Barack Obama, presidente reeleito e fiel sem complexos

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12 Novembro 2012

Barack Obama foi reeleito presidente dos Estados Unidos na noite de terça-feira, vencendo no Estado de Ohio sobre o seu adversário republicano Mitt Romney. O chefe da primeira potência econômica mundial, 51 anos, sempre apresentou singularidades e paradoxos. Entre as suas características: a sua fé em Deus, livre e sem complexos, que não é como a do seu ex-adversário Mitt Romney. Corresponde, ao contrário, a uma América mais do que nunca heterogênea.

A reportagem é de Henrik Lindell, publicada no sítio da revista La Vie, 07-11-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Desde que os EUA são os EUA, isto é, crente em 90%, um candidato à presidência se sente obrigado a falar sobre a sua própria fé pessoal. Barack Obama não é exceção. Há vários meses, ele multiplicou os encontros com líderes religiosos, comunicando milhares de vezes o seu hábito de rezar "todos os dias" e de ler a Bíblia. Em um vídeo publicado pela sua equipe para a campanha eleitoral, pode-se vê-lo rezar até na Casa Branca e com sua família, com uma certa ostentação que não lhe corresponde.

Nem todas são aparências enganadoras. Se devemos acreditar na sua palavra, a sua fé verdadeiramente estrutura o seu pensamento e a sua ação política. Em uma entrevista publicada no dia 21 de agosto pela Washington National Cathedral Magazine, uma revista religiosa, ele declarou: "A minha fé cristã me dá uma perspectiva e uma segurança que eu acho que não teria de outra forma: que eu sou amado. . Que, no fim das contas, Deus está no controle”. A fé presidencial passa a fazer parte de uma obviedade destacada, por exemplo, por Stephen Mansfield, autor de A Fé de Barack Obama, uma das melhores biografias não hagiográficas do presidente norte-americano: "Obama – diz o autor – acredita que a sua fé deve influenciar o modo de governar o país. Assim, ele introduz valores religiosos na esfera política". Nisso provavelmente se encontra um dos aspectos mais importantes – e, na França, um dos menos conhecidos – do presidente democrata.

Três dos atos mais fortes do seu mandato são explicitamente inspirados nos valores cristãos: a reforma do sistema de saúde, que permitirá que cerca de 35 milhões de norte-americanos tenham acesso pela primeira vez a uma cobertura dos tratamentos; o resgate por parte do Estado federal dos postos de trabalho na indústria automobilística; o "discurso do Cairo" do dia 4 de junho de 2009, em que ele defendeu o diálogo entre "a América e o Islã", que "se alimentam de princípios comuns, ou seja, a justiça e o progresso, a tolerância e a dignidade de cada ser humano".

Ao mesmo tempo, e em total oposição à direita cristã, Obama sempre foi, assim como o Partido Democrata, explicitamente a favor do aborto. Há seis meses ele também se pronuncia a favor do casamento homossexual. Em certos ambientes cristãos conservadores, questiona-se abertamente a sua fé e ele é tratado como não crente ou até mesmo como muçulmano (porque o seu sogro o era).

Então, que fé é essa fé presidencial? Obama faz parte dos "cristãos progressistas", um termo muitas vezes usado por ele mesmo, ou da "Religious Left" (esquerda religiosa). Trata-se de uma categoria de crentes comprometidos, às vezes pró-vida, mas que não deve ser confundida com a "Liberal Left" (esquerda liberal), uma facção fortemente antirreligiosa dentro do Partido Democrata. No confessional, Obama é um protestante liberal. É uma corrente espiritual que se desenvolveu a partir do século XIX, dentro das Igrejas protestantes "históricas" ou da "main-line" (da linha principal) (como por exemplo a Igreja Reformada francesa).

Herdeiro do humanismo, reconhecido pela sua exegese crítica dos textos e por um certo requestionamento dos dogmas cristãos, esse liberalismo produziu grandes pensadores, como Reinhold Niebuhr (1892-1971), um dos "mestres espirituais" de Obama. Como os protestantes da linha principal em geral, as Igrejas liberais têm estado em declínio durante décadas. Mas há várias exceções.

Como a da Trinity United Church of Christ, uma mega-Igreja (uma Igreja que atrai ao menos 2.000 pessoas ao culto) na periferia sul de Chicago, no coração dos bairros mais pobres. É nessa estrada que Obama, recém-formado pela Universidade de Columbia, começou a sua carreira em 1985 como animador social. Inicialmente não crente e animado por um profundo ceticismo, ele se converteu em 1988, casou-se com Michelle, brilhante advogada, e lá batizou suas dois filhas.

"Ajoelhando-me debaixo de um crucifixo no bairro South Side de Chicago, senti o Espírito de Deus me dar um sinal. Submeti-me à sua vontade e me comprometi a descobrir a verdade", resume simplesmente em um dos seus discursos mais conhecidos perante o Congresso em Washington no dia 28 de junho de 2006.

Baseado na Teologia da libertação negra, nos ministérios sociais e em uma vida comunitária muito rica com cultos comoventes, a Trinity fez com que Obama descobrisse principalmente que a fé podia ser, nas suas palavras, "um agente ativo, tangível, no mundo". Como explica o seu biógrafo Stephen Mansfield, "ele chegou à fé assim como muitas pessoas da sua geração, menos para entrar em uma tradição religiosa do que para descobrir um povo para pertencer; menos para adotar um conjunto de doutrinas do que para ser calorosamente acolhido por aqueles que já acreditavam".

Na primavera de 2008, seis meses antes da sua eleição, Obama se distanciou da Trinity Church. A imprensa revelou que o pastor Jeremiah Wright, histórico militante antirracista, havia se desviado, fazendo declarações incendiárias contra o seu próprio país, dizendo por exemplo que os atentados do 11 de setembro eram compreensíveis.

Um incidente muito midiático, explorado pelos meios de comunicação, mas que não teve repercussões sobre o compromisso cristão, embora discreto, de Obama. "Ele manteve a sua fé, que é muito intelectual. Às vezes, ele fala como evangélico, insistindo no seu encontro pessoal com Jesus, mas não tem nada de um born again", explica Lauric Henneton, historiador e autor de uma história religiosa dos Estados Unidos.

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