por acaso, a minha heroína termina o seu relato sobre Teresa com uma carta dirigida a Denis Diderot que, naquele momento, fustigava os abusos da religião, particularmente no "A Religiosa", o célebre romance incompleto. Mas Diderot, ex-canônico e escritor-filósofo dos Iluministas, se lamentava por não conseguir terminar a sua história, porque, libertada dos abusos da vida monástica, a sua religiosa foi jogada em uma vida privada de sentido.

Tenho a pretensão de acreditar que a psicanálise freudiana, que interroga os mitos e a história das religiões, e ao mesmo tempo escancara as portas da vida interior dos homens modernos, é a via mestra para transavaliar, justamente, aquela tradição que nos precede e com a qual nós, não crentes, cortamos o fio. Nós, não crentes. Mas também nós, crentes muito frequentemente reduzidos a "elementos das religiões" (como se diz dos "elementos da linguagem", esquecendo a complexidade da experiência).

 

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