Cerejeiras em flor em Fukushima

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21 Mai 2012

Dr. Noguchi, cujo belo rosto adorna a nota de 1.000 ienes, nasceu em família de agricultores pobres em 1876. Ele se queimou seriamente quando caiu em uma fogueira, e ainda assim cursou medicina em Tóquio e na Pensilvânia, tornou-se um bacteriologista renomado do Instituto Rockefeller em Nova York e viajou pelo mundo em busca da cura de doenças infecciosas. Ele morreu aos 51, derrubado pela febre amarela, que ele contraiu durante uma expedição de pesquisa pela África Ocidental.

Perseverante, brilhante e otimista até o fim, há memoriais em homenagem ao doutor Noguchi em campus universitários em muitos países. Há ruas, parques, escolas e clínicas batizadas com o nome dele.

Seu tipo de otimismo é fortemente necessário neste momento em Fukushima.

A reportagem é de Nassrine Azimi, assessor do Instituto de Treinamento e Pesquisa em Hiroshima da Organização das Nações Unidas, e publicada pelo jornal International Herald Tribune e reproduzida pelo Portal Uol, 20-05-2012.

No final de semana do dia 5 de maio, o último dos 50 reatores nucleares em operação no Japão - o reator de número três de Tomari em Hokkaido - fechou para manutenção. Ao menos temporariamente, o Japão é uma nação livre de energia nuclear pela primeira vez em 42 anos. Mesmo que já estejam ocorrendo batalhas em torno da possível reabertura de outras usinas nucleares, este é um limite simbólico.

Alguns de nós de Hiroshima fomos visitar Fukushima e certas partes da região de Tohoku há duas semanas. Foi reconfortante ser lembrado que nem mesmo desastres sem precedentes podem inteiramente destruir a resolução desta nação. As pessoas estão voltando a caminhar com as próprias pernas, e a maior parte da região de Tohoku está lentamente voltando à vida. Apesar de todo o impasse político em Tóquio, os fundos de reconstrução estão sendo repassados e estão até criando uma espécie de bolha econômica local.

A burocracia também tem se mexido. A assistência de outras prefeituras e municípios do país foi pródiga e valiosa. O sistema de rotação do serviço público japonês tornou possível enviar equipes para assistir colegas em áreas atingidas pelo desastre. Só a cidade de Hiroshima despachou dezenas de especialistas por períodos de um ano - arquitetos, especialistas em sistemas hidráulicos, engenheiros civis, planejadores. Encontrei alguns deles na semana passada.

Comunidades danificadas em torno de Fukushima, Miyagi e Iwate, os três municípios costeiros mais atingidos pelo terremoto e pelo tsunami do dia 11 de março de 2011, estão desenhando novos planos de uso de terra, e as ideias abundam. Tudo - desde transformar as regiões atingidas em reservas naturais, parques industriais, fazendas de painéis solares ou trilhas de caminhada - está sendo pensado.

Acadêmicos, empresários, jornalistas, mães, jovens, arquitetos e voluntários estão finalmente ousando se envolver. Tudo isso é uma boa notícia para a sociedade civil geralmente tímida e desengajada do Japão.

O conserto da infraestrutura de transporte, linhas de transmissão, portos e aeroportos também avançou. A rede pública de televisão, NHK, fez sua parte, mantendo o público envolvido. Diferente de outros canais comerciais, a NHK teve a capacidade e os recursos para manter viva a história dos desastres - e com isso o sentido de solidariedade da nação. Muitos artistas continuam organizando eventos para a região e na região.

Ainda assim, e apesar desses e de muitos outros desdobramentos animadores, a situação em Fukushima, especialmente se comparada com o resto de Tohoku, continua sombria. A causa é evidente: Fukushima Daiichi, a usina nuclear.

Nem mesmo os japoneses tão positivos e propensos ao trabalho conseguem lidar com a agonizante incerteza em torno da situação nuclear. A pressão mental é constante, quebrando comunidades e casas. Nas últimas semanas, novas preocupações com o combustível exposto e o lixo atômico acumulado na piscina voltaram a lembrar os moradores de como são precárias as condições e que devem continuar assim por anos e talvez até décadas, como diz o próprio relatório do governo. Terremotos pequenos, mas frequentes, tampouco são animadores.

É claro que nem mesmo em Fukushima as pessoas estão resignadas. Em Iwaki City, a 50 km ao sul da usina, jovens mães contaram que estavam administrando, com a ajuda da prefeitura, um centro comunitário para medir diariamente a radiação no lanche escolar.

Mas, quando uma delas, mãe de cinco filhos, foi perguntada se eles também treinavam os meninos para estarem alertas a picos de radiação ambiental, sua fachada de bravura quase desmoronou. Ela disse que as crianças não deveriam ficar constantemente atormentadas com os perigos da radiação - que isso era responsabilidade dos adultos. Nenhum pai, disse ela tristemente, gosta de ver os filhos neuróticos com cada partícula de ar, solo, água ou alimento a sua volta.

Em nosso último dia em Fukushima, Akiko-san, jovem arquiteta de Hiroshima City, nos levou para orar na praia de Minamisoma. A cidade de 75 mil habitantes, duramente atingida pela tsunami, fica a apenas 25 km ao norte da usina prejudicada. Mais tarde, enquanto nos dirigíamos para as barreiras de segurança, fui lembrado, ao nos aproximarmos dos reatores, dos dragões feridos do Quarteto de Terramar de Ursula Le Guin - o menor movimento da terra e dos céus parecia terrivelmente ameaçador para eles.

Em Fukushima, tentamos ver a famosa Takizakura, a cerejeira que é um tesouro nacional de mil anos, que estava em plena floração na época. Muitos contaram como os moradores de unidades de habitação temporária estavam encontrando consolo nesta beleza milenar. É claro que o lugar estava tão lotado que desistimos.

Em vez disso, naquela noite visitamos uma cerejeira mais jovem, em um vale próximo, um gigante gentil de 400 anos. Ela ficava ao lado de um riacho e deixava cair pétalas cor de rosa no pequeno templo ao lado. O perfume da primavera estava em toda parte, e pude ouvir o coaxar das rãs.

Os moradores não pareciam saber porque havia tantas cerejeiras antigas em Fukushima, mas todos pareciam concordar que seu município era lindo. Eles ficavam repetindo, como um mantra, o mesmo refrão que ouvi em toda a viagem: enquanto nossas árvores, águas e ar e montanhas viverem, estaremos bem.

Precisamente.

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