Wikileaks: "Nosso projeto está muito vivo’

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22 Março 2011

Krisitinn Hrafnsson, islandês, jornalista, parceiro de Julian Assange,  avalia em entrevista à Santiago O’Donnell do Página/12, 20-03-2011, o impacto mundial das revelações de sua organização, os ataques que estão recebendo e refuta a ideia de que Wikileaks encontra-se em uma situação crítica. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Como avalia o impacto das revelações do Wikileaks?

Não está claro ainda, é difícil de imaginar. O que está claro é que Wikileaks já alterou a paisagem do jornalismo político. Vimos o material do "cablegate" sobre a Tunísia que desencadeou o encadeamento de eventos no norte da África. O material sobre o governo da Tunísia, da embaixada na Líbia caiu nas redes e acelerou os acontecimentos. É claro que não foi a única razão... mas funcionou como um dos fatores da queda do governo corrupto de Ben Alí. A coragem das pessoas da Tunísia encorajou as pessoas do Egito, Síria, Líbia, Barhein, Iemen. Produziu-se um efeito em dominó. Inteiramo-nos que na América Latina também houve impactos que influenciaram as eleições no Perú, no Congo e na Índia o governo tem que prestar contas por graves acusações de corrupção. Notamos uma influência muito grande também no jornalismo e na difusão da ideia Wikileak. Um parceiro nosso, a cadeia Al-Jazeera, habilitou um sítio seguro para receber informações secretas e assim obteve "os papéis da Palestina" (sobre a negociação secreta entre o governo de Israel e a Autoridade Palestina), e os publicou no jornal The Guardian e alcançaram repercussão em todo o mundo.

E qual é a ideia de Wikileaks?

Trata-se da convicção fundamental de que o excesso de confidencialidade eventualmente esconde corrupção daqueles que ostentam o poder. Estudos recentes mostram um forte aumento na quantidade de segredos que mantém os governos e os níveis de segurança utilizados para proteger esses segredos. Não nos esqueçamos de que a invasão do Iraque se baseou em uma fabricação porque não havia apoio para a medida tomada pelo governo dos Estados Unidos. Quando se acessa o segredo, aumenta a transparência e encontramos soluções corretas em temas chaves e aumenta-se a justiça.

Vocês atacam a ideia da confidencialidade, da necessidade de se manter segredos, mas ao mesmo tempo Wikileaks deve manter muitos segredos próprios para sobreviver. De fato, sua função é proteger a identidade secreta do denunciante para que se possa divulgar sua informação?

A comparação não me parece justa. Por razões óbvias, diante do ataque de corporações poderosas como o Pentágono para fechar Wikileaks com suas estratégias alocadas para avariar Wikileaks, do absurdo de acusar-nos de terrorismo, e as declarações de políticos estadunidenses pedindo o nosso assassinato, tomamos algumas precauções. Mas somos uma organização pequena e, é verdade, oferecemos uma plataforma segura para delatores de situações ilegais. A maioria de nossa gente permanece anônima por razões óbvias de segurança. O restante é público. Todas as nossas atividades e informações aparecem em nossa página web. Igualmente me parece um erro comparar a privacidade individual de uma pessoa ou grupo com a confidencialidade dos governos. O direito de um governo à privacidade é um absurdo. Os governos deveriam representar a igualdade entre as pessoas. Ao contrário da ideia da nossa plataforma que diz que quanto mais segredo se tem, menos igualdade.

Chama a atenção que o The New York Times e o The Guardian, os jornais que mais se beneficiaram com as revelações do Wikileaks tenham publicado em suas primeiras páginas perfis ridicularizando o fundador do Wikileaks como se fosse um louco paranóico.

Parece-me bastante hipócrita. Nem sequer se incomodaram em ocultar suas motivações. No dia seguinte após publicarem a informação do "cablegate", o The New York Times publicou uma descrição muito crítica de Assange e muito danosa para a organização em sua primeira página e (o ombudsman do jornal) explicou que era para "inocular-se das críticas do governo". Básicamente estavam dizendo a seus leitores que temem o governo. Que não são livres para dirigirem um jornal livre. Mas não apenas isso: mostraram parte da documentação do governo antes de publicá-la sem nosso consentimento e lhes pediram autorização para publicá-la, e concordaram em não publicar algumas coisas que o governo lhes pediu. Esse estranho comportamento foi defendido pelo ombudsman do jornal que supostamente deveria defender os interesses dos leitores.

E o The Guardian?

Não sei qual é a razão dos seus estranhos ataques. Assumiram uma posição desonrosa, mas não quero especular sobre as motivações.

Consultar a fonte para conhecer o seu ponto de vista antes de se escrever sobre ela não algo normal?

Mas aqui não se trata de chamar um indivíduo para oferecer um direito de réplica, mas sim avisar o governo sobre o conteúdo. E conhecemos outros exemplos em que o governo dos Estados Unidos pediu aos jornais que não publicassem determinada informação e os jornais não publicaram. Então foram pedir permissão para publicar algo. E quanto aos perfis de Julian (Assange) para escrevê-los apenas contataram pessoas que abandonaram a organização.

O caso da denúncia sexual que envolve Assange na Suécia foi armado pelos serviços secretos do Pentágono?

Não posso entrar em detalhes. Por orientação dos advogados tenho que ser muito cuidadoso com o que digo. Mas há muitas coisas estranhas nesse caso, coisas fora do normal que tornam muito difícil acreditar que foi um procedimento transparente. Por exemplo, faz uma semana surpreendemo-nos ao inteirarmo-nos que a agente de polícia que tomou a declaração era uma amiga de uma das denunciantes, que se conheciam faz mais de um ano e meio e compartilharam o mesmo grupo político na Suécia. No sistema legal sueco, é suficiente para declarar a nulidade do caso. Outro exemplo: porque a ordem de captura internacional recebeu a mais alta prioridade da Interpol, a Notificação Vermelha, reservada para casos de crime organizado e delitos graves, quando Julian nem sequer foi processado? Faz uma semana pediram a captura de kadafi com uma Notificação amarela que é menos prioritária do que a vermelha. É revoltante. Estes são dois exemplos que tornam o caso fora do comum e acrescento outro. Para o juízo de extradição, em vez de usar o defensor oficial, a Suécia contratou um dos advogados mais caros da Inglaterra. Chama-se Claire Montgomery e é o mesmo que defendeu o ditador chileno Augusto Pinochet do pedido de extradição da Espanha em 1988. Em resumo, uma forma brutal de tratar um homem acusado por delito menor que nem sequer foi processado. O que há por debaixo ou por detrás disso? No jornalismo temos um velho ditado: "Se caminha como um pato e faz quac como um pato, deve ser um pato".

O que diz dos planos das empresas de segurança contratada pelo Pentágono para desestabilizá-los de acordo com os documentos que publicaram vocês e também o grupo Annonymous?

É fato, nós publicamos em 2008 os planos do Pentágono para fechar-nos no ano passado. Annonymous publicou planos similares de três contratos em ciberinteligência que trabalharam por encomendação do Bank of America (a Câmara de Comércio dos Estados Unidos). Faz tempo que somos atacados por poderosas empresas financeiras. No caso da Visa, que pertence em parte ao Bank of America e que fechou o nosso portal de subscrições em dezembro passado numa atitude absurdamente discriminatória sem nunca ter-nos acusado de nada, sem ter apresentado sequer uma demanda judicial. Atuaram como fiscais, juízes e verdugos com o objetivo de estrangular nossa organização. Nós estamos conscientes de que estamos sendo atacados, inclusive por jornalistas que simpatizam com nossas posições, como Glen Grinwald, de Salo.com. Nós revelamos os planos para desacreditá-los. Possuem planos para jogar sujo em várias frentes. Não nos supreendem os ataques porque se tratam de organizações poderosas, mas se a única resposta que se lhes ocorre é jogar sujo não terão sucesso. Podem prender-nos, Wikileaks não depende de um indíviduo. Quando Assange foi preso dez dias em Londres, o sítio continuou funcionando plenamente e revelando novos segredos.

Vocês têm mais segredos para revelarem? É verdade que possuem informações sobre um banco importante? Quando tornarão público os próximos segredos?

Temos informações e se darão a conhecer em seu devido momento. Temos que ser muito cuidadosos com isso. Pode confirmar que temos informações de um banco e informações sobre contratos de um governo, mas não posso dizer mais.

Vocês têm revelado documentos sobre todo o mundo, mas os divulgados recentemente se referem ao governo dos Estados Unidos. Há algum objetivo particular nisso?

Wikileaks não busca nenhum banco, nem ataca ninguém, nem busca informações. É um receptor passivo de informação e não tem interesse particular em nenhuma empresa ou governo. Desde a sua fundação, em 2006, publicou sobre diferentes países ao redor do mundo.

A imprensa americana dá a entender que Wikileaks tem os dias contados, mas a minha reunião com Assange em Ellington Hall não me deu essa impressão. O que você diz?

Não estamos com nenhum problema. O que escrevem é mais um desejo do governo dos Estados Unidos. Nosso projeto está muito vivo. Têm surgido organizações inspiradas nela, como Balkanleaks, dedicada ao crime organizado e a corrupção em países dos Balcãs. Temos Brusselleaks que se ocupa de Bruxelas e da União Européia. Também Greenleaks, dedicada a temas ambientais. Até os meios de comunicação tem copiado nossos métodos, habilitando sítios seguros para receberem denúncias. O que se tem visto é o crescimento de uma ideia. Podem tentar silenciar uma organização ou pessoa, mas não se podem matar as ideias. As ideias têm sua vida própria e crescem em todos os grupos de pessoas, como a cultura de transparência quem na sua origem deu vida a Internet. Mas a Internet chegou a um ponto crítico. Por um lado, serve para espiar, para práticas corruptas de governos e empresas, para violar a privacidade de indivíduos, sobretudo se são tão descuidadas como quando colocam informação em sítios como Facebook. Mas também tem surgido um catalizador muito importante de mudança social.

O que diz das iniciativas de Governo Aberto que têm surgido nos últimos tempos, sobretudo no Canadá e no Reino Unido?

Gosto. Os governos devem se basear na ideia de transparência. Quando mais transparência, menos corrupção.

Você diz que tudo o que é público deve ser revelado, mas Wikileaks também difunde informações de empresas privadas. As empresas tampouco devem ter segredos?

Claro. As grandes empresas são muito poderosas e seus segredos podem ser muito danosos para diferentes setores da economia. Vimos como os movimentos do capital em contas secretas de paraísos fiscais colapsaram setores inteiros da economia mundial. O meu país, a Islândia, entrou em default, o que provocou o sofrimento de muitíssimas pessoas. Wikileaks tornou público como a companhia Trafigura descarregava dejetos tóxicos na África, mas os jornais não podiam publicar a informação na Inglaterra porque a empresa tinha conseguido uma ordem judicial para que a informação não saísse. Wikileaks a publicou em seu portal internacional porque caso contrário não sairia em lugar nenhum.

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