A teologia da liberdade. Por que a fé deve dialogar com o pensamento herético

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03 Abril 2012

O novo livro do teólogo italiano Vito Mancuso aborda a necessidade de confronto dentro da Igreja. O autor se engaja em um combate com o antagonista do cristianismo moderno, ou seja, Nietzsche.

A análise é do filósofo italiano Roberto Esposito, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 30-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Há algo no último livro de Vito Mancuso, editado pela Fazi com o título Obbedienza e libertà. Critica e rinnovamento della coscienza cristiana [Obediência e liberdade. Crítica e renovação da consciência cristã] – que vai também além da sua tese original e ousada. Trata-se de uma força emotiva, de uma energia viva, que envolve o leitor em um desafio ao qual é difícil escapar.

O que está em jogo é alto e decisivo para uma tradição, como a nossa, enraizada no diálogo crítico com o cristianismo. E isso também prescindindo do ponto de vista religioso – secular e até ateu – do interlocutor. Nenhuma dessas posições assume sentido, por outro lado, fora da relação, afirmativa ou negativa, com a questão de Deus. Mais precisamente, com a relação entre Cristo e a verdade. Mas para que ela se torne realmente a nossa questão – para que nela se jogue a vida e a morte de cada um de nós, crentes ou não – é preciso que ela seja formulada na sua modalidade mais radical, sob o risco de despedaçar a concha protetora em que todos nós, cristãos e seculares, protegemos as nossas certezas.

Esse é o objetivo que Mancuso há muito tempo atribuiu à sua pesquisa teológica, conjugando o mais intenso compromisso espiritual com a máxima liberdade teórica, segundo o exigente pedido de Tiago (2, 12), "falem e ajam como pessoas que vão ser julgadas pela lei da liberdade".

O elemento sobre o qual deve se concentrar a atenção, nessa teologia da liberdade, é justamente o nexo constitutivo entre palavra e ação. Um pensamento, não posto à prova da ação concreta, se curva sobre si mesmo e se apaga. Mas uma ação que perca a relação com o pensamento também está destinada a perder o seu próprio sentido. É precisamente isso o que acontece hoje na Igreja Católica, que, certamente presente na sociedade do ponto de vista das obras, parece cada vez mais incerta e hesitante no dos princípios.

Por quê? – se pergunta Mancuso. O que, que fardo pesado, parece manter a Igreja de Roma sempre aquém de si mesma, fechando-a à compreensão do mundo que a circunda e, assim, removê-lo da sua própria missão evangélica? A resposta do autor, tão áspera de tão clara, é que se trata do temor de se confrontar com aquela parte de si mesmo, do seu passado, mas também do seu presente, que a arrasta para baixo, levando-a a preferir a palavra dos seus perseguidores à de Cristo  a renegá-lo e a trancá-lo em uma cela como faz o Grande Inquisidor de Dostoiévski.

Além disso, a figura sinistra que aparece em Os Irmãos Karamazov não é uma invenção fantástica do escritor russo, se aquela concentração de superstição e de horror, instituída por Paulo III com o famigerado nome de Sacra Congregação da Romana e Universal Inquisição, somente em 1965, na conclusão do Concílio Vaticano II, pôde se tornar a atual Congregação para a Doutrina da Fé.

Pois bem, se o cristianismo não encontrar a coragem de se voltar sobre essa vergonhosa máquina de sangue, que mortificou, atormentou, triturou, literalmente mandando às cinzas, a inteligência ou a vida de um número impressionante de homens extraordinários, como Hus e Servet, Bruno e Galileu, se ele não der esse passo decisivo no seu próprio delírio passado do qual o próprio papado se tornou garantidor durante séculos, ele não será capaz de reencontrar aquela força necessária para se reformar profundamente.

Não é só uma questão de reparar erros, agora irreparáveis, com relação àqueles que foram declarados hereges, mas sim de pôr a heresia no centro da própria fé – como a linha de fogo com relação à qual só o cristianismo ainda pode experimentar a própria inspiração e profundidade. Só se incorporar essa exigência absoluta de verdade – "A verdade está à frente de todas as coisas, está com todas as coisas, está depois de todas as coisas", afirmava Giordano Bruno –, escolhida pelos hereges como sua última testemunha, a fé poderá se confrontar sem complexos com um mundo que parece colocá-la às margens, também por causa de sua falta de honestidade intelectual.

Mas para conquistar essa extrema liberdade interior na e também contra a doutrina oficial, para abater aquele dispositivo geral da obediência elevado por grande e pequenos inquisidores, é necessária uma reviravolta sem compromissos na própria concepção da verdade, da qual a Igreja se considera depositária até o ponto de ter desejado por muito tempo converter a ela, até com a força, aqueles que a negavam.

De um lado, ela deve ser pensada não contra, mas através da contradição que traz dentro de si, segundo a tradução que uma vez o cardeal Martini fez do lema Pro veritate adversa diligere – "ficar contente com a contradição"; de outro, ela deve ser remetida a um contato direto com vida, a partir do momento em que "o pensamento, quando é verdadeiro, é pensamento da vida, e nisso e por isso é pensamento de Deus" (Karl Barth). Não é a verdade que pode verificar a vida, mas sim a vida que verifica, de vez em quando, a verdade, que não deve ser pensada como um conjunto de doutrinas estáticas e bloqueadas em si mesmas, mas como um fazer-se dinâmico que responde às perguntas da contemporaneidade.

Aqui, Mancuso se envolve em um verdadeiro combate com o maior antagonista moderno do cristianismo, isto é, aquele Nietzsche que justamente reconduzia a realidade do pensamento à vida. Mas com a diferença decisiva de que, enquanto ele identificava no poder o próprio sentido da vida, Mancuso, em conformidade com a mensagem de Cristo, o coloca no bem. Nada como uma passagem de Simone Weil, verdadeira fonte de inspiração do autor, ilumina o seu sentido, quando ela escreve que, nesta terra, não há outra força do que a força, mas também que a força suprema deve se submeter a um limite ao qual a tradição deu o nome impessoal de justiça.

Sobre o caráter "impessoal" da justiça, pode se fazer uma reflexão, que assinala, senão um ponto cego, uma passagem falha, ou ao menos incompleta, do discurso de Mancuso. Trata-se do léxico personalista que ele – além disso, em boa companhia (veja-se a propósito o livro de Roberta De Monticelli La novità di ognuno. Persona e libertà [A novidade de cada um. Pessoa e liberdade], Ed. Garzanti) – adota em toda a sua obra, sem perceber que foi justamente através dele que, desde os primeiros séculos cristãos, foi elaborada aquela teologia política que, contudo, ele contesta.

Além disso, na sua pesquisa filosófica original sobre o significado da alma, recordando o intelecto ativo de que Aristóteles fala, Mancuso chega a tocar a mais herética teoria de Averróis – outra vítima da intransigência religiosa, nesse caso islâmica – de uma inteligência separada e impessoal. Só desse modo o bem pode ser entendido como pura relação que se refere a todos, em vez de prerrogativa de um único indivíduo.

No ponto talvez mais inspirado do seu livro, Mancuso escreve que a formulação "No princípio era o logos" pode ser entendida não somente como "No princípio era a ação" (Goethe), mas também como "No princípio era a relação" – o ser em comum ainda não dividido e discriminado entre os vários sujeitos pessoais.

Além disso, essa também era a tese daquele Siger de Brabant, citado pelo autor, porque foi trucidado pelas suas posições averroístas e posto, ao contrário, no Paraíso de Dante. Por outro lado, por que Bruno foi condenado, senão por ter negado o conceito de pessoa, tanto no homem quanto em Deus, em favor do princípio impessoal da vida infinita? Não há melhor forma de se despedir de um livro, alto e forte como o de Mancuso, do que citando a sua autora preferida: "O que é sagrado, bem longe de ser a pessoa, é o que, em um ser humano, é impessoal (...) Cada um daqueles que penetraram na esfera do impessoal encontram nela uma responsabilidade para com todos os seres humanos. A de proteger neles, não a pessoa, mas sim tudo o que a pessoa encerra de frágeis possibilidades de passagem ao impessoal" (Simone Weil, La persona e il sacro).

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