Índios adotaram estratégias diferentes

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25 Junho 2012

Em meio a dezenas de mesas redondas, protestos criativos e passeatas de todos os tamanhos, os índios se destacaram na programação paralela da Rio+20, mas não estavam unidos em um único movimento. Com estratégias opostas, os 420 participantes da Kari-Oca e os 1,5 mil indígenas da Cúpula dos Povos chamaram atenção do público e das autoridades brasileiras e estrangeiras, a quem entregaram seus manifestos. E não se misturaram.

A reportagem é de Luciana Nunes Leal e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 24-06-2012.

Organizados pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), os índios da Cúpula dos Povos eram mais ousados. Foram eles que, na segunda-feira, cercaram a sede do BNDES, alguns com trajes típicos e usando arco e flecha, o que assustou os seguranças.

Dois dias depois, partiu dos índios a iniciativa de avançar em direção ao Riocentro, durante passeata convocada inicialmente para protestar contra a remoção da favela Vila Autódromo para construção de instalações dos Jogos Olímpicos de 2016. Os manifestantes foram barrados por PM e Exército, mas fizeram o ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência, deixar por alguns minutos a formalidade da conferência oficial e conversar com eles na rua.

"Nossa estratégia era ir para a rua. Se queremos mostrar que o BNDES financia empreendimentos que destroem a natureza, vamos à sede do BNDES. Não é possível fazer hidrelétrica a qualquer custo", diz Marcos Apurinã, dirigente da Coiab e um dos coordenadores dos indígenas na Cúpula dos Povos, que dormiam no Sambódromo, na região central, e durante o dia faziam atividades no Aterro do Flamengo e em vários pontos da cidade.

Nascido na aldeia Camicuã, no sul do Amazonas, Apurinã, de 42 anos, lidera desde 2004 o movimento Terra Livre, que acampa todo ano em frente ao Congresso, em Brasília. "Neste ano, trouxemos o Terra Livre para a Rio+20", diz o líder, que ontem participou da comitiva que entregou o documento final da Cúpula dos Povos ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e também do grupo que se reuniu com Gilberto Carvalho e a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, na tarde de quinta-feira.

Presente às manifestações da Cúpula dos Povos, o cacique Raoni, da tribo caiapó, pediu a Gilberto Carvalho um encontro com a presidente Dilma. "Raoni é nosso grande líder, ele fala por nós", elogia Apurinã. "Na Rio+20, chamamos atenção, fizemos mobilizações importantes, mas não alcançamos o objetivo de falar com a presidente", reclama.

Responsável pelas apresentações culturais da Cúpula dos Povos, Garapirá Pataxó, do sul da Bahia, também se animou com a atenção do público. "Despertar interesse, a gente desperta. A dúvida é o que vai acontecer depois", diz o índio de 34 anos que se reveza entre a aldeia Barra Velha, em Porto Seguro, e a Aldeia Maracanã, no Rio, onde vivem 47 índios de 17 etnias.

Kari-Oca

Mais diplomáticos e discretos foram os representantes de 20 etnias que passaram os últimos oito dias no acampamento Kari-Oca 2, em Jacarepaguá, próximo ao Riocentro. Aberto ao público durante o dia, o projeto teve apoio da prefeitura do Rio e foi idealizado pelo líder indígena Marcos Terena, que esteve à frente da mobilização dos índios na Rio-92, com o Kari-Oca 1. Os índios mostravam aos visitantes detalhes de sua cultura e montaram uma oca digital, onde tiveram aulas para fotografar e filmar as atividades e puderam usar computadores com acesso à internet.

Durante a Rio+20, os índios do Kari-Oca fizeram apenas uma passeata, na quinta-feira, quando levaram um documento ao ministro Gilberto Carvalho. Naquela noite, receberam no acampamento o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e a presidente da Funai, Marta Amaral Azevedo.

"O ideal da Kari-Oca foi o fórum de debate. Trabalhamos exaustivamente no documento final. Nossas expectativas não vão ser atendidas de imediato, mas conseguimos o objetivo de entregar o documento a lideranças importantes e de reunir os povos em debates diários. Levamos nossas reivindicações relativas a demarcação de terra, educação indígena, saúde para todos. Demos um passo à frente", diz Cristine Takua, de 31 anos, da etnia tupi-guarani. Ela e o marido, Carlos Papá, levaram 15 crianças e adolescentes à Kari-Oca. Eles vivem na aldeia Ribeirão Silveira, no litoral de São Paulo.

"Não brigamos de borduna e flecha. Deixamos nosso recado pela caneta", resume o cacique Iwraru Karajá, de 46 anos, líder da aldeia Watau, na Ilha do Bananal, em Tocantins. Na Rio-92, Iwraru viajou ao Rio como coadjuvante. "Hoje sou um líder. Valeu a pena viajarmos três dias para chegar aqui. Deixamos nossa reivindicação", afirma.

Terena e Apurinã evitaram críticas mútuas, mas defenderam suas posições. "No dia da visita do ministro da Justiça à Kari-Oca, ouvi algumas vaias. Vi que vinham de indígenas da Cúpula dos Povos que estavam lá. Eu disse que ele era nosso convidado e que vaia não é tradição indígena", contou Terena.

Apurinã lamentou que Terena não tenha se associado ao movimento na Cúpula dos Povos. "Terena é nosso parente, não tenho nada contra ele. A Kario-Oca na Eco-92 fazia todo o sentido. Convidamos para se aliarem a nós, mas eles optaram por outra programação."

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