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16 Abril 2012

Uma nova edição da Mística da feminilidade, de Betty Friedan: eis por que ela foi revolucionária em 1964.

A análise é de Natalia Aspesi, publicada no jornal La Repubblica, 13-04-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

De repente, caiu como chumbo também sobre as italianas esta ideia turva e inquietante de que a feminilidade exemplar e total, feita de submissão e inferioridade, virtude máxima e talvez única dos anos 1950, à qual as meninas de então, já inconscientemente nervosas, aspiravam, nada mais era do que uma grande trapaça, uma punição imerecida, uma invenção inatural, uma prisão odiosa, em que elas se consumiriam, se perderiam, se anulariam.

Certamente, era uma ideia malvada, mas, de algum modo, misteriosamente atraente, principalmente porque vinha dos EUA, o grande país distante que tinha vencido a guerra, por nós [italianos] perdida, e que rapidamente nos havia conquistado com ajudas materiais e sonhos, como as suas cozinhas (justamente americanas) e os enormes refrigeradores que também davam à nossa desequilibrada "donice-de-casa" uma expectativa de futura elegância.

No início dos anos 1960, as italianas menos espertas ainda estavam embebidas de admiração por aquelas vidas graciosas que eram contados entre nós nos entusiasmantes romances de Liala e que invadiam os filmes norte-americanos, em que senhoras nunca muito belas (tipo June Allyson), de férreo penteado, com as grandes luvas que combinavam com o piso, extraíam do forno enormes perus, o avental engomado sobre a saia rodada, e os pequeninhos! No máximo dois, impertinentes mas simpáticos: e depois Ele, que voltava com o chapéu na cabeça e a pasta de executivo nas mãos, e ela ia ao seu encontro, bem-aventurada, servindo-lhe um martini (com azeitonas). Curiosa novidade: os esposos eternamente felizes dormiam não em uma, mas sim em duas camas de solteiro, luxuosamente acolchoadas, cada uma a sua!

Com a fatal notícia de que todo esse paraíso exótico da dona de casa de luxo era, na realidade, um inferno (o que as inquietas já suspeitavam), as italianas ficaram muito mal, principalmente pensando em quanta hipocrisia natural havia sido empregada para simular aquela maldita feminilidade codificada sem pedir o seu parecer e sem a qual não se era nem mulher, nem humana. Quantas vezes não riam, descaradamente falsas ingênuas, quando os rapazes contavam piadas, ou não era ousado intervir em seus discursos para não se sentir como uma sabichona, ou deixavam os óculos em casa renunciando a ver porque, como diziam as providentes mamães formadas – mais do que nós – à constante mentira, senão, pensam que você lê, e isso não é feminino.

Isso aconteceu em 1964, quando as Edizioni di Comunità publicaram A mística da feminilidade (agora republicado pela Castelvecchi com o acréscimo de uma introdução da autora), lançado um ano antes nos EUA (o ano que Marilyn Monroe, símbolo cruel da belíssima mulher-brinquedo, havia morrido) com imenso clamor a glória imediata para a sua autora, Betty Friedan: portanto, era verdade, debater-se e angustiar-se com o único objetivo de se tornar uma senhora casada com quem quer que seja, contanto que homem possivelmente rico, e entrar no papel de perfeita dona de casa, era um projeto patibular: até mesmo lá, nos EUA, onde se dizia que as mulheres estavam muito emancipadas. Nós deveríamos saber disso, ou, melhor, já sabíamos, mas se havia tentado fingir que nada acontecera.

Mesmo que já tivesse acontecido um fim de mundo restrito e aristocrático em 1961, quando finalmente O segundo sexo havia sido traduzido para o italiano, o ensaio devastador de uma senhora, mítica na França, e por nós temida pela inverecunda vida erótica e pouco tolerada, apesar do seu eterno turbante, enquanto companheira do venerado filósofo Jean-Paul Sartre.

O ponderado e cultíssimo estudo, que se afundava no poço inexaurível e desconhecido da invenção da mulher e das suas ignoradas pulsões sexuais, havia sido publicado pela Gallimard em 1949, escandalizando homens intelectuais franceses e enfurecendo críticos homens mundiais, rejeitado por muitos livreiros, e posto, por fim, no Índice do Vaticano em 1956.

Arnoldo Mondadori havia adquirido seus direitos, que também o havia mandado traduzir, mas era uma bomba que deveria ser desarmada, e o modo mais simples foi deixá-lo lá, empoeirando-se, e esquecê-lo.

O filho Alberto não o esqueceu. Fundando a sua própria editora, Il Saggiatore, ele o publicou 12 anos depois (e foi republicado várias vezes; a última no centenário do nascimento da autora, com prefácio de Julia Kristeva e posfácio de Liliana Rampello).

Na língua original, ele já havia sido lido por aquelas italianas cultas, engajadas politicamente nos partidos (PCI, PSI, DC) e nas organizações femininas de massa, para as quais ainda era difícil pensar em um choque de gêneros quando se estava em plena luta de classes, fundidas com os ideais dos homens a tal ponto de não se sentirem secundárias e de não verem por si mesmas além de uma emancipação mesmo que fatigante.

A mística da feminilidade se acomodou entre nós [italianos] no ano do VII Congresso Nacional da UDI, a União das Mulheres Italianas que haviam começado a pôr com determinação "a questão feminina", e o ensaio norte-americano foi imediatamente acusado de ignorar as mulheres trabalhadoras, as proletárias, as negras: porque, de fato, exigia a libertação de uma única classe, a das mulher burguesas, aparentemente emancipadas, em uma sociedade rica ou ao menos abastada, ancorada no matrimônio, na casa, na maternidade, na dependência econômica, no predomínio sexual dos homens.

Essa limitação, essa separação entre mulheres, é o fulcro de A Resposta, um romance de Kathryn Stockett, que se tornou um filme de Tate Taylor, que também vieram até nós [italianos], que conta, nos EUA ainda segregacionista de 1963 (justamente o ano da publicação de The feminine mystique, mas também do assassinato de John Kennedy, do movimento pelos direitos civis, das marchas de Martin Luther King e dos linchamentos), sobre um grupo de jovens senhoras de Jackson, Mississipi, comprometidas a não fazer nada, cercadas por empregadas de cor, tratadas como escravas.

Na Europa, Betty Friedan se revelou menos desagradável, menos comprometida, menos perigosa, menos temida do que Beauvoir. Assim, o seu ensaio se espalhou até mesmo entre as mulheres distantes do compromisso político, mas mesmo assim infelizes e desgastadas por aquilo que parecia ser a meta mais ambicionada e que se revelava muito decepcionante. Não é por nada que os romances para senhoras e os contos nas revistas femininas desses anos acabavam com as núpcias, e o que acontecia depois era totalmente ignorado.

Quando a ensaísta norte-americana chegou a Milão para uma conferência muito aguardada, nós já éramos mais astutas: adorantes, certamente, mas muitas com um trabalho que permitia experimentar o mundo e nós mesmas, e abandonar por horas as casas à sua desordem. Apesar das deserções para a feminilidade codificada, nós nos sentíamos mulheres, senão precisamente pessoas, já que as leis ainda não tinham nos concedido a paridade nem mesmo na família.

Certamente, a conferência era sumamente entusiasmante, mas estava se arrastando, e, em um certo ponto, depois de algumas fugas silenciosas, a maior parte do público feminino se levantou como um só homem. Já estava tarde para fazer o jantar!

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