Teologia feminista, não "feminina"

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26 Maio 2011

No âmbito do Projeto Interdisciplinar Gender Studies, lançado por meio da Fundação Bruno Kessler, de Trento – que inclui os Centros de Tecnologias para a Informação, de Materiais e Microssistemas, de Estudos Históricos Ítalo-Germânicos e de Ciências Religiosas –, a teóloga Stella Morra (foto) interveio em meados de abril para uma contribuição sobre Gêneros e Teologia. Entre incertezas da disciplina e incerteza de papéis.

A reportagem é de Maria Teresa Pontara Pederiva, publicada na revista italiana Settimana, 22-05-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Conversamos com ela – que estudou na Pontifícia Universidade Gregoriana, e é professora do Pontifício Ateneu Santo Anselmo e da Pontifícia Universidade Tomás de Aquino – sobre a questão feminina, mas não só.

Eis a entrevista.

Existe um problema "mulheres na Igreja" neste momento?

Essa pergunta pode ser respondida tanto que sim, quanto que não, no sentido de que eu não gosto que as mulheres, de um certo ponto de vista, sejam consideradas um problema. No máximo, são um recurso. De outro lado, pode-se dizer que, em um contexto de problemas reais, as mulheres são subutilizadas, e isso constitui um problema. Não podemos nos dar ao luxo de desperdiçar bens preciosos em tempos tão complexos. Então, é um problema a sua não utilização, não em sentido instrumental, mas sim como uma não valorização como recurso.

Por outro lado, parece-me que existe um tema que fala de dificuldades de relação com a mulher de um ponto de vista histórico concreto, na medida em que há uma história muito pesada de exclusão, não tanto do fazer, mas sim  dos papéis decisórios, da possibilidade de uma palavra de autoridade, de um saber da teologia etc. Do ponto de vista dos conteúdos, da teoria, hoje é praticamente impossível encontrar alguém que, publicamente, diga que "as mulheres devem ficar em casa e não devem falar", principalmente depois das tomadas de posição como a Mulieris Dignitatem e todos os outros documentos: o problema é que, depois, estão ausentes as estruturas, as experiências, as práticas concretas que permitam que essa teoria se torne realidade.

Pode-se dizer que a presença feminina poderia ajudar na resolução de alguns problemas?

Eu não sei se os resolveria, mas certamente seria uma contribuição possível, que hoje falta, no entanto. O caso da teologia é profundamente emblemático. A teologia tem uma dificuldade neste momento de repensar a si mesma como ciência, não tanto nos conteúdos, mas no diálogo com relação às outras ciências e à situação do mundo, ou seja, na sua qualidade de ser uma ciência significativa. Desse ponto de vista, a contribuição das mulheres traria um saber prático que falta radicalmente. E se pode dizer que, pelo menos, não seria mais autorreferencial, porque seria uma teologia não imaginada para se tornar padre, mas deveria necessariamente se repensar em termos de qualidade. Desse ponto de vista, a teologia é um bom teste, mas o mesmo se aplica às estruturas da vida eclesial e muito mais.

O problema é constituído pelo binômio "mulheres-hierarquia" ou antes "leigos-hierarquia"?

Desse ponto de vista, as mulheres são duas vezes leigas. Mesmo quando são religiosas, duplicam a dificuldade objetiva dos leigos de ter lugares estruturais onde possam ter uma subjetividade reconhecida na Igreja e, portanto, ter uma voz de autoridade, a possibilidade de um debate e assim por diante. E as mulheres, por motivos históricos, certamente não ideológicos, são justamente leigas ao quadrado e, assim, têm o mesmo problema multiplicado pelo fato de serem também simbolicamente um "outro". Um outro, além disso, irredutível: ser jovem é um pouco o mesmo problema, mas é uma condição que passa. Ser mulher não, é um outro ontológico que permanece por toda a vida.

A senhora falou ainda da "questão da parcialidade". Em que consiste?

Todo o cristianismo, pelo menos desde o século IX em diante, se estruturou sobre o conceito do uno, sobre uma simbólica de uma unitariedade que refletia, justamente, a unidade de Deus, mas quase com a obsessão do Uno platônico, e, portanto, se concentrou nos universais, seres sem especificação. A mulher é a memória viva de que o ser humano é um parcial. De outro lado, teologicamente, é muito claro: o homem não é Deus e, portanto, não é universal. Porém, é difícil, depois, descer esse conceito à concretude. Em italiano, dizemos "homem" para indicar "pessoa", e não é por acaso.

O termo "homem" se tornou, nos fatos, na prática cotidiana, sinônimo de universalidade. O fato de existir enquanto mulheres e enquanto homens, ou seja, recordando-se constantemente da sua própria conotação sexuada, já é um indício de parcialidade: eu, sozinho/a, não sou um universal, e esse é um princípio profundamente deflagrante com relação à estrutura eclesial. De outro lado, corresponde profundamente ao outro princípio cristão que é a Trindade. É um pouco como se, por séculos, houvéssemos insistido muito sobre a unidade, esquecendo a Trindade como experiência de uma diferença interna à perfeição, uma estrutura relacional interna. Essa também é uma imagem de Deus: somos estruturalmente relacionais e parciais.

Entre as contribuições das mulheres à vida da Igreja, a senhora lembrou ainda a "centralidade da palavra" e a "centralidade do corpo": em que termos?

São os temas centrais, em que, por motivos históricos, as mulheres elaboraram uma maior experiência. De um lado, a palavra negada em público foi desenvolvida em privado – um lugar comum diz que as mulheres são fofoqueiras, mas depois não são capazes de falar em público –, mas no século XX, com a retomada da consciência das mulheres, as experiências foram principalmente um intercâmbio de palavras de autoridade. Essa experiência da fadiga de uma palavra trocada é algo de que agora todos precisariam um pouco, já que somos obcecados pelo silêncio: vivemos no barulho e em um mar de informações, mas com uma incapacidade real de palavras verdadeiras.

De outro lado, o tema do corpo: durante anos, as mulheres sofreram profundamente com a falta de consideração de uma diferença do seu corpo. E não corramos o risco de pensar que hoje isso foi assumido. Em tempos de "bunga-bunga" [referência às festas privadas do primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi], me chama muito a atenção a reivindicação de muitas jovens que lhe dizem: "Mas, no fundo, se o meu corpo é um recurso, se a minha beleza me permite abrir caminho, por que não deveria usá-los?". Desse ponto de vista, significa que elas não refletiram muito sobre o fato – ou pelo menos a ideia não é tão comum – de que o nosso corpo não é um recurso à nossa disposição, mas sim a nossa identificação. Entre outras coisas, em um sentido profundo, é uma identidade recebida, da qual eu sou o hóspede, mas que não está à minha disposição. Eu diria que nem o tema da palavra, nem o do corpo estão hoje tão assumidos.

Voltando à teologia, é possível uma teologia no feminino?

Não gosto nada dessa definição, em termos de adjetivo, no máximo "feminista", em que isso se refere a um período histórico em que ocorreu uma ruptura com relação a um silêncio das mulheres na teologia. E, portanto, um dia, não haverá mais necessidade da teologia das mulheres, porque será assumido que não há diferença de estrutura ou de poder se é uma mulher ou um homem que fazem teologia. Nesse sentido, eu digo feminista e não feminina: não é um problema de adjetivação de qualidade, mas sim de transformação de algumas estruturas. Por outro lado, parece-me que não é como se as mulheres tivessem um instinto mais acolhedor... e, portanto, uma presença feminina traria essas instâncias. Isso me parece absurdo.

As mulheres têm uma outra história e partem necessariamente, não por escolha, da constatação do seu ser sexual. Não que haja uma teologia e depois a teologia feminina. Existe a teologia feita pelos homens e aquela feita pelas mulheres, que são ambas parciais. Os homens também são parciais, mas qual seria a teologia masculino: a agressiva, arrogante, forte? Não teria nenhum sentido. Ao contrário, é verdade que existe uma contribuição das mulheres à teologia e que, neste momento, é particularmente problemática porque esteve ausente durante séculos. É uma teologia que não tem o seu espaço, um lugar próprio, porque a finalização da teologia ao ministério a cortou fora, e isso, na área católica, é um problema enorme. É a sobreposição do saber com o ministério, ou melhor, uma identificação radical nesse caso. Mas se trata de um empobrecimento de ambos. E, em âmbito católico, se encontra isso um pouco por todo o lugar.

Isso também vale para o exterior, onde a teologia está presente em universidades laicas?

Eu diria que, na Itália, a dificuldade é agravada pela ausência do componente teológico no âmbito cultural. Mas em todo o mundo católico a correlação entre teologia e ministério ordenado, em que a única palavra de autoridade vem do ministro, ou melhor, da hierarquia, porque não vem de todo o ministério, é uma questão poderosa. Como se o único problema da teologia fosse o da ortodoxia. Pierangelo Sequeri disse: "A teologia não tem só uma questão de justeza, mas também uma questão de justiça", e acho que esse é "o" problema.

Essa identificação fez com que o problema fosse o da justeza – que é um problema real, não o nego – mas, ao mesmo tempo, deve ser segundo a justiça, ou seja, deve dizer algo que seja significativo para uma transformação salvífica da vida. Senão, que teologia é? O fato de o ministério ter um papel importante, até na verificação do serviço da teologia à unidade da vida da Igreja, isso é indiscutível. Mas uma coisa é dizer que é preciso um papel regulador para que toda atividade pastoral seja a serviço do bem comum, outra é dizer que a única palavra de autoridade e que o único problema que existe é a justeza.

Na Igreja, poucos falam, e os outros executam...

O problema é que não se sabe mais o que executar, no sentido de que as tomadas de posição são de tal forma abstratas e teóricas que não se sabe mais o que fazer.

Volta mais uma vez o problema da linguagem – também à luz dos episódios acerca da nova tradução do missal inglês ou do YouCat. Como isso poderia ser resolvido?

O problema comunicativo esconde na Igreja um problema hermenêutico que é ainda mais grave. Discute-se sobre os termos esquecendo o fato de que esses termos não importam mais a ninguém. É uma discussão entre sofistas, e não se sabe mais sobre o quê. Existe um linguístico comunicativo, e, por exemplo, seria preciso evitar os erros de tradução. Mas o fato de esses erros ocorrerem, se repetirem, significa que não é mais automaticamente evidente a relevância de algumas coisas.

Há uma radical irrelevância: estamos tergiversando sobre uma série de questões, enquanto, com tudo o que está acontecendo ao nosso redor – dos imigrantes à mudança dos cenários do Mediterrâneo, passando por como o mundo oriental está enfrentando a questão japonesa, à discussão sobre a energia nuclear, à proteção do planeta – nos mostramos, como Igreja, totalmente incapazes de dizer uma palavra.

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