Quebec, laboratório da modernidade?

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19 Outubro 2011

A Igreja no Quebec encontra-se hoje em um estado de grande fragilidade. Muitos batizados, embora motivados a viver a sua fé sinceramente, encontram-se desamparados. Os lugares onde poderiam se reencontrar se tornam raros. E a Instituição parece muitas vezes mais ocupada em "gerir o decrescimento" do que em abrir a porta para a esperança.

A análise é de Jean-François Bouchard, editor da Librairie Pauline canadense, em artigo publicado no sítio Baptises.fr, 16-10-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A história do catolicismo e dos católicos no Quebec nos últimos 50 anos é rica e complexa. Por motivos de síntese, nos limitaremos aqui a três pontos de vista, que são reveladores do que ocorreu nesse país. Analisaremos a questão do lugar das mulheres e do feminismo na configuração eclesial; depois, veremos o percurso dos intelectuais dentro da Igreja; por fim, abordaremos o fracasso dos novos movimentos na renovação do tecido da comunidade.

1. O lugar das mulheres e do feminismo

Não é possível entender nada do Quebec contemporânea se não for avaliada a importância da emancipação feminina e da cultura feminista na construção social. Poucas sociedades ocidentais integraram a tal ponto o dado da igualdade dos sexos e da importância da promoção das mulheres em todas as esferas da coletividade. Em 30 anos, passamos de uma sociedade patriarcal nas suas instituições sociais (e matriarcal no espaço doméstico) para uma sociedade na qual a igualdade é uma exigência de todos os momentos.

Certamente, nada é perfeito, e sobretudo nada está totalmente adquirido. Mas hoje os progressos objetivos tornariam difícil as tentativas de retrocesso. Esse dado teve duas consequências entre os batizados.

A primeira foi uma deserção em massa das mulheres da Igreja e das Igrejas. Para um grande número de mulheres que hoje tem mais de 70 anos, havia se tornado inimaginável transmitir o catolicismo aos seus filhos, e às suas filhas em primeiro lugar, tanto a instituição lhes parecia ser retrógrada, sexista e machista. Houve pessoas que proclamaram isso em voz alta. No entanto, a maior parte se deu conta disso sem barulho, afastando-se de facto de uma Igreja que já representava um elemento nocivo na educação à emancipação. Em consequência disso, muitas pessoas da minha geração (eu tenho 50 anos) cresceram no silêncio doméstico sobre Deus e sobre a Igreja.

A segunda consequência do feminismo foi a sua influência difundida dentro da própria Igreja do Quebec. De fato, embora um grande número de mulheres tenha abandonado a Igreja a partir dos anos 1960, muitas, no entanto, permaneceram, motivadas pelas reformas nascidas do Concílio. E essas mulheres, muitas das quais, a partir desse momento, invadiram as faculdades de teologia e de ciências religiosas, desenvolveram uma reflexão nova que introduziu o feminismo na teologia e na eclesiologia.

Nos anos 1970 e 1980, um certo número de bispos prestaram atenção a isso, e alguns deles tomaram decisões de vanguarda, nomeando mulheres a funções reservadas até então a homens (ordenados, evidentemente). Melhor ainda, os bispos do Quebec promoveram a questão feminina junto às instituições romanas e nos sínodos. O que lhes valeu, às vezes, o fato de serem ridicularizados, não tanto por prelados romanos, mas sim por coirmãos franceses!

Essa dinâmica feliz, com o tempo, se enfraqueceu. Porque, por parte da Igreja universal, vieram em resposta poucos sinais de evolução. Porque o discurso oficial pouco a pouco se clericalizou novamente. Há 15 anos, domina claramente a sensação de bloqueio. Dito isto, é preciso lembrar que as organizações fundamentais da Igreja, em particular as paróquias, não viveriam hoje sem a contribuição das mulheres. Sem o seu compromisso, a Igreja do Quebec seria, em um tempo muito curto, uma concha vazia.

2. O percurso dos intelectuais

Assim como as feministas, uma forte porcentagem de intelectuais do Quebec se afastou da Igreja em grande velocidade desde o início da Revolução Tranquila. Mas também nessa categoria alguns permaneceram. O Concílio desempenhou um papel de motivação. Muitos viram a porta aberta para um diálogo com a modernidade e, portanto, para uma contribuição das ciências humanas ao pensamento cristão.

Como em outros lugares, as faculdades de teologia e os centros de formação deram um amplo espaço para a sociologia, para a pedagogia, para a psicologia... O campo dos possíveis parecia ser vasto, sem limites. Os batizados, homens e mulheres, acreditavam que era possível participar plenamente na reflexão da Igreja. No Quebec, o sinal mais forte dessa esperança foi o desenvolvimento de uma comissão de investigação sobre os leigos e sobre a Igreja, instituída pelo episcopado e presidida pelo sociólogo Fernand Dumont, um dos maiores intelectuais do século. Os trabalhos da comissão permitiram abordar todas as questões do momento e conduzir uma reflexão muito articulada em um diálogo franco e exigente.

Até a metade dos anos 1980, a reflexão comum "dos batizados e da hierarquia" foi levada adiante pelo episcopado. Os bispos do Quebec foram reconhecidos por muito tempo pela audácia que demonstravam nos textos que publicavam sobre questões sociais, culturais e religiosas. As mensagens anuais do 1º de maio alimentaram a reflexão dos parceiros sociais em diversos momentos. Nesse contexto, os intelectuais foram motivados para alimentar a reflexão, impulsionados pela sensação de contribuir tanto com a edificação do pensamento crente, quanto com o debate social.

Devemos constatar que esse belo impulso também se desfez. Entre outras coisas, pelo fato de que os bispos estiveram seriamente ocupados pela crise do declínio institucional que tiveram que enfrentar (diminuição do clero, fechamento de paróquias, déficits financeiros...). Mas também porque o discurso institucional católico se recentrou sobre a doutrina e sobre a afirmação identitária. Os lugares de diálogo com a modernidade se tornaram raros. E poucas pessoas veem nisso a pertinência para a credibilidade do cristianismo. Portanto, assiste-se a um segundo êxodo de cérebros em 50 anos. Isso é grave para o futuro do cristianismo neste país.

3. Os novos movimentos religiosos

Como em quase todas as Igrejas ocidentais, a influência dos movimentos evangélicos assumiu a forma da "Renovação Carismática" junto aos católicos daqui. A Renovação reuniu milhares de pessoas. Chegou a reunir 70 mil pessoas no Estádio Olímpico de Montreal em 1970! A força desse movimento deixou rastros em algumas Igrejas em vários países do mundo. Nasceram "comunidades novas". O surpreendente é que (quase) nada disso aconteceu no Quebec. O "sopro" inchou de forma espetacular. E se esvaziou também surpreendentemente.

Embora se possa ter pensado que seria uma fonte de revitalização do catolicismo daqui, poucas coisas derivavam dele. Certamente, há algumas comunidades novas que continuam vivendo em algumas regiões do país. Mas não têm nada a ver com a criação de um novo tecido social portador de um futuro significativo para o catolicismo do Quebec.

Por razões difíceis de explicar, pouco do que aconteceu depois do Concílio, e depois da Revolução Tranquila, trouxe frutos duradouros para um futuro possível.

A Igreja no Quebec encontra-se hoje em um estado de grande fragilidade. Muitos batizados, embora motivados a viver a sua fé sinceramente, encontram-se desamparados. Os lugares onde poderiam se reencontrar se tornam raros. E a Instituição parece muitas vezes mais ocupada em "gerir o decrescimento" do que em abrir a porta para a esperança.

 

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