Universidade, a fábrica dos textos baseados no plágio universal. Artigo de Peter Sloterdijk

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17 Julho 2012

Uma hiperprodução destinada a não ser lida. O filósofo alemão Peter Sloterdijk explica a peculiaridade desse "desprezo à propriedade intelectual" nas academias. Com um convite: protejamos as citações, pois é graças às aspas que a cultura avança.

O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 12-07-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Não é trair um segredo, mas sim uma simples constatação, afirmar que a universidade moderna, de uma forma generalizada e há muito tempo, está enfrentando um problema sério – para usar um termo prudente. O escândalo de Bayreuth (o ex-ministro da Defesa alemão, Karl-Theodor zu Guttenberg, acusado de plágio na sua tese de doutorado, em fevereiro de 2011) fez surgir apenas um minúsculo segmento de uma confusão da qual ninguém, ou quase ninguém, pode avaliar a dimensão histórica e sistêmica de maneira realista. (...)

Seria preciso ser muito ingênuo para supor que os estudantes e os professores de hoje deixam de ser, ao cruzar o limiar de uma universidade, filhos da sua época. O espaço universitário não pode simplesmente se tornar imune a isso. (...)

Para compreender a diferença específica entre o plágio universitário e todos os outros casos de desprezo à "propriedade intelectual", é preciso levar em conta as especificidades inimitáveis dos procedimentos acadêmicos. Visto de fora, o mundo universitário provoca o efeito de um biótopo especializado na produção de "textos" na maioria das vezes bizarros e totalmente estranhos ao popular. Vão das apresentações em seminários e das tarefas semestrais às teses e às dissertações de habilitação, passando pelas teses de diploma ou de especialização e pelos escritos dos exames, sem falar das avaliações, dos projetos de pesquisa, dos memorandos, dos projetos de estrutura e de desenvolvimento etc.: tantos vegetais textuais que florescem exclusivamente no microclima da academia – comparáveis àquelas plantas rasteiras dos Altos Alpes que sobrevivem em altitudes em que as árvores não crescem mais – e que, geralmente, não suportam ser transplantadas para as planícies livres e planas da vida editorial.

O plágio universitário se desenvolve consequentemente, na maioria dos casos, em condições em que os motivos que intervêm frequentemente no não respeito da propriedade intelectual – o fato muitas vezes evocado de se embelecer com as penas dos outros – não podem desempenhar papel algum. Enquanto em um terreno livre se considera que as penas dos outros melhoram a atratividade de quem as porta e aumentam a sua "fitness erótica", para empregar o jargão dos biólogos, as penas dos outros, no meio universitário, servem apenas para se camuflar e para se imergir no ordinário. Elas ajudam o portador da pena a passar despercebido pelo fluxo regular das massas de textos.

O filósofo Michel Foucault resumiu essa situação ainda no início dos anos 1970 introduzindo a palavra "discurso" na autodescrição das produções textuais universitárias. O que ele chama de "discurso" nada mais é do que o texto sem autor, o discurso especializado como instituição. Essa interpretação das rotinas discursivas universitárias e, mais em geral, institucionais, nos abre o caminho não tibetano rumo ao princípio da roda de oração. Quem não quer falar de discursos faria melhor se não dissesse nada a propósito dos plágios.

A dissolução do plágio no discurso não é suficiente para compreender exaustivamente a singularidade do plágio universitário. Nesse caso particular, intervém como suplemento um fator totalmente idiossincrático, para cuja compreensão o melhor seria recorrer à pesquisa literária. Com o seu livro O ato da leitura. Uma teoria do efeito estético (Editora 34, 1996), escrito em 1972, Wolfgang Iser, o eminente representante de uma Escola de Constança que se tornou histórica, se não revolucionou a sua disciplina e as ciências humanas em geral, ao menos as fez avançar muito, ao demonstrar que é possível fazer aparecer em todo texto uma cumplicidade íntima entre o autor e o leitor hipotético – um vínculo ativado pela leitura.

Ler significa, por consequência, despertar para a vida estruturas de apelo inerentes ao texto e se entregar ao jogo da interpelação, da interpretação antecipada, do engano, da recusa e da recuperação. Todo texto elaborado constitui uma entidade composta por sinais que guiam a recepção, que o leitor põe em cena de um modo ao mesmo tempo voluntário e involuntário, na medida em que o lê realmente.

Na perspectiva da situação universitária, as análises sutis dos estetas da recepção provocam o efeito de reminiscências de uma antiquíssima Idade do Ouro da leitura, em que todo texto ainda era quase um billet doux, uma carta de amor. Nenhum universitário irá negar: é hora de completar a teoria do leitor implícito com a do não leitor implícito. Devemos nos dar conta da situação partindo da ideia de que entre 98% e 99% de todas as produções de textos que saem da universidade são redigidos na expectativa, justificada ou injustificada, de uma não leitura parcial ou total desses textos. Seria ilusório acreditar que isso poderia não ter um efeito sobre a ética do autor.

Para os membros de uma cultura que, em todas as coisas, lhes ensina a seguir e a não seguir a regra, deriva daí uma consequência obrigatória, a necessidade de dar ao não leitor o que lhe cabe. Paradoxalmente, dirigimo-nos ao não leitor implícito dirigindo a ele gestos de rejeição, e esse não leitor é inerente ao texto, já que é ele que, de todos os modos, não irá vê-lo.

Quem escreve sem esperar uma recepção também tem, a seu despeito, a tendência de integrar na sua produção passagens que não fazem parte dela e estão predestinadas a alimentar a variante acadêmica da não leitura, na medida em que foram verificadas antecipadamente por leituras que, talvez, já podem ter sido feitas em outros lugares. O reino das sombras da universidade gera, assim, um mundo textual de segunda ordem, no qual secundigênitos realmente não lidos mantêm no circuito primogênitos virtualmente não lidos.

Nesse sistema, a leitura real inesperada leva à catástrofe. Aqui, o interessante é o fato de que o que chamamos de leitura real não pode ocorrer, tendo-se em conta as monstruosas avalanches que constituem as produções universitárias escritas. Hoje, apenas as máquinas de leitura digital e os programas de pesquisa especializada são capazes de assumir o papel de delegados do leitor autêntico e de entrar em diálogo ou em não diálogo com um texto. O leitor humano – chamemo-lo de professor – é, ao invés, deficiente. É precisamente assim, enquanto homem da universidade, que o especialista é condenado há muito tempo a ser mais um não leitor do que um leitor.

A consequência prática de tudo isso só pode ser a redução das instigações sistêmicas a produzir um texto no modo da impostura. A melhor maneira para chegar a isso é lembrar com insistência, aos autores praticamente não lidos dos textos hoje e amanhã imanentes à universidade, a existência daqueles guardiões digitais dos bons costumes que, praticando a leitura automática, revelam a diferença entre plágios e citações.

Cometer-se-ia um erro se fossem legalizadas as citações não especificadas, como exigem certos defensores do romanticismo da pirataria universitária. A cultura da citação é o último fronte no qual a universidade defende a sua própria identidade. Ela pode ser desafiada por uma nova onda de subjetividades de impostores que fazem uso do digital, da ironia e do espírito da pirataria; aos novos jogadores, que fazem as suas zombarias jogando sobre a regra do mínimo de trabalho sério, é preciso fazer com que compreendam onde se situa o limite. A cultura avança sobre aquelas suas pequenas pernas que são as aspas. As aspas são a cortesia do pirata.

Deveríamos pôr na entrada de todas as faculdades o cartaz Cave lectorem! – para os não-latinistas: "Cuidado com o leitor". Com esse aviso, talvez poderia ter início o que os bem intencionados chamam de trabalho para uma nova ética do comportamento científico.

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