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06 Mai 2011

A imortalidade parece não bastar para Ariano Suassuna, também interessado na onipresença - membro da Academia Brasileira de Letras desde 1990, que lhe garante a simbólica perenidade, o escritor paraibano cruza o Brasil com suas famosas aulas espetáculos, encontros disputadíssimos em que ele relembra fatos, comenta sobre a atualidade, discorre sobre literatura.

São diversas viagens que o levam a trocar constantemente de cidade. Na semana passada, por exemplo, Suassuna lotou os 645 lugares do teatro do Sesc Vila Mariana, em São Paulo, e, neste fim de semana, estaria em Poços de Caldas. "Já cruzei o País do Acre ao Rio Grande do Sul, do Nordeste ao Centro-Oeste", orgulha-se ele que, na condição de secretário de Cultura de Pernambuco, também percorre diversos municípios do Estado para onde leva seu circo particular - grupo formado por bailarinos, músicos e cantores. "E também um palhaço, que sou eu", diverte-se.

A devoção não é gratuita: Suassuna, que completa 84 anos em junho, está fundamentalmente enraizado na cultura brasileira, defendendo-a com clamor mas também com rigor, separando o joio do trigo. "Um país que tem Os Sertões pode ser dominado politicamente, pode ser aviltado, mas estará sempre a salvo", disse, certa vez, reafirmando a defesa de uma causa que já lhe garantiu acusações de xenofobia, especialmente quando investe contra o que considera lixo cultural imposto por nações poderosas, como os Estados Unidos. Ele dá de ombros: "Sou velho mas tenho muita energia. Quem quiser duelar comigo que venha preparado".

A devoção, no entanto, é maior. No Sesc Vila Mariana, a plateia formada majoritariamente por jovens gargalhou durante quase duas horas enquanto Suassuna apenas revelava fatos curiosos, ora dizendo que jamais viajou para fora do País e que tampouco moraria no exterior ("Não saberia dizer "pão" em alemão"), ora devotando amor eterno à sua mulher Zélia, que conhece desde o dia 20 de agosto de 1947 - a data exata provocou especiais suspiros entre as meninas. Até mesmo o ato mecânico de passar as mãos pela cabeça calva, como se ainda tivesse cabelos para jogar para trás, fez o público delirar, comprovando que qualquer aspirante a comediante stand up deveria fazer um curso intensivo com Ariano Suassuna.

Tantas viagens têm seu preço. O escritor ainda não pôs o ponto final no aguardado livro que vem elaborando há mais de uma década. Espécie de reescritura de O Romance d"A Pedra do Reino, uma de suas obras vitais, Suassuna pretende entrelaçar poesia e gravuras na trama da nova obra que, inicialmente, teria quatro volumes e cujo primeiro levaria o título de O Jumento Sedutor - o lançamento está previsto para o final do ano, quando se comemora o 80º aniversário de sua editora, a José Olympio. Na conversa que teve com o Sabático antes de se apresentar no Sesc, porém, o escritor desfez qualquer promessa. "Ontem (sexta-feira, 29 de abril), tive outra ideia e devo alterar muita coisa", contou, confessando ainda que tem dúvidas sobre a manutenção daquele título e até mesmo se a obra vai se desdobrar em quatro partes.

Mantida mesmo está a decisão de não respeitar o novo acordo ortográfico. É o que ele explica, entre outros assuntos, na entrevista à Ubiratan Brasil do jornal O Estado de S.Paulo, 07-05-2011.

Eis a entrevista.

Quando começaram as aulas espetáculos?

No atual formato, em 1995, quando eu era secretário do governo Miguel Arraes. Ele queria um programa barato e eficiente. Então, pedi para nomear artistas com assessores e acabei contratando músicos, bailarinos e cantores. Queria alavancar no País uma discussão sobre a cultura brasileira, que continua marginalizada. Agora, no governo Eduardo Campos, estou fazendo a interiorização da cultura: já estive em 63 municípios de Pernambuco com meu circo.

Como avalia a cultura no Brasil?

Não está nota 10, mas melhorou muito. Nunca esperei ver concretizado o sonho da união latina. Em 1971, publiquei A Pedra do Reino e, em uma determinada passagem, o personagem Quaderna diz: "Deixe-me sonhar, desde agora, com a grande nação que vai do México até a Patagônia". Naquele tempo, era algo visionário. Agora, a união latino-americana vem se concretizando. Ainda vai demorar muito, mas já estou feliz.

Já se tornou folclórica sua luta contra a massificação da cultura, especialmente a promovida pelos americanos.
Já disse várias vezes e repito: não tenho nada contra Melville, Faulkner ou Edgar Allan Poe, de quem me sinto mais amigo que leitor, tamanha a proximidade. Mas, não aceito que, em nome deles, venham me impingir os falsos mitos que os meios de comunicação inventam. Dias atrás, vi na televisão o show de um certo Rolling Stones. Não me acrescentou nada. Aliás, faça um teste: assista ao vídeo de qualquer banda de rock e abaixe o som. Vai perceber que todos se mexem da mesma forma ridícula. Não tenho nada contra a cultura universal, mas não posso admitir que se considere sinônimo de universal a cultura de massa. Ela é o contrário da universalidade, é uniformização.

A globalização, então, só traz malefícios?

Traz principalmente a pasteurização, que é a borra da globalização. É contra isso que luto. Já fui chamado de D. Quixote arcaico, pois vivo a esgrimir contra os moinhos da globalização que já é vitoriosa. Enquanto puder, brigo. E, se o camarada que disse aquilo quis me insultar, não conseguiu, pois é uma honra ser comparado a um dos meus personagens preferidos.

E a defesa pela cultura nacional?

Não abro mão, especialmente para derrubar falsas versões. Certa vez, fui a uma exposição no Masp chamada Arte Brasileira - Uma História de 5 Séculos. Ora, para os organizadores, parece que a arte só passa a existir no Brasil com a chegada dos portugueses, e se ignoram dança, desenhos, músicas, esculturas feitos pelos índios. Não existe comunidade que não tenha arte. O homem é igual em qualquer canto, qualquer época. O que varia são as circunstâncias através das quais cada comunidade realiza o humano.

Como está o novo livro?

Ainda não consegui terminar. Tenho sempre dúvidas que fazem acreditar que o Hamlet da literatura sou eu. Escrevo à mão e trabalho com dois digitadores que já redigiram o texto mais de 50 vezes - quando fico com vergonha de tanto pedir correções para um, eu me dirijo ao outro. Estava pronto, mas ontem (dia 29 de abril) tive outra ideia e decidi mudar tudo.

Ainda serão quatro volumes?

Vou ver se consigo, mas talvez fiquem três. Não posso mais contar com o tempo, estou com 84 anos. Ao pensar nessas incertezas, lembro de um poema de Fernando Pessoa, Padrão, que gosto muito. Ele trata de um navegador, Diogo Cão, que, no século 16, como outros portugueses, desceu a costa da África atrás do caminho das Índias. Onde paravam, eles deixavam marcos. O poema diz o seguinte: "O esforço é grande e o homem é pequeno. / Eu, Diogo Cão, navegador, deixei /Este padrão ao pé do areal moreno /E para diante naveguei. / A alma é divina e a obra é imperfeita. Este padrão sinala ao vento e aos céus / Que, da obra ousada, é minha a parte feita: / O por-fazer é só com Deus". Esse último verso pode responder se serão três ou quatro livros: entrego na mão de Deus.

O senhor chegou a dizer que os leitores podem não gostar da nova obra. Por quê?

É por causa da minha escrita, cheia de rudeza, digressões, venho por aqui, vou por ali. É muito diferente do romance policial, de que gosto muito e que traz uma narrativa mais direta e simples, bem ao gosto popular. Minha preferência é por romances enormes, sou louco por Alexandre Dumas e releio, sempre com idêntico prazer, os diversos volumes de Memórias de Um Médico. Houve um tempo em que as pessoas reclamavam porque eu não escrevia como Graciliano Ramos ou Guimarães Rosa. Tenho minha personalidade, sou incapaz da concisão. Preciso de horizontes mais amplos.

Isso explica sua forma de fazer teatro?

Sim. Desde muito jovem, não gosto de peças intimistas e psicológicas - sempre preferi algo mais próximo das artes do espetáculo, pois dou preferência à face mais circense do teatro. Não gosto de ator que saiba apenas falar - prefiro alguém como Antonio Nóbrega, que também canta e dança. A arte é um acerto de contas com a realidade. Acho que a arte, por natureza, não é uma imitação do real, é uma recriação. É uma realidade magnificada. Por isso que não tenho afinidade com a obra de Nelson Rodrigues. Ele se interessava pelos problemas pessoais da classe média urbana do Rio. Quando li Álbum de Família, quase morri de rir: a filha era apaixonada pelo pai, que gostava da irmã dela que, por sua vez, gostava do irmão. Parecia um museu de horrores.

E a decisão de não adotar a nova ortografia?

Essa, mantenho. Trabalhei como professor de português desde os 17 anos, portanto, conheço bem a língua. Mas perdi a paciência certo dia ao abrir uma enciclopédia e descobrir meu sobrenome grafado com cê cedilha. Reclamei com o Aurélio Buarque de Holanda, dizendo que "Suaçuna" parecia nome de cobra. Ele não me convenceu ao responder que nomes indígenas são grafados sempre com cedilha. Outro exemplo: sempre escrevi Euclydes da Cunha, pois vi assim em um livro autografado por ele. Com as reformas ortográficas, trocaram o ípsilon por um "i". Com que direito? Aí me revoltei e decidi que no meu material vou manter a acentuação que eu quiser.

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