Até que ponto o setor financeiro corrompeu os estudos econômicos?

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05 Junho 2011

"Você só tem mais três minutos. Prepare seu melhor golpe." Glenn Hubbard é reitor de um dos centros de ensino mais prestigiosos do mundo, a Escola de Economia de Columbia. Para seu pesar, também é um dos protagonistas de "Inside Job" [Trabalho interno]. Esse documentário, ganhador de um Oscar, analisa as causas que originaram a crise financeira nos EUA. Os realizadores do filme denunciam o papel que tiveram nessa catástrofe os salários dos banqueiros, as agências de classificação de risco e os políticos. E também indicam os professores de universidades e escolas de economia. Na sua opinião, o setor financeiro corrompeu o estudo da economia e muitos professores apoiaram a desregulamentação dos mercados, uma colaboração que foi recompensada com altos valores por serviços de consultoria. Hubbard responde aos cineastas de modo altivo, desafiador e visivelmente nervoso quando estes lhe perguntam sobre seus potenciais conflitos de interesse. O decano de Columbia foi chefe do conselho econômico durante o governo George W. Bush, recebeu US$ 100 mil para depor a favor dos administradores dos fundos do Bearn Stearns, acusados de fraude, realizou um relatório para o Goldman Sachs em 2004 no qual elogiava os produtos derivados e a cadeia de créditos hipotecários, argumentando que melhoram a estabilidade financeira, é diretor da MetLife, assessor da Nomura, da KKR... Sua resposta a se esses trabalhos podem condicionar sua atividade docente é um lacônico "não".

A reportagem é de David Fernández, publicada pelo jornal El País e reproduzida pelo Portal Uol, 06-06-2011.

As ligações entre a indústria financeira e o mundo acadêmico não se limitam a Hubbard. Martin Feldstein, professor de economia em Harvard e ex-assessor de Ronald Reagan, foi um importante arquiteto da desregulamentação financeira e fez parte do conselho da AIG; Laura Tyson, professora da Universidade da Califórnia em Berkeley, passou a fazer parte da diretoria do Morgan Stanley depois de deixar a presidência do Conselho Econômico Nacional durante o governo Bill Clinton; Ruth Simmons, presidente da Universidade Brown, é diretora do Goldman Sachs; Larry Summers, que promoveu a desregulamentação do mercado de derivados durante sua época no governo, é presidente de Harvard, cargo que não o impediu de ganhar milhões de dólares assessorando vários fundos de investimentos especulativos; Frederic Mishkin, que voltou a dar aulas em Columbia depois de trabalhar no banco central dos EUA, escreveu um relatório em 2006 financiado pela Câmara de Comércio da Islândia (recebeu US$ 124 mil) elogiando a força da economia desse país...

Até que ponto a indústria financeira se serviu de seu convincente talão de cheques para ganhar um aval acadêmico e apoio intelectual a suas políticas ultraliberais? Os centros de ensino entoam o "mea culpa" e desqualificam qualquer atitude pouco ética. No entanto, ressaltam que se trata de casos individuais, mais que uma tendência generalizada, lembram que defender a mesma teoria apoiada pelo setor financeiro não implica ser comprados por este e destacam que a colaboração entre o mundo acadêmico e o empresarial é positiva desde que haja transparência e não se ultrapassem certos limites.

Ángel Cabrera é o único espanhol que dirige uma escola de administração nos EUA, a prestigiosa Thunderbird, no Arizona. Na opinião dele, o papel do mundo acadêmico na gestão da crise não tem tanto a ver com os conflitos de interesse ocasionais, mas sim com o fato de que durante décadas os centros de ensino transmitiram uma série de valores sobre o funcionamento dos mercados, a gestão do risco ou os recursos humanos que se demonstraram errôneos e prejudiciais. "Toda a teoria da eficiência dos mercados, por exemplo, passou a ser religião. Chegou-se à conclusão universal de que qualquer intervenção era ruim. Assim mesmo, nas políticas de retribuição, se você tratar as pessoas como oportunistas e egoístas por natureza, criando incentivos enormes em curto prazo, abre a porta para que se comportem assim."

Cabrera salienta que os centros acadêmicos deram forma ao sistema de valores de Wall Street, criando uma "plataforma de legitimidade" para determinadas condutas. Antes da explosão da crise a Thunderbird começou a promover o juramento hipocrático entre seus alunos, pelo qual estes se comprometem a usar seus conhecimentos para criar valor e não para destruir. "Há alguns anos nos olhavam como animais raros, agora nem tanto. Há indícios de que as coisas estão mudando, mas em um ritmo muito lento. Muita gente saiu do armário, e nos âmbitos acadêmicos se começa a falar em ética, responsabilidade corporativa, outra forma de ver a empresa."

Cabrera explica que os centros acadêmicos têm códigos de conduta, e se algum professor é apanhado em infração corre o risco de perder o emprego. O presidente de Thunderbird, porém, reconhece que a estrutura de salários dos professores abre a porta para potenciais conflitos de interesse. Nos EUA o salário médio de um professor de uma escola de economia está em torno de US$ 200 mil por ano, mas em muitos casos as receitas totais podem chegar a US$ 1 milhão graças aos serviços de consultoria, presença em conselhos administrativos, conferências... "Há uma cultura de livre mercado na qual é bem visto que você ganhe tudo o que conseguir. Considera-se positivo para as escolas, porque o professor pode dar mais a seus alunos ao deixar de ser um simples teórico e estar em contato com as empresas. A questão é quanto do salário deveria estar vinculado a essas atividades externas, que tipo de trabalhos são compatíveis com o cargo de professor e onde podem estar os conflitos de interesse", argumenta.

Outro docente espanhol com mais peso no mundo acadêmico anglo-saxão é Mauro Guillén, professor da Escola de Economia Wharton, da Universidade da Pensilvânia. Em torno do debate da contribuição de economistas e professores na gestão da crise, acredita que é preciso estabelecer uma separação entre o que são atitudes desonestas ou erros de avaliação. "Os conflitos de interesse não têm justificativa. Quando um professor escreve um trabalho que foi financiado por uma entidade, deve sempre mencionar o fato", indica. "Outra coisa é se um acadêmico propôs métodos ou modelos que contribuíram para criar a crise. Nesse sentido, creio que é preciso proteger a liberdade de expressão. Um professor pode propor as teorias que quiser. A decisão, em todo caso, foi dos reguladores, que não souberam se antecipar ao perigo que representavam certas operações nos mercados financeiros", acrescenta.

Em relação à vinculação das escolas na formação de líderes empresariais cujas decisões puseram em xeque o sistema, Guillén acredita que as escolas não podem ser responsabilizadas por todos os atos de seus ex-alunos ao longo de sua vida profissional. "Nosso trabalho se limita a tentar desenvolver um espírito crítico em nossos alunos, explicar-lhes os benefícios da ética nos negócios e deixar claro para eles que as decisões que tomarem podem ter repercussões para toda a sociedade", diz.

Na Espanha não foram detectados casos tão flagrantes de colaboração do mundo acadêmico com os interesses de determinados grupos de pressão empresariais. No entanto, durante os anos de gestação do boom imobiliário quase não se escutaram vozes críticas dos economistas. Alfons Sauquet, decano da Escola Superior de Administração e Direção de Empresas (Esade), acredita que isso não significa que tenha havido um aval acadêmico na origem da crise. "Em economia, sob um mesmo teto existem versões contraditórias. Houve professores que apoiaram as teses da indústria financeira e imobiliária e outros que discordaram." Sauquet acredita que uma lição a ser tirada pelas escolas é dar mais voz à diversidade: "Aqueles que foram mais céticos com as práticas financeiras não se deixaram ouvir o suficiente, não fizeram da cautela uma bandeira mais clara. Mas isso sempre é difícil de fazer. Quem se atreve em uma festa a desligar a música e levar embora o carrinho de bebidas?"

David Bach, reitor de programa da IE Business School, critica que se coloquem todos no mesmo saco, já que os acadêmicos estiveram dos dois lados do debate, e dá como exemplo o professor Robert Shiller, de Yale, que foi muito ativo na denúncia dos riscos do mercado imobiliário e uso maciço de produtos financeiros complexos por parte dos bancos.

"Na Espanha, o estouro da bolha imobiliária revelou os problemas estruturais de nossa economia, como por exemplo a baixa produtividade, que vimos denunciando há anos nos âmbitos acadêmicos", indica Bach. Ele reconhece que as escolas devem assumir sua parte de responsabilidade na crise, questionando-se, por exemplo, se nos programas se insiste o suficiente na formação de riscos ou na importância dos fundamentos da economia real, e não só financeira. "Entretanto, também seria bom se reconhecessem nossa contribuição pelas centenas de empresas e os milhares de postos de trabalho que nossos alunos criaram ao longo dos anos", lamenta.

As escolas de negócios na Espanha têm um sistema mais centralizado do que nos EUA sobre as colaborações externas que seus professores podem exercer, o que na teoria serve de porta corta-fogo diante de possíveis conflitos de interesse. Sauquet opina que as relações dos professores com as empresas são boas, desde que tenham um retorno acadêmico, isto é, devem servir para melhorar a atividade docente dos professores ou sua pesquisa. "Na Esade, quando nos encomendam estudos de conjuntura, sempre dizemos quem é nosso patrocinador. Nosso regulamento especifica que os trabalhos de consultoria devem ser divulgados e ter a aprovação da escola", explica.

Na IE Business School, por exemplo, os professores podem oferecer serviços de consultoria, mas devem contar com a autorização do reitor, que analisará se o trabalho é compatível com seu trabalho docente e de pesquisa. "Em geral é bom que os acadêmicos colaborem com governos e empresas privadas. Pedem-nos que nossa pesquisa tenha relevância no mundo real. O importante é a transparência, quer dizer, sempre informar de onde vem o dinheiro para a pesquisa. Em nossa escola é comum colaborarmos com setores econômicos para estudar determinados aspectos. Outra coisa muito diferente é que lhe ofereçam para assinar um trabalho que vai servir para um terceiro fazer lobby. Não estou consciente de que uma proposta dessas tenha chegado a nós, mas em todo caso seria rejeitada", afirma Bach.

O mundo da docência, reconhece Rafael Sarandeses, diretor-geral da Fundação de Estudos Financeiros (FEF), tem um atrativo especial para o pessoal do mundo financeiro, "porque confere um selo acadêmico, uma pátina de credibilidade". "No entanto, um professor pode estar de acordo com uma teoria que depois se revela errônea. Não ter razão não deve induzir automaticamente à suspeita." A FEF tem como patronos 30 das principais empresas espanholas, e em suas publicações colaboram membros do mundo empresarial e acadêmico. Enquanto os primeiros costumam renunciar à retribuição que a FEF lhes oferece, o pessoal do âmbito universitário costuma recebê-la. "Temos um orçamento muito modesto. É totalmente ilógico que um acadêmico de prestígio que colabore conosco vá perder seu espírito crítico por ganhar uma quantia simbólica", salienta Sarandeses.

O filme "Inside Job" provocou um intenso debate em alguns centros acadêmicos. Em Columbia, por exemplo, aprovaram há apenas duas semanas novas normas de transparência para evitar conflitos de interesse. Concretamente, os professores deverão divulgar todas as entidades às quais prestaram serviços, remunerados ou não, nos últimos cinco anos e detalhar a natureza desses trabalhos. Parece que Hubbard já recebeu o golpe que arrogantemente pediu aos autores do documentário.

Professores na mira

Martin Feldstein. Professor da Universidade Harvard. Entre 1982 e 1984 presidiu o conselho de assessores econômicos do presidente americano Ronald Reagan, governo marcado pela desregulamentação financeira. Em 1988 foi contratado pela AIG. Como membro do conselho da seguradora, era um dos encarregados de supervisionar os produtos que a levaram à beira da falência.

Larry Summers. No âmbito acadêmico foi presidente de Harvard entre 2001 e 2006. Além disso, foi assessor econômico tanto no governo Reagan como com Barack Obama. Recebeu diversas críticas, já que seu cargo acadêmico não o impediu de faturar milhões de dólares assessorando fundos especulativos e dando conferências patrocinadas pelos bancos de investimento.

Frederic Mishkin. Desenvolveu toda a sua vida profissional como professor de economia na Universidade Columbia. Entre 2006 e 2008 foi membro do conselho de governadores do Federal Reserve dos EUA (banco central). Também realizou trabalhos de consultoria para o Banco Mundial e o FMI. Em 2006 publicou um trabalho financiado pela Câmara de Comércio da Islândia, elogiando a economia do país nórdico. Não divulgou seus honorários, e quando a crise arrasou a Islândia mudou o título do relatório.

Glenn Hubbard. Reitor da Escola de Economia de Columbia. Entre 1991 e 1993 foi assistente do Departamento do Tesouro dos EUA. De 2001 a 2003 foi presidente do conselho de assessores econômicos de George W. Bush. Trabalha para diversas empresas privadas, como MetLife, Nomura, KKR... Em 2004 publicou para o Goldman Sachs um polêmico trabalho defendendo o uso dos derivados.

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