A solidão como refúgio na era das redes sociais

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18 Janeiro 2011

Eugenio Borgna resgata as qualidades da solidão em um mundo enfeitiçado pelo digital, excitado e oprimido pela perene conexão com tudo e com todos. O seu livro, porém, não tem um recorte sociológico e menos ainda um odor nostálgico: pelo contrário, é radicalmente contracorrente. É um elogio da escolha livre de estar sozinho, sem a presença constante dos outros, uma apologia daquela experiência humana e psicológica que é pré-condição de todo pensamento crítico e de toda atividade criativa.

A reportagem é de Luciana Sica, publicada no jornal La Repubblica, 18-01-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O título é La solitudine dell´anima (Ed.  Feltrinelli, 198 páginas). O autor é um psiquiatra que recorre à literatura e à filosofia não por um improvável exibicionismo seu, mas para restituir a infinita complexidade do nosso mundo interno ("a psiquiatria tem necessidade da poesia", escreve ele com audácia).

Eis a entrevista.

O que é, para o senhor, a solidão e por que ela se diferencia do estado de isolamento?

Solidão e isolamento são dois modos radicalmente diferentes de viver, embora frequentemente sejam identificados. Estar sozinho não quer dizer sentir-se sozinho, mas separar-se temporariamente do mundo das pessoas e das coisas, das ocupações cotidianas, para entrar novamente na própria interioridade e na própria imaginação – sem perder o desejo e a nostalgia da relação com os outros: com as pessoas amadas e com as tarefas que a vida nos confiou. Estamos isolados, ao contrário, quando nos fechamos em nós mesmos, porque os outros nos rejeitam ou mais frequentemente no rastro da nossa própria indiferença, de um egoísmo tétrico que é o efeito de um coração árido ou seco.

Por que a solidão se nutre de silêncio e o isolamento é marcado pelo mutismo?

Porque na solidão, tão rica de vida interior, o silêncio tem um eros e uma linguagem próprios: diz as nossas melancolias, as angústias, as esperanças não expressadas, os temores, as expectativas. Diz os nossos desejos mais autênticos. O silêncio tem mil modos de manifestar alguma coisa e de escondê-la, de indicar e de aludir, de se aproximar e de se afastar, de fascinar e de intimidar. Ao contrário, quando estamos isolados, separados do mundo, mônadas de portas e janelas fechadas, não temos pensamentos e emoções a serem transmitidos aos outros. Sem mais palavras, aprofundamo-nos em um mutismo que tem uma única dimensão: a da insignificância.

Mas nós estamos imersos na era do encantamento pelo digital, em que a intimidade é exteriorizada por meio das redes sociais, provavelmente em fuga do sentido de vazio que deriva da ausência de laços reais, certamente capaz de comunicar rapidamente com qualquer um. Será ainda possível recuperar o sentido mais precioso da solidão?

Você toca em um aspecto emblemático da condição humana de hoje e da juvenil em particular: a tendência aos contatos de "desemocionalizados" que respondem às necessidades do momento e se incineram sem deixar rastro no coração e na memória. Não há dúvida de que hoje a solidão é sempre mais difícil de ser salva e de ser vivida, porque somos arrastados por um redemoinho de sensações exteriores que não nos dão nem mais o tempo para pensar em nós mesmos, para nos confrontar com os nossos segredos, com o guazzabuglio [mistura, confusão] manzoniano [de Alessandro Manzoni] das emoções que estão em nós, com as coisas que não queremos lembrar e voltam à memória, com a autenticidade ou a inautenticidade das relações que temos com os outros: no fundo, com o mistério do viver e do morrer.

A solidão – como o senhor a entende – não está, então, destinada a ser a prerrogativa de uma minoria de boas almas?

Não, porque a solidão, como eu a entendo, não é só uma experiência interior de poucos eleitos, mas, ao contrário, é uma matriz ideal de mudança relacional e cultural, política e social e, em última instância, razão de vida historicamente significativa. É indispensável reencontrar os valores inalienáveis da reflexão crítica e da solidariedade, do empenho ético na política, do respeito radical das pessoas e das suas diferenças – transferindo a consciência desses valores para aquela que é a ação cotidiana, o testemunho pessoal de cada um de nós.

Algumas páginas iniciais do seu livro referem-se a um filme de Bergman de 1972: Lágrimas e suspiros. Por que as escreveu?

Porque aquelas quatro mulheres vestidas de branco conjugam as diversas linguagens paradigmáticas da solidão. Agnes, quase devorada pela doença, até nas últimas horas não perde nada da sua sensibilidade, jamais está fechada em si mesma, mas aberta a um diálogo com a memória e com a espera misteriosa da morte. Ao lado dela está Anna, uma jovem mulher capaz de compartilhar esse destino como se fosse o seu. Depois, estão as duas irmãs de Agnes – Karin e Maria – aprisionadas, ao contrário, em uma solidão que representa o isolamento mais egocêntrico, o deserto das emoções, a indiferença gelada ao amor e à solidariedade, em uma insana idolatria do eu, do corpo, da beleza.

"Toda a infelicidade do homem deriva da sua incapacidade de permanecer no seu quarto sozinho": a solidão da alma não poderia ser resumida nesse aforisma de Pascal?

Leio Blaise Pascal desde os tempos da escola, porém, desta vez, a fulgurante incisividade do seu pensamento não levantou voo pelas zonas da minha memória. Sim, no aforisma pascaliano – que capta a dimensão existencial radical da solidão: da fadiga, ou melhor, da incapacidade de vivê-la – não se poderia resumir melhor o forte sentido do meu livro. Desagrada-me o fato de não ter citado uma bela reflexão leopardiana [de Giacomo Leopardi], e faço-o aqui, sintetizando ao máximo: a solidão "nos rejuvenesce".

 

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