Clara e Francisco: soldados da pobreza

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22 Novembro 2011

Um novo estudo da historiadora italiana  Chiara Frugoni se dedica aos estudos dos santos de Assis.

A reportagem é de Mariapia Veladiano, publicada no jornal La Repubblica, 14-11-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Por amor, volta-se mais uma vez, e depois de novo, e depois novamente, a frequentar a mesma pessoa, a repassar os lugares dos quais conhecemos cores e sombras, a ouvir novamente palavras que podemos repetir de memória mais do que uma oração cara da infância, em busca daquele núcleo de luz que promete, todas as vezes, um estupor diferente.

Algo de muito semelhante ao amor parece levar Chiara Frugoni a nos presentear agora um novo livro, tecido com paixão em torno daquela história extraordinária que viu São Francisco e Santa Clara juntos em uma aventura espiritual que jamais deixa de falar à nossa vida de homens e de mulheres.

Storia di Chiara e Francesco, publicado nestes dias pela editora Einaudi, vem depois de uma série de artigos, discursos, estudos que Chiara Frugoni já dedicou tanto a São Francisco e Santa Clara, quanto ao "tempo do aproximadamente", como ela gosta de chamar a Idade Média no texto, em que um ano também pode ser o antes ou o depois, quase como uma antecipação do único tempo eterno que São Francisco sabia que era a promessa de Deus ao mundo.

E assim, com a desenvoltura que lhe vem de um conhecimento maravilhoso de documentos, fatos, lugares e pessoas, a autora segue os caminhos de Clara e Francisco ainda não santos (mas por pouco tempo; ambos serão santos logo, dois anos depois da morte). Ele, em espontânea e preciosíssima luta contra os "pensamentos fechados de lucro e ganhos" do seu ambiente familiar, dentro de um clima citadino de forte luta entre a sua classe, a dos "homines populi", e a classe dos "boni homines", nobres, poderosos e inacessíveis, "a serem odiados, mas também admirados".

E ela ainda segue Francisco depois da batalha de Collestrada, encerrado na atroz prisão de Perugia, cercado por feridos para os quais "a morte não consegue vir". E depois nos muitos confrontos tremendos e necessários: com o pai, com os concidadãos, consigo mesmo, em uma tempestade de impulsos e abandonos e retornos muito humanos, até à solidão, na qual ele encontra Deus e o homem juntos. Deus para o homem.

E uma nova história nasce, e nada é mais como antes, e Francisco, agora na boa companhia do seu Senhor, mostra com a sua bizarra e jamais vista comunidade de leigos e clérigos e nobres e cultos e iletrados, que o Evangelho pode ser posto em prática, de verdade.

Enquanto isso, Clara menina cresce, e as fontes dizem que muito em breve ela se interessou por aquilo que acontecia em torno de Francisco, até aos encontros com ele, à vocação, à fuga e ao nascimento da sua comunidade em São Damião. Em tudo semelhante à de Francisco: pobre, a serviço dos homens, com a extraordinária novidade das "sorores extra monasterium servientes", irmãs ativas entre os homens e as mulheres do mundo, testemunhas do Evangelho, como os freis de Francisco, com a mesma liberdade.

Liberdade é a palavra que Chiara Frugoni nos dá como sigla dessa história. Em uma sociedade obrigada à luta pelo poder e pelo dinheiro, os irmãos de Francisco e as irmãs de Clara rejeitavam toda honra, odiavam o poder, suplicavam ao pontífice que conservasse o "privilégio da pobreza". Uma pureza implacável que lhes chegou a partir do Evangelho e que se tornou vontade muito firme de construir "um modelo de comportamento que pacificamente se contrapusesse ao que estava em voga e que pacificamente o tirasse do eixo". Pacificamente, renunciando também à violência implícita em todo julgamento, livres também das santas expectativas: "E no Senhor ama-os. E não pretenda que sejam cristãos melhores", escreveu Francisco a um ministro irmão seu perturbado por aqueles que o acusavam injustamente. Era a época das origens, aliança inimaginável entre terra e céu. Muito em breve veio o tempo das acomodações as quais a história sempre obriga.

Certamente, a leitura ao mesmo tempo rigorosa e combatente de Chiara Frugoni pode fazer nascer algumas críticas, como sempre acontece quando o amor por uma pessoa ou por uma história é compartilhada com muitos. Porque o amor muitas vezes é ciumento.

Talvez seja verdade que o desfecho da história de Clara, a clausura estrita decretada em 1263 por Urbano IV, se assemelhe muito a um fracasso humano. Mas nem sempre os resultados diferentes dos esperados são fracassos. Quem acredita pode reconhecer muito bem, na vida escondida das clarissas, a pobreza subterrânea de uma beatitude igualmente profética.

No entanto, é difícil negar que a batalha pela pobreza tenha sido um verdadeiro fracasso, dado o escândalo que ainda hoje a riqueza da Igreja representa aos olhos do mundo. Porém, aqui também a fé salva da amargura, embora na determinação da verdade a ser afirmada. Eis o que Santa Clara escreveu para Inês da Boêmia, à frente do mosteiro de Praga, a propósito da sua luta comum contra as autoridades religiosas pela defensa do privilégio de ser pobre: "Em rápida corrida, com passo ligeiro e pé firme, de modo que os teus passos não levantem poeira, avança segura, feliz e confiante no caminho de uma felicidade pensativa".

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