Estudo de Lucien Febvre retrata Lutero à luz do contexto social

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01 Setembro 2012

Na Universidade de Estrasburgo (França), no início dos anos 1920, dois jovens professores começavam a sua trajetória acadêmica com muito interesse pela história: Lucien Febvre e Marc Bloch. Ambos estavam descontentes com a maneira tradicional de se fazer história, quase sempre numa perspectiva política, desprezando-se as contribuições das demais ciências humanas. O interesse deles se tornaria ainda mais forte a partir de 1929, quando surgiu a revista "Annales d'Histoire Économique et Sociale".

O objetivo do movimento, segundo Febvre, era "derrubar as velhas paredes antiquadas, os amontoados babilônicos de preconceitos, rotinas, erros de concepção e de compreensão".

A reportagem é de Leonildo Silveira Campos, professor de pós-graduação de ciência da religião da Universidade Metodista de São Paulo, e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 01-09-2012.

Para o avanço do conhecimento histórico nessa nova perspectiva, eles propuseram duas direções novas ancoradas nas contribuições da história econômica e social.

No entanto os rumos dessa nova maneira de fazer história, conhecida depois como "história das mentalidades", já tinham sido sinalizados em duas publicações dessa famosa dupla.

Em 1924, Bloch publicou "Os Reis Taumaturgos", no qual tratava da crença popular no poder curativo da realeza. Febvre, por sua vez, em 1928, publicaria o texto aqui comentado: "Martinho Lutero, Um Destino".

O desafio proposto por Febvre era o de fazer uma história do gênero biográfico, mas com novos olhares, incorporando as contribuições de outras ciências humanas, diferentemente, portanto, das milhares de outras biografias escritas sobre Lutero.

A primeira delas surgiu alguns meses após a morte do teólogo (1546) e foi escrita pelo amigo Felipe Melanchton (1497-1560). Entre Melanchton e Febvre há um período de quase 400 anos.

MITOS E LENDAS

Nesse período, milhares de textos foram escritos sobre Lutero. Uns produzidos por partidários, outros resultaram da ira católico-romana ante a Reforma protestante. Como resultado de tantas polêmicas, camadas de mitos, lendas e interpretações equivocadas se acumularam sobre Lutero.

O desafio de Febvre foi o de revolver tais camadas para se tentar chegar ao Lutero histórico, não como um indivíduo isolado, mas parte integrante de uma coletividade maior do que ele próprio. Metodologicamente o autor optou pela concentração de seus esforços no chamado "Lutero amadurecido", do período entre 1517 e 1525. Deixou de lado o "hipotético Lutero", do período da juventude, e o "Lutero cansado, exaurido, desencantado", que foi se apagando entre 1525 e 1546.

Mas quem é ele? Febvre,em 1942 disse que "o indivíduo é sempre o que sua época e o seu meio social permitem".

O intuito do livro de Febvre foi assim exposto por ele mesmo: "Uma biografia de Lutero? Não. Uma opinião sobre Lutero, nada mais. Traçar a curva de um destino que foi simples, mas trágico; situar com precisão os poucos pontos realmente importantes por onde passou essa curva".

TESES LUTERANAS

A publicação da biografia em português do Brasil, pela Três Estrelas, selo editorial do Grupo Folha, se dá 84 anos depois da edição francesa, e 48 anos após a portuguesa.

Ela traz aos estudiosos da história e das demais disciplinas que tratam das religiões uma enorme contribuição.

Daqui a cinco anos (2017) as igrejas protestantes "históricas" irão comemorar os 500 anos da fixação das 95 teses de Lutero na porta da igreja em Wittenberg.

As comemorações se darão no meio de um decênio em que os evangélicos brasileiros deverão, se se mantiverem as atuais tendências, ultrapassar os 30% da população brasileira.

Uma reflexão séria poderá testar o grau de "protestantinização" dos evangélicos brasileiros, que, pelo que indicam as atuais pesquisas, especialmente dentro do neopentecostalismo, se afastam cada vez mais do Lutero descrito por Febvre.

Todavia, como nos mostra Febvre, a distância entre Lutero e o luteranismo posterior inaugurou um distanciamento que demonstra o dinamismo e as tendências do fenômeno religioso.

Em outras palavras: que continuidades e rupturas marcam o protestantismo, 500 anos depois de 1517, num país tropical?

Febvre nos ajudará, a despeito de sua frase derradeira: "Estamos pouco preparados para avaliar com sangue-frio a curva sinuosa e bifurcante de um destino póstumo".

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