Economia Civil e Gestão: uma relação possível e necessária?

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04 Junho 2011

"Para ser empreendedor, para ser gestor não precisamos esquecer do comum, sermos associais. Pelo contrário, cada vez mais somos chamados a gestão pelo exemplo e a uma visão complexa, no sentido de perceber o que estamos fomentando e gerando a partir de nossas (badaladas) técnicas e ferramentas de gestão", escreve o Prof. MS Lucas Henrique da Luz.

Lucas Henrique da Luz participa da coordenação do Curso de Administração da Unisinos e trabalha no Instituto Humanitas Unisinos - IHU. Ele é autor do artigo "Cooperativismo de Trabalho: Avanço ou Precarização?", publicado nos Cadernos IHU, no. 20.

Eis o artigo.

Ao ouvir o professor Stefano Zamagni falar sobre "Economia de Comunhão e outras formas de Economia Social: Limites, Possibilidades e Perspectivas", abordando alternativas econômicas diversas e a economia civil (esta última título do livro que escreveu em parceria com o professor Luigino Bruni), comecei a me questionar e busquei pensar junto com meus alunos do curso de gestão de pessoas, se é possível, mesmo atuando em empresas tipicamente capitalistas e excessivamente de mercado, praticar algo que se aproxime do que Zamagni diz, quando afirma que estas alternativas diferenciadas de economia tem em comum uma tentativa (e por que não) uma necessidade de humanizar o mercado.

E foi nesse ponto que me surgiu a inquietação destacada acima. Ora, trata-se de usar o mercado e não ir contra ele. Em sendo assim, por que não usar a gestão e o seu contexto, na tentativa de contribuir com esta humanização? Será isso possível? Pensando a partir desta referência, percebo que ao fazer uma gestão ética com os colegas, clientes, fornecedores, mas essencialmente com o bem comum e comigo mesmo, dando à gestão aspectos para além da produtividade apenas (sem negar a produtividade), e reconhecendo que isso talvez não seja algo simples, já se poderá ter um começo. Não vejo como opostos produção e ética.

Pelo contrário, ao buscar que as pessoas sejam mais sociais do que associais, provavelmente ter-se-á melhores resultados no que diz respeito ao desenvolvimento destas pessoas, ao ambiente de trabalho e, por que não, com reflexos disso na produção. Mais ainda, penso que o fato de sermos mais pró-sociais é algo positivo em relação aos diferentes espaços que ocupamos, inclusive no trabalho. Então, talvez a questão ética que deve ser pensada, está mais relacionada ao sentido da produção.

Seguindo a reflexão, penso que as empresas, ao invés de reprimirem e tornarem o sujeito do processo produtivo cada vez mais associal, irão ganhar e contribuir para com a sociedade em geral se fizerem o contrário, fomentando comportamentos pró-sociais no trabalho e, conseqüentemente, para além dele. Penso que os gestores de pessoas podem contribuir neste sentido.

Outra questão que devemos atentar e que é pouco discutida nos cursos e práticas de gestão de pessoas é o paradoxo da felicidade, que foi abordado por Zamagni. Citando pesquisas de outros autores como Richard Easterlin e Tibor Scitovsky, Zamagni mostrou que a felicidade das pessoas aumenta na proporção do aumento de renda até determinada faixa. Depois dessa faixa, por maior que seja o aumento da renda, o nível de felicidade passa a baixar. Assim, destacou a necessidade de se trazer novamente para o estudo da ciência econômica a questão da felicidade. "Nos países ocidentais, ano após ano, sobe a renda e cai o índice de felicidade", afirma ele.

Diante disso me pergunto (fortemente) se a gestão de pessoas consegue sair da lógica produtivista, do aumento da produção e renda, como se essa fosse toda a finalidade do trabalho. Nesse sentido, quanto temos contribuído com nossas políticas e práticas de gestão de pessoas, para ter um trabalhador mais produtivo, em um intenso ritmo, conseqüentemente, na maioria das vezes com boa remuneração, mas infeliz?

Ao ouvir Zamagni dizer que damos a felicidade um caráter utilitarista, a ponto de se falar em comprar e consumir felicidade, lembrei que o trabalho tem sim um caráter utilitarista nos dias atuais e, será, que precisa ser assim? Será que não podemos, enquanto gestores, gestores de pessoas e como trabalhadores, contribuirmos para a mudança deste paradigma? Creio que podemos sim apostar na geração de relações e felicidade no ambiente de trabalho e, mais do que isso, não estaremos sendo menos eficientes e eficazes. Parece-me que geraremos mais criatividade, inovação, bens, inclusive bens relacionais e bens comuns.

Da mesma forma questionei-me sobre os instrumentos de planejamento de carreira e a lógica que damos para isso, muitas vezes colando carreira a uma questão monetária e a uma visão bastante utilitarista. Será que não podemos superar isso e valorizar as pessoas no trabalho e na carreira não apenas pelo que fizeram e fazem, mas sim também pelo que são, pelas suas trajetórias? Essa é uma superação mais do que necessária.

Enfim, me parece que para ser empreendedor, para ser gestor não precisamos esquecer do comum, sermos associais. Pelo contrário, cada vez mais somos chamados a gestão pelo exemplo e a uma visão complexa, no sentido de perceber o que estamos fomentando e gerando a partir de nossas (badaladas) técnicas e ferramentas de gestão. Se tenho respostas? Claro que não, mas tenho certeza que ficar incomodado e querendo pensar sobre essas e outras questões, imaginando como a gestão pode contribuir para uma economia civil, efetivamente geradora de felicidade, de um homem novo, humanizando o mercado, é um grande primeiro passo para nós gestores. Estou certo disso e, mais ainda, o fazendo seremos quiçá, efetivamente gestores, empreendedores e, principalmente, inovadores.

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