A esquerda latino-americana e a "primavera árabe"

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14 Outubro 2011

"Sobre as insurreições nos países do Oriente Próximo, ficamos bastante surpresos ao ver nossos amigos latino-americanos defenderem posturas que estamos acostumados a ler dos aduladores das ditaduras no mundo árabe". O comentário é de Sami Nair (foto), professor da Universidade Pablo de Olavide de Sevilha em artigo no El País, 13-10-2011. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

A revolução democrática árabe não apenas surpreendeu o mundo, mas também transformou os paradigmas tradicionais da esquerda que, assim como a direita, não conseguiu pressenti-la. Na Europa, apesar de algumas vacilações, a esquerda radical ou social-liberal tem reagido em geral de maneira positiva, acolhendo essa irrupção das massas como um acontecimento de alcance histórico. Não é o caso, infelizmente, da grande maioria da esquerda radical latino-americana.

Não se trata aqui de generalizar, posto que esta esquerda radical apresenta diferenças. Não obstante, no transcurso do colóquio organizado em Buenos Aires (8 e 9 de setembro de 2011) por Capital Intelectual, Le Monde Diplomatique - edição Cone Sul e Mémoires des luttes, nós, participantes europeus, ficamos bastante surpresos ao ver nossos amigos latino-americanos (por sorte, nem todos) defenderem posturas que estamos acostumados a ler dos aduladores das ditaduras no mundo árabe.

Em linhas gerais, Ignacio Ramonet, Bernard Cassen, Santiago Alba, a jornalista Dilma Katib e eu mesmo, quando defendíamos as revoluções democráticas árabes éramos acusados de ingenuidade e quase de complacência com o imperialismo ocidental. O fato de que a OTAN tenha se envolvido nos bombardeios na Líbia desacreditava de antemão nossas tentativas de fazer compreender a legitimidade da revolta contra a tirania de Gadafi.

Quanto às revoluções na Tunísia e no Egito, nos inteiramos pela boca de intelectuais vindos da Venezuela, do Brasil e inclusive da Argentina, de que estas não eram mais do que "movimentos sociais violentos" e de maneira nenhuma revoluções. Nosso companheiro Fathi Chamki, universitário e sindicalista tunisiano ali presente, protagonista da revolução, indignava-se. Mais grave ainda, tudo parecia transcorrer como se, ao defender essas revoluções, dispuséssemos-nos sem sabê-lo a aceitar possíveis intervenções imperialistas contra certos regimes atuais da América Latina.

Essa visão é simplesmente desoladora. Baseia-se em vários erros graves.

Em primeiro lugar, a análise está baseada no prejuízo de que, ao não serem dirigidas por partidos revolucionários ou "vanguardas", essas revoluções não podem ser interpretadas como transformadoras. Isso não é entender nada. É verdade que a onda democrática árabe não se parece nem com a revolução russa de 1917, nem com a Revolução Francesa de 1789, nem com a Revolução Cultura chinesa, nem com as insurreições na América Latina dos anos cinquenta e oitenta do século passado.

Assemelham-se, por outro lado, perfeitamente com as insurreições civis anti-totalitárias dos países do Leste, depois da queda do muro de Berlim. São revoluções do Direito, da Dignidade, do progresso social e da liberdade identitária. São, sobretudo, irrupções de sociedades que se emanciparam das elites autoproclamadas e que encontram inspiração nelas mesma. É verdade que não têm programa pré-concebido algum, mas o constróem na luta.

São incapazes de conquistar o poder imediatamente? Enquanto esperam, criam uma situação de duplo poder frente ao antigo regime que combatem pouco a pouco, diariamente. Podem ganhar, mas também perder: nada está definido de antemão. São às vezes democráticas e ávidas de reivindicações sociais radicais. Querer encerrá-las em uma definição que lhes daria uma patente de revolução é não apenas dar provas de uma pedanteria rídicula, como também insultar povos que enfrentam a morte porque querem viver livremente.

Em segundo lugar, a OTAN interviu sob o mandato da ONU e num marco perfeitamente limitado, impedindo que a França e o Reino Unido, cujos interesses neocoloniais conhecemos, o façam sózinhas. Essa intervenção, que seguramente salvou de um massacre as populações civis de Bengasi por parte do Exército de Gadafi, reforçou de fato a vontade de resistência dos líbios em todo o país. Alentou também o processo revolucionário no mundo árabe.

A evidência contrária é fornecido pela inibição trágica da comunidade internacional na Síria, onde civis que se manifestam pacificamente estão a mercê dos crimes bárbaros dos soldados de Assad. Quando nossas cândidas almas revolucionárias compreenderão que os regimes militares árabes são o que pior há para os seus povos? Que os cidadãos árabes já estão fartos de vegetar sob a bota de tiranos, ignorantes e mafiosos? Em nome de que ideologia, de que razão de Estado, de que alianças internacionais devemos sacrificar a liberdade desses povos?

Em terceiro lugar, e por último, sem falar de Mubarak, de Ben Ali ou de Saleh, fiéis servidores dos EUA, do El Asad, partidários dos integrismos mais retógrados de hoje no Oriente Próximo (Arábia Saudita e Irã), é uma piada de mau gosto acreditar que Gadafi é um amigo das revoluções latinoamericanas. A verdade é que se vendeu a certos movimentos latinoamericanos o mito de que era um revolucionário anti-imperialista, enquanto que para os líbios era um criminoso.

Esse tirano destruiu em 40 anos o Estado líbio criado pela ONU e perseguiu, prendeu e assassinou as principais figuras da oposição da esquerda líbia, a dirigentes democratas e a militantes dos direitos humanos; potencializou como nunca na história das populações árabe-africanas do deserto, e a golpe de milhões de dólares, o tribalismo mais retógrado; converteu a nação líbia numa chamada jamahirya (república das massas), instituindo uma relação de domínio baseada no terror e na arbitrariedade absoluta; perseguiu com crueldade os palestinos, a quem aconselhava "atirarem-se ao mar’; entregou o país a suas extravagâncias de títere e a voracidade de sua família mafiosa; comprou e corrompeu dezenas de regimes ditatoriais africanos e se fez proclamar "rei dos reis" na África; criou campos de internamento dos imigrantes clandestinos africanos em território líbio em troca de apoio político da União Européia e , acima de tudo, se tranformou em reforço da Administração americana ao subcontratar a CIA para torturar na Líbia os prisioneiros de Guantánamo.

Poderíamos descrever páginas e páginas outras 1.000 atrocidades de que é culpável esse demente, cruel e cínico. É por culpa dos Gadafi, Mubarak, Ben Ali, El Asad e Saleh que o integrismo religioso tenha aumentado em todo o mundo árabe. São estes regimes os que literalmente deixaram loucos de raiva os povos árabes.

O desconhecimento na América Latina da situação árabe é suficiente para explicar, junto a uma boa dose de maniqueísmo, a obsessão da esquerda diante da insurreição dos povos árabes. Esses "revolucionários" estão na realidade mais próximos da razão de Estados dos regimes que defendem do que da solidariedade com os oprimidos.

Em vez de aplaudir Sarkozy e Cameron, homens, mulheres e crianças revoltas no mundo árabe de hoje, teriam preferido encontrar ao seu lado os símbolos da revolução latinoamericana. Há o risco de que se estabeleçam novas formas de dominação neocolonial. Para se opor a esse risco, os povos árabes em luta pela democracia necessitam mais do que nunca da solidariedade internacional. Mas, se ficarmos presos a certos discursos de esquerda ouvidos no colóquio de Buenos Aires, essa tomada de consciência não acontecerá de imediato.

Resta apenas dizer: "Acordem amigos latinoamericanos, para vocês que dão lição de populismo revolucionário, a revolução árabe os deixou muito atrás dela!".

 

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