As mudanças climáticas e o Rio da Prata

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Por: André | 29 Junho 2012

O estuário do Rio da Prata tem várias características especiais devido à grande quantidade de águas doces carregadas de nutrientes que se encontram e descarregam ali. É uma zona muito rica, mas em risco diante das transformações climáticas.

Entrevista com Claudia Simionato, oceanógrafa do clima e pesquisadora do Conicet.

A entrevista é de Leonardo Moledo e publicada pelo jornal argentino Página/12, 27-06-2012. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Conte-me.


Que quer que lhe conte?

Seu trabalho.

Estamos trabalhando em processos físicos no estuário do Rio da Prata.

Vamos ver. O que acontece no estuário do Rio da Prata?

No estuário do Rio da Prata acontecem muitas coisas. Todos os portenhos estão muito acostumados a vê-lo mais com um rio, e a pensá-lo como um rio. E, na verdade, o nome ajuda. No entanto, não é um rio, mas um sistema estuarino gigante.

Estuarino...

Sim, é um estuário, uma zona onde as águas doces de origem continental carregadas de nutrientes se encontram com águas oceânicas. São sistemas muito especiais, porque justamente por sua riqueza em nutrientes, pelo aporte continental, permitem que se desenvolvam muitas formas de vida.

Onde se dá o encontro?

Na linha Punta Piedras-Montevideo. Punta Piedras é o extremo norte da baía de Samborombón. E há uma enorme quantidade de motivos para tratar de entender os processos físicos neste estuário. Isto tem muito a ver com a importância ecológica e socioeconômica deste sistema.

O que acontece no encontro entre águas doces e salgadas?

Uma série de coisas. Uma das mais importantes é que se forma o que se denomina “cunha salina”. Acontece porque a água continental, como não contém sal, é mais leve que a água salgada, de tal modo que fica flutuando sobre a água salgada, colocando-se como uma cunha. Aí se forma um sistema no qual há um declive de salinidade importante, onde além disso se produz a maior parte da floculação dos sedimentos.

Floculação...


Sim, é um processo físico-químico pelo qual partículas pequenininhas vão se agregando para formar uma partícula grande, mais massiva e mais pesada, que afunda.

Partículas de quê?

De sedimentos. No Rio da Prata entra água fundamentalmente dos rios Paraná e Uruguai, com uma enorme carga de água. É um dos estuários com maior descarga no mundo: a média é de 22.500 metros cúbicos por segundo, mas pode ter picos que chegam a 80.000 ou 90.000. O rio Paraná aporta uma enorme quantidade de sedimentos, cerca de 80 milhões de toneladas por ano. Esses sedimentos são transportados, processo no qual acontece uma série de coisas... Uma parte é depositada, especialmente os mais pesados, como as areias (o que produz os bancos arenosos que se encontram fundamentalmente do lado uruguaio). Os mais fininhos são transportados: alguns afundam, outros floculam, outros ainda sofrem o processo de “saltação” (um avanço em forma de saltinhos), alguns são suspensos novamente... Isso faz com que a dinâmica sedimentológica seja abundante e complexa. A grande quantidade de sedimentos transportados diariamente faz com que o Rio da Prata esteja permanentemente formando bancos que vão crescendo. É um contínuo de crescimento dos bancos, e isso tem sérias implicações para a navegação. É o que produz também a base do delta; o delta está avançando alguns metros por ano, e o faz em consequência de que os sedimentos vão se acumulando. Estamos em uma situação de mudança na qual não sabemos bem o que vai acontecer.

Por quê?

A mudança climática modifica a descarga, o regime de ondas...

E o que pode acontecer?


Muitas coisas. Primeiro, teria que entender o que acontece neste sistema e quais são as coisas que o tornam crítico, para poder analisar por que as mudanças podem ser graves. Na linha Punta Piedras-Montevideo se dá o encontro de águas e a floculação dos sedimentos, e há uma zona onde a iluminação é melhor, porque há menos sedimentos na coluna, há grande quantidade de nutrientes, e além disso é uma zona que é basicamente retensiva.

De onde saem os nutrientes?

Estão na coluna de água: nitritos, nitratos. Se há nutrientes, podem se desenvolver o fitoplâncton, as algas microscópicas, que são a base da cadeia alimentar no oceano. Na medida em que há fitoplâncton é possível criar uma cadeia trófica no oceano. Nessa zona há abundante fitoplâncton.

Que quer dizer?

É um processo bastante interessante, porque a retenção aí não é uma retenção estática. Não é que o que deposito fica porque não há movimento; é um processo de retenção dinâmico. A retenção se dá porque os ventos dominantes mantêm as partículas, elas ficam indo e vindo ao longo dessa zona.

Qual é o comprimento da cunha?

A cunha tem uma extensão que pode chegar até a 200 km.

Chega até aqui.

A “pena” na realidade vai para fora, mas seus efeitos foram rastreados até os 23 graus de latitude Sul. Isso é no Brasil. A pena do Rio da Prata, então, impacta muitíssimo na dinâmica costeira. Além disso, essa pena vai para o norte no inverno e para o sul no verão, em consequência dos ventos, e vai afetando a dinâmica de uma e outra costa.

E que efeitos produz?

Modificações no grau de salinidade, modificações nos balanços de sedimentos, de nutrientes, de oxigênio. Modifica a química da água.

E daí?


Isso senta as bases para que se desenvolvam certas formas de vida. Pelo fato de o sistema ser tão retensivo, há nessa região diversas espécies de peixes, muitas das quais são pescadas comercialmente (como a corvina), e a região se converte numa zona de desova e cria de espécies costeiras. Normalmente, são zonas de recrutamento, para as quais vão os peixes pequenos. É uma zona, então, crítica, que deve ser protegida. Outra região importante é a de Samborombón, não somente porque é região de desova e cria, mas porque é um banhado, uma zona alagadiça, na qual há um ecossistema muito rico, com abundância não apenas de peixes, mas de tartarugas, de caranguejos, de aves migratórias. Essa zona sofre de erosão permanente.

Por quê?

Aparentemente, as mudanças que há no regime de ventos têm como consequência uma maior presença de ventos do leste e sudeste, o que produz uma mudança no regime de ondas. O que estamos vendo a partir dos poucos dados disponíveis e de simulações numéricas é que há mais frequência de ondas mais altas do sudeste. Se se soma a isso um nível do mar que vai se elevando pouco a pouco mas de maneira persistente e o fato de que estão aumentando as frequências das ondas de tempestades, há potencial para degradar costas loucamente. E é isso que está degradando, aparentemente, a baía de Samborombón.

Conhecendo as causas, é possível fazer algo...

Lutar contra a erosão é bastante complicado. Pensar em qualquer medida de mitigação (o que deve estar a cargo de engenheiros oceânicos) é pensar em obras de construção. Mas antes é preciso entender por que há erosão. Temos que diagnosticar o que está acontecendo.

E se nada for feito?


O oceano vai tomando conta; a baía vai estar cada vez mais mar adentro. De fato, se está observando que a pontinha de Punta Rasa, que estava submersa, se separou e se converteu numa ilhota. Isso, acreditamos, tem a ver com a mudança climática. O que não temos muito claro é o que está acontecendo com a enorme quantidade de sedimentos que são mobilizados ali. Esse é um tema que não temos claro e no qual estamos trabalhando.

E onde pensa que vão parar?

Possivelmente, uma parte importante seja retida nos canais, alguns canais artificiais para drenagem.

Alguma outra coisa?

Outro tema no qual estamos trabalhando é a modulação dos fluxos de sedimentos finos no Rio da Prata. A dinâmica sedimentológica se vincula, além disso, a uma grande quantidade de processos, como por exemplo a contaminação (porque os contaminantes grudam nos sedimentos). Quando o contaminante gruda e o sedimento afunda, se está acumulando o contaminante no fundo junto com os sedimentos. E isso é perigoso, porque se se acumulam contaminantes que entram na cadeia trófica não afeta apenas os peixes, mas, eventualmente, as pessoas que consomem esses peixes. Outro tema importante é a dragagem. Para poder realizar operação de dragagem é necessário entender a dinâmica dos sedimentos em escala da bacia. Trabalhou-se com sedimentos em escalas pequenas, mas em escala de todo o rio ainda não se havia feito.

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