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02 Julho 2011

"Não precisamos nos permitir ser reduzidos por novas e poderosas disciplinas da genética, neurociência e computação. Em vez disso, podemos aprender com elas e assimilá-las em uma compreensão mais ampla de nós mesmos. Podemos, de fato, usá-las para se tornar melhores como seres humanos."

A opinião é do escritor e filósofo britânico Stephen Cave, com doutorado em metafísica pela Universidade de Cambridge. É autor de Immortality, que será publicado no ano que vem pela Random House. O artigo foi publicado no jornal Financial Times, 24-06-2011. A tradução é de Anne Ledur.

Eis o texto.

O que é a natureza humana? Um biólogo pode vê-la assim: os seres humanos são animais e, como todos os animais, consistem principalmente de um sistema digestivo para dentro do qual eles socam incansavelmente outros organismos - seja animais ou vegetais, assados ou crus -, a fim de alimentar suas tentativas de reproduzir esse tipo de onívoro ainda mais insaciável e autorreplicante. Os fundamentos da natureza humana, portanto, são a busca de comida e sexo.

Mas isso, o biólogo acrescentaria, é apenas metade da história. O que torna a natureza humana distinta é o atributo particular que o Homo sapiens usa para caçar presas e atrair parceiros potenciais. Tigres têm força, guepardos têm velocidade. Os seres humanos têm algo menos obviamente útil: cérebros estranhamente grandes. Isso faz deles terrivelmente criativos na aquisição de outros organismos para consumir - e, de fato, na forma de prepará-los (que outros animais servem cordon bleu à sua presa?) -, e também mais indiretos em suas estratégias reprodutivas (compõem sonetos, por exemplo, ou inventam passos de dança).

A natureza humana - a predileção por política e guerra, indústria e arte - é, portanto, apenas uma forma especialmente inteligente que os seres humanos desenvolveram para resolver problemas de comer e se reproduzir. Assim, os biólogos acreditam que, uma vez que entenderem o cérebro humano e sua história evolutiva, saberão tudo o que precisam sobre esse tipo ubíquo de macaco.

Ver-nos assim é uma forma de "reducionismo", uma vez que simplifica a complexidade da consciência humana e da sociedade para o funcionamento dos genes e das células do cérebro. Reduzir a maravilha religiosa, a sensibilidade poética e a riqueza da vida social a meros instintos animais parece ser uma caricatura. E esse ainda é o balanço dominante do que é ser humano no início do século XXI.

Assim, hoje os jornais estão cheios de histórias de genes para isto e neurônios para aquilo. Exemplos recentes variam de "O Gene da Infidelidade: um em cada quatro nasceu para ser infiel" para "Cientistas revelam as células do cérebro dedicadas a Jennifer Aniston". Em parte, a visão de mundo reducionista está ganhando prevalência, porque muitas das suas afirmações são verdadeiras: a teoria da evolução está agora firmemente estabelecida, nosso genoma está sendo decifrado e existem indiscutíveis correlações entre a consciência e a atividade cerebral. Mas um problema surge quando os cientistas, os políticos ou os meios de comunicação adotam essa perspectiva biológica na busca de soluções simples para problemas complexos, culpando a crise de crédito, por exemplo, na mentalidade de curto prazo herdada de nossos ancestrais primatas. Alguns pensadores estão, portanto, rebelando-se contra o consenso reducionista.

É claro, aqueles com uma perspectiva fortemente religiosa, muitas vezes a rejeitam completamente. Mas, mesmo pensadores seculares estão cada vez mais resistindo à sua pretensão de ter toda a verdade. Embora alguns vão longe demais com seus ataques - argumentando erroneamente, por exemplo, que não temos nada para aprender sobre nós mesmos com nossa história evolutiva -, tais críticos estão, no entanto, certos em apontar que, ao aceitar a visão reducionista, corremos o risco de fazermos um desserviço perigoso.

Neuromania x Darwinitis

Uma das maiores vozes é Raymond Tallis, filósofo, ex-professor de medicina geriátrica e escritor prolífico. Seu último livro, Aping Mankind: Neuromania, Darwinitis and the Misrepresentation of Humanity, é um ataque total às afirmações exageradas feitas em nome das ciências biológicas.

"Neuromania" é o termo que Tallis utiliza para simplificar todos os aspectos da mente e do comportamento para as descargas de células microscópicas cerebrais; enquanto que "Darwinitis" refere-se à outra vertente de reducionismo biológico, explicando todos os aspectos do nosso comportamento em termos de nossa história evolutiva e/ou os genes que codificam isso. Seu ataque a ambos é duplo: primeiro, ele critica, de forma extremamente rude, muitas das experiências específicas e suas hipóteses e, em segundo lugar, argumenta que o projeto reducionista é, de todas as formas, filosoficamente equivocado.

Suas críticas à prática do reducionismo são, muitas vezes, justificadas: um pesquisador, por exemplo, afirmou ter identificado o centro do cérebro para amor romântico gravando a diferença na atividade neural de indivíduos quando expostos a imagens de pessoas pelas quais eles estavam apaixonados e pessoas que eram meros amigos. Isso parece ingênuo - o que significa estar "apaixonado" não é definido por quais neurônios disparam quando olhamos para uma foto. Quando eu olho para uma imagem de minha amada, sou mais propenso a me perguntar o que ela quer para o jantar do que a refletir sobre a plenitude do nosso amor.

Mas essas experiências são engolidas pela mídia e foram influentes em toda a área de Humanas, onde explicações evolutivas para tudo estão cada vez mais na moda - desde a liberdade de expressão até belas artes. Tallis, que se esforça para salientar que concorda com o darwinismo - ele não é um armário criacionista - está em um terreno forte quando argumenta que a aplicação bruta do reducionismo biológico vai esclarecer pouco sobre como reformar o serviço de saúde ou como ler Ulisses, de James Joyce.

Mas a sua posição torna-se muito mais frágil quando se move para a mais ampla filosofia. Ele argumenta longamente, por exemplo, que a mente não pode nem mesmo, em princípio, ser reduzida ao funcionamento de nosso cérebro sozinha. Essa é uma opinião respeitável, embora sustentada por uma minoria dos que foram pagos para pensar sobre essas questões. A maioria dos filósofos e cientistas acreditam no oposto: que a mente é apenas o produto de uma certa atividade cerebral, mesmo que atualmente não saibamos bem qual. Tallis, portanto, faz uma injustiça, tanto ao leitor quanto a esses pensadores, ao descrever a posição de seus oponentes como "obviamente" erradas, acusando seus erros de "elementares". Sua própria incapacidade de fornecer uma explicação alternativa convincente da mente mostra que esse é um assunto sobre o qual pessoas razoáveis ​​podem diferir sem inclinar-se a insultos.

Mas, embora a maior parte do conteúdo teórico de Aping Mankind não seja convincente - ao que se poderia acrescentar que o livro tem o dobro do tamanho que precisaria ter e é de um tom desagradável e grosseiro - ele é, no entanto, um trabalho importante. Tallis está correto ao apontar que uma mudança fundamental na nossa autopercepção está em curso e, muitas vezes, vai longe demais.

CIências da vida

No entanto, é possível questionar esses desenvolvimentos de uma forma mais comedida, como mostrado em Genes Naked: Reinventing the Human Molecular Age, de autoria de Helga Nowotny, socióloga, e do biólogo Giuseppe Testa. Seu livro é uma análise sutil e sofisticada de como as ciências da vida estão mudando a nossa visão de nós mesmos e os desafios que estão se apresentando.

O título deriva de uma simples, mas reveladora observação que é o papel das ciências de "tornar visíveis as coisas que antes não poderiam ser vistas". Até muito recentemente, não tínhamos ideia de como a hereditariedade funcionou. Agora, nossos genes são revelados a nós. Quando a tecnologia faz algum processo visível pela primeira vez, os cientistas tentam isolar o que vêem, extraindo-o do seu contexto, para poder compreender a sua natureza melhor. O resultado, afirmam Nowotny e Testa, é que eles tendem a atribuir inicialmente demasiada importância a esses processos e subestimam outros fatores - em outras palavras, o reducionismo.

Esta parece ser uma explicação perfeita da "Darwinitis" e da "Neuromania" de Tallis. Assim como nossos genes estão sendo revelados, a nova tecnologia está nos permitindo, pela primeira vez, perscrutar nosso cérebro vivo. Mas, em uma tentativa de compreender o que estão vendo, os cientistas dão um peso desproporcional a essas imagens indistintas. Com o tempo, no entanto, um contra-movimento vai querer ver as entidades recém-reveladas - genes ou células cerebrais - em um contexto mais amplo. Assim, a polêmica de Tallis, em Aping Mankind, poderá ser vista como esse contra-movimento em ação.

Nowotny e Testa exploram vários estudos de caso em que as revelações da biologia estão desafiando a nossa auto-imagem: por exemplo, no debate em torno do doping no esporte. Eles argumentam que a diferença entre o natural (os genes com que nascemos, a comida e o treinamento) e o artificial (drogas, engenharia genética e próteses) é uma ficção, e é insustentável. Assim, a ideia de uma "igualdade de condições" para os concorrentes é, em si, uma ficção: algumas pessoas nascem com genes que as tornam melhores atletas. O que é esse "nível"? Engenharia genética, uma tecnologia frequentemente compreendida como "não natural", poderia, em nível de teoria, nivelar tal desigualdade.

Mas Nowotny e Testa não oferecem respostas para estas perguntas - eles simplesmente as exploram, expondo tensões subjacentes e ironias. Sua principal conclusão é de que precisamos de instituições que sejam flexíveis o suficiente para lidar tanto com ideias sobre a nossa natureza e também diversas, e evoluindo atitudes públicas (citando a Autoridade de Embriologia e Fertilização Humana do Reino Unido, por exemplo). Essas instituições devem apoiar os cidadãos a fazer escolhas autônomas, argumentam eles, caso em que estão otimistas de que novos desenvolvimentos em ciência e tecnologia podem "dar poder ao indivíduo criativo".

Humanos como máquinas

Essa é uma visão compartilhada por Brian Christian, em seu excelente primeiro livro The Most Human Human: A Defence of Humanity in the Age of the Computer. O ponto de vista reducionista sugere que somos apenas máquinas biológicas; e, sendo assim, então todos e quaisquer de nossas capacidades devem ser alcançadas por outros tipos de máquina, tais como computadores. Essa é a opinião de muitos na comunidade científica e tecnologia, e um bom número está na corrida para construir a primeira máquina verdadeiramente inteligente e provar a teoria.

O teste convencional de se um computador pode pensar como um ser humano ficou conhecido como Teste de Turing, devido ao pioneiro em computação, o inglês Alan Turing, que criou a prova na década de 1950. É simplesmente isto: um assessor conversa em separado, geralmente através de um terminal remoto, com um ser humano e com uma máquina. Se o assessor não pode dizer qual é qual, a máquina passou no teste - algo que nunca aconteceu ainda. Um ajuste anual do Teste de Turing, chamado Prêmio Loebner - por causa de seu patrocinador, Hugh Loebner - fornece o brilhante conceito para o livro de Christian.

A configuração é esta: Christian faz parte do Prêmio Loebner como um dos seres humanos que vão contra as máquinas. Se um exator é enganado e acredita que um dos computadores é o ser humano, isto equivale a dizer que o computador é mais humano do que o próprio Christian. Esse não é um desafio que o autor toma resignado: na verdade, é a plataforma de lançamento para uma explicação fascinante do que significa ser humano e como Christian, em face da forte concorrência da melhor inteligência artificial do mundo, pode provar que seu artigo é genuíno.

Ao longo do livro, ele explora as ideias de autenticidade, humor, espontaneidade e originalidade. Em um capítulo perspicaz, ele observa que só pode ser substituído por máquinas, se tivermos primeiro nos permitido ser como elas. Uma vez, por exemplo, que tenhamos abandonado contatos locais em nome de distantes e homogêneos call centers, compostos por trabalhadores os quais não têm espaço para a responsabilidade ou a criatividade, então é só uma questão de tempo antes que os próprios trabalhadores, que são treinados para agir como robôs, serem substituídos por eles.

Todos os três livros, diferentes como são, apontam para a mesma conclusão: que não precisamos nos permitir ser reduzidos por essas novas e poderosas disciplinas da genética, neurociência e computação. Em vez disso, podemos aprender com elas e assimilá-las em uma compreensão mais ampla de nós mesmos. Podemos, de fato, usá-las para se tornar melhores como seres humanos.

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