Novos óculos do Google devem revolucionar conceito de realidade aumentada

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24 Novembro 2012

Durante a Semana de Moda de Nova York deste ano, Sergey Brin, co-fundador do Google, fechou uma parceria improvável com a estilista Diane von Furstenberg para promover um acessório com uma diferença: o Google Glass, o protótipo do primeiro computador da empresa criado para ser “vestido” – uma espécie de smartphone embutido em um par de óculos. Durante o desfile de Diane, modelos caminharam pela passarela usando o futurista Glass, que se assemelha a um visor elegante e inclui uma pequena tela posicionada sobre o olho direito. O equipamento permite ao usuário tirar fotos, enviar e-mails e navegar pela internet usando comandos ativados por voz. O Google investiu na ideia de que o smartphone acabará por dar lugar ao computador para ser usado junto ao corpo, da mesma forma que os celulares básicos dos anos 1980 e 1990 levaram aos smartphones de hoje.

A reportagem é de Christine Rosen, publicada pela revista Prospect e reproduzida pelo Portal Uol, 24-11-2012.

Embora o lançamento do Glass para o público em geral deva ainda demorar, o projeto mostra o entusiasmo do Google em promover uma ideia que vem crescendo na comunidade tecnológica há vários anos: a realidade aumentada. De um modo geral, o termo realidade aumentada descreve as inúmeras formas nas quais os dados digitais – em formato de vídeo, som ou texto – podem ser sobrepostos a contextos do mundo real por meio da utilização de dispositivos baseados em tela para tornar o dia a dia mais eficiente e emocionante.

Se você possui um smartphone, você já deu um pequeno passo na direção desse mundo. Se você se perder, o mapa e o GPS disponíveis em seu celular poderão mostrar o caminho de volta para a sua casa em tempo real. Smartphones também são capazes de fornecer informações sobre o mundo que nos cerca ao coletar dados baseados em imagens obtidas com sua câmera; os usuários do iPhone podem baixar o aplicativo Wikitude, por exemplo, que lhes permite apontar seu telefone para um determinado objeto e obter informações digitais sobre ele.

Em relação aos computadores criados para serem usados junto ao corpo, não é exagero supor que, no futuro, nós acabaremos por aceitar essa ideia em nosso dia a dia. Embora a maioria de nós ainda não use os smartphones como uma peça de roupa ou um acessório, geralmente ficamos a poucos metros deles.

Nossos celulares garantem que nossos mundos digital e físico estejam intrinsecamente conectados: as informações digitais nos ajudam a viver no mundo físico e nós incorporamos nossas experiências físicas em nossas vidas digitais quando enviamos imagens para sites de redes sociais. Os promotores da tecnologia da realidade aumentada querem tornar essas intervenções mais sofisticadas, onipresentes e rentáveis.Na verdade, eles imaginam um futuro em que o virtual e o real estarão tão interconectados, e a tecnologia que utilizaremos para navegar por esses dois reinos será tão imperceptível, que já não falaremos mais sobre estar “online” ou “offline”. Brin disse recentemente ao The Wall Street Journal, em entrevista sobre o Google Glass, que “a noção de ter acesso contínuo e sem interrupções ao seu mundo digital sem interromper o acesso ao mundo real é muito importante”. Mas para muitos profissionais da tecnologia é esse dualismo – digital versus real – que a realidade aumentada pretende abolir.

Até agora, nossos ajustes da realidade têm sido vistos como melhorias inofensivas – os “aumentos” que adotamos para a nossa realidade têm sido apenas distrações dos aspectos inconvenientes da existência. A experiência humana cotidiana é, muitas vezes, ineficiente, frustrante e aborrecida. Então, por que não usar a tecnologia para melhorar essa experiência e torná-la mais divertida? Em um futuro próximo, por exemplo, se você estiver usando um dispositivo do tipo óculos-computador e você passar por sua cafeteria favorita, um cupom pode aparecer em seu visor, juntamente com um tweet recente enviado por um de seus amigos falando sobre o café com leite de soja que ele tomou lá no início do dia. Os criadores de algoritmos de computador podem aprender mais sobre seus gostos e hábitos e, assim, ao longo do tempo, aperfeiçoar suas ofertas, gerando um tipo de retroalimentação contínua de informações aparentemente produzida ao acaso.

No entanto, o mundo da realidade aumentada levanta desafios tanto de ordem prática quanto de ordem filosófica. Há o desafio da sobrecarga de informações. Ampliar a realidade significa acrescentar ainda mais informações a uma experiência diária já abarrotada de dados disponíveis. E ampliar ainda mais esse fluxo de dados pode aumentar o estresse e a distração para muitas pessoas.

Essa tecnologia também gera novas possibilidades para os mercados em tempo real, num momento em que os anunciantes tentam disputar nossa atenção segundo a segundo. Afinal de contas, o faturamento do Google é proveniente de anúncios, e o Google Glass seria uma forma extremamente eficiente de exibir esses anúncios diretamente aos consumidores. Nosso comportamento diário já gera uma grande quantidade de dados: os nossos hábitos de consumo, nossos registros médicos, os filmes, livros e músicas que baixamos da internet. E, como a tecnologia da realidade aumentada é criada por outras pessoas – geralmente, por empresas privadas – para reunir informações sobre nós mesmos por meio do uso que fazemos dela, a necessidade de mais transparência sobre os tipos de dados coletados e como essas informações são usadas só vai aumentar.

Os dispositivos de realidade aumentada talvez possam viabilizar o registro de cada coisa que você faz e vê, gerando preocupações óbvias com a privacidade dos usuários. Quem se sentiria confortável usando um banheiro público cheio de pessoas usando visores Glass? Como nossas suposições a respeito do comportamento em locais públicos e como nossa confiança nos outros seriam alteradas em um mundo onde tudo o que você dissesse ou fizesse pudesse ser gravado e enviado para a internet pelas pessoas à sua volta?

Paradoxalmente, a tecnologia da realidade aumentada também tem o potencial de bloquear as coisas que as pessoas não querem ver – como um sem-teto morando na rua, por exemplo. Isso poderia minar a coesão social. Se cada um de nós viver em nossa própria realidade aumentada, conectados a nossa rede de amigos e familiares, como ficará a nossa atitude em relação ao envolvimento com estranhos em espaços públicos?

Um mundo que abraça a realidade aumentada é um mundo no qual colocamos uma grande dose de confiança nos criadores dessa tecnologia e no ethos dos engenheiros que a alimentam. Esses engenheiros criam meios extraordinários para que nós sejamos capazes de fazer muitas coisas, mas seu negócio não é elaborar fins significativos para esse meio. Na busca pelo algoritmo perfeito, nós corremos o risco de esquecer que existem outras coisas inefáveis e que provavelmente não se beneficiarão do olho de aumento criado pelos engenheiros – o olhar interrogativo de um estranho ou um momento de tranquilidade em meio a uma cidade fervilhante. Essas coisas são impossíveis de quantificar porque seu valor é completamente único para cada um de nós. Apesar de ser impossível replicar essas experiências, elas são, no entanto, os momentos humanos que compõem nossa experiência cotidiana – e nem todos eles precisam de uma realidade aumentada para serem apreciados.

Ainda estamos a alguns anos do mundo de realidade totalmente aumentada imaginado pelos empreendedores e teóricos da área de tecnologia. É por isso que este é o momento oportuno para pensarmos sobre como gostaríamos de viver com essa tecnologia quando ela se massificar. As telas para as quais olhamos atualmente podem muito bem se transformar nos óculos por meio dos quais veremos o mundo no futuro. Se o que vemos do outro lado é distorcido ou não dependerá, em parte, das decisões que tomarmos hoje. À medida que caminhamos para a era de realidade aumentada, devemos começar a nos perguntar para que serve a tecnologia, o que desejamos que ele faça por nós e como queremos viver com ela no futuro.

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