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07 Fevereiro 2011

Em 1º de janeiro de 1955, ano em que Juscelino Kubitschek de Oliveira assumiu a Presidência da República, um grupo de trabalhadores da cana organizou uma manifestação na sede do Engenho Galileia, em Vitória de Santo Antão, nos limites da região do agreste com a zona da mata de Pernambuco.

A reportagem é de Janes Rocha e publicada pelo jornal Valor, 04-02-2011.

A reivindicação "oficial" era caixões para enterrar os mortos. O movimento, que serviu de inspiração ao poeta João Cabral de Mello Neto para escrever "Morte e Vida Severina", deu origem à primeira Liga Camponesa do Brasil.

A reação dos patrões - usineiros, fazendeiros e pecuaristas - foi imediata e para defender-se os trabalhadores do Galileia chamaram o advogado pernambucano Francisco Julião Arruda de Paula. Julião, que naquele dia tomou a frente das ligas camponesas, está ganhando nova biografia, feita pelo historiador e escritor Claudio Aguiar, que será lançada neste ano. O historiador o conheceu em 1962, no Recife, e manteve com ele uma amizade que durou até a morte deste em julho de 1999.

Político, orador, poeta, ensaísta, romancista e jornalista, Julião defendia trabalhadores desde quando se formou em 1939, em pleno Estado Novo. Iniciou militância política no Partido Socialista Brasileiro (PSB), fundado em 1947, após a derrubada da ditadura de Getúlio Vargas em 1945. Em 1948, foi eleito deputado estadual pelo PSB de Pernambuco e foi nessa condição que assumiu a liderança do movimento lançado no Galileia.

No livro, intitulado provisoriamente "Julião, Agitador Social", Aguiar procura desmitificar a figura de Julião, estigmatizado pelos proprietários de terras e pela imprensa como um comunista rude e violento, por ter falado em fazer a reforma agrária "na lei ou na marra". Para o historiador, ele era menos um comunista e mais alguém que brigou por um pouco de justiça. Não era nada rude, muito menos violento, e "na marra" significava apenas uma determinação.

Julião se envolveu na causa dos camponeses nordestinos em um contexto político e social extremamente adverso para quem trabalhava no campo no país. Ao contrário dos trabalhadores urbanos, que haviam ganhado uma CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) do governo Vargas, os trabalhadores rurais tinham pouco mais que nada em relação a condições humanas. Não tinham direitos, salário mínimo, assistência médica ou transporte. A carga horária era infinita e eles trabalhavam em condição análoga à escravidão nas fazendas.

"Vargas foi muito bom para os trabalhadores urbanos, mas não fez nada pelo trabalhador rural", afirma Bráulio Rodrigues da Silva, ex-sindicalista, ex-presidente da Associação dos Produtores Rurais de Cachoeira Grande em Magé (RJ). Bráulio, de 88 anos, conheceu Julião em 1961, durante o 1º Congresso Brasileiro de Camponeses, em Belo Horizonte, evento considerado um segundo marco político na luta dos trabalhadores rurais. "O grande legado de Julião foi o grito do trabalhador rural que até então não era nem sequer considerado um trabalhador", diz.

Na prática, as ligas trouxeram como resultados concretos a institucionalização do sindicalismo rural em 1961 e a primeira previdência rural, criada pelo marechal Castelo Branco já no início da ditadura.

Além disso, ressalta Aguiar, Julião pode ser considerado um "patrono" do polêmico Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), uma continuidade das ligas.

Outro que conheceu Julião em 1961 foi o advogado gaúcho Carlos Franklin de Araújo Paixão, ex-marido da presidente Dilma Rousseff. O encontro se deu durante uma escala no aeroporto do Recife. Ficaram amigos e passaram os três anos seguintes juntos à frente dos movimentos camponeses. "Julião fez as ligas usando a legislação capitalista brasileira a seu favor", conta Araújo, numa referência à lei da indenização por posse pacífica da terra, instrumento que Julião usou para obrigar os proprietários a indenizar camponeses instalados por anos na fazenda, trabalhando praticamente como "servos da gleba" para depois ser expulsos sem nenhum direito. "Ele foi exponencial como liderança; foi a maior liderança do Nordeste antes de Lula."

Aguiar passa por toda a vida de Julião e avança sobre o período do exílio. O líder das Ligas Camponesas teve dois exílios no México, um forçado pela perseguição política, logo após o golpe militar de 1964, e outro voluntário, nos anos 1990. Esse segundo foi motivado pelas várias derrotas políticas que enfrentou na volta ao Brasil depois da abertura nos anos 80.

O biógrafo passou um mês no México entrevistando pessoas que conviveram com Julião para recuperar essa etapa, principalmente a colaboração jornalística permanente que ele manteve na revista "Siempre!", escrevendo em espanhol. "Julião, na condição de político e de homem bem informado sobre a política internacional, latino-americana e brasileira, criou em seu entorno um grande círculo de leitores e admiradores", conta. No México, fez contato e amizade com intelectuais e políticos do calibre do escritor colombiano Gabriel García Márquez; do então senador chileno Salvador Allende, depois presidente do Chile; do comandante de Cuba, Fidel Castro, e do revolucionário Che Guevara.

Aguiar reconstrói o personagem, passando a limpo as acusações que motivaram a perseguição política. O próprio título do livro é quase uma ironia aos críticos porque, segundo o biógrafo, Julião não podia ser considerado um mero agitador, primeiro porque ele não era um adepto de ações violentas. Depois, muitos dos atos de violência atribuídos a Julião foram mais tarde desmentidos - ficou provado que ele não só não havia participado direta ou indiretamente como muitas vezes nem sequer havia tomado conhecimento deles.

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