Holocausto: as manchas do trabalho forçado em mina de carvão

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Por: Cesar Sanson | 17 Agosto 2012

Sobreviventes relatam a experiência em campos de trabalho forçado. O ex-soldado ucraniano Nicolau Kapko (foto), fala do seu trabalho em uma mina de carvão para os nazistas.

A reportagem é de Pollianna Milan e publicada pela Gazeta do Povo, 16-08-2012. Foto: Alexandre Mazzo.

Uma pequena marca acinzentada no dedo indicador da mão direita remete Nicolau Kapko à lembrança do que foi o Holocausto. “É pó de carvão que entrou debaixo da pele e ficou. Lavei, lavei, lavei tanto em toda a minha vida, mas não sai”, diz ele. É que Nicolau, em 1940, depois de ter servido ao exército ucraniano e esse ter sido derrotado, foi pego à força pelos nazistas para trabalhar em uma mina de carvão a três quilômetros abaixo da terra. Entre uma marretada e outra, machucou o dedo e o pó entrou debaixo da pele. Virou cicatriz para a vida toda.

Ele foi levado para uma mina de carvão e tinha de dormir em um barracão repleto de pessoas: a cama era forrada com uma camada fina de palha. Na mina, os cerca de 3 mil homens desciam de 90 em 90 em um elevador. “Não desejo aquilo para ninguém. Você fica ofegante e sem ar por trabalhar o dia todo lá embaixo.”

Nicolau foi um dos milhares de jovens obrigados a trabalhar para os nazistas. Alguns foram para fábricas produzir armamento e borracha sintética para a guerra, outros foram para minas de carvão ou para a lavoura plantar a comida do exército alemão. Quando os guetos foram formados, segundo o Museu do Holocausto dos Estados Unidos, eles também viraram um espaço atrativo para as fábricas: elas se instalaram nas regiões dos guetos por causa da mão de obra farta e gratuita.

Apesar de os nazistas terem feito campos de extermínio apenas fora da Alemanha, os campos de trabalho forçado existiram em solo alemão e em vários outros países da Europa dominados pelos nazistas (recentemente, alguns desses campos foram descobertos por historiadores). Nesses locais, os presos trabalhavam até a morte, seja pelo cansaço, falta de alimento, de roupa para o frio ou doentes em decorrência das más condições de vida. No campo de concentração de Mauthausen, por exemplo, “os prisioneiros muito magros eram forçados a subir rapidamente os 186 degraus da pedreira carregando pedras muito pesadas”, segundo o Museu do Holocausto dos Estados Unidos.

Comida extra

Além da sopa rala com um ou dois fiapos de repolho feita em um barril de petróleo, quem trabalhava em mina de carvão como Nicolau tinha direito a uma vitamina “química”, segundo ele, tomada duas vezes ao dia para limpar os pulmões do pó de carvão aspirado a todo momento. Ele trabalhou assim por quase quatro anos, seis horas por dia. A vida era de mudo: não podia abrir a boca para nada. “Não me bateram porque trabalhava pesado. Sabia que assim eu sobreviveria.”

Os relatos do trabalho na mina saem junto com uma respiração pesada e com lágrimas que escorrem pelo rosto fino de Nicolau. As outras recordações do Holocausto, entretanto, foram quase todas apagadas com o passar do tempo. Hoje, aos 94 anos, ele balança a cabeça de um lado para outro, demonstrando que já não sabe relatar com precisão como chegou ao Brasil e como foi seu casamento. Ele para, respira fundo e lembra que seu documento de identidade traz a data de nascimento e a nacionalidade erradas. “Caiu uma bomba na casa de madeira onde eu morava [na Ucrânia] logo que a guerra começou. Perdi tudo. Fui lá na Gestapo pedir uma identidade nova e eles me deram outra com dados errados e ainda falaram que não era para eu reclamar porque guerra é guerra.”

Migalhas da guerra

Ao ser questionado sobre a esposa, Nicolau lembra de um episódio marcante que também remete à guerra. “Logo que chegamos a Curitiba, fomos passear e minha esposa me mostrou que em uma rua havia migalhas de pão espalhadas. Ela falou: ‘Se fosse durante a guerra, faríamos de tudo para comer esse pão que está agora no chão. Quanta fome se passava’.”

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