A Igreja, Martini e os gays

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27 Março 2012

Em menos de nem um mês, três golpes de martelo caíram sobre a pretensão da Igreja de bloquear na Itália uma lei sobre os casais de fato. O primeiro foi o clamoroso funeral de Lucio Dalla em Bolonha: celebrado na catedral com todas as aprovações, permitindo que o companheiro homossexual do falecido homossexual o celebrasse falecidos a poucos passos do altar.

A reportagem é de Marco Politi, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 24-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Depois, no dia 15 de março, veio a sentença da Corte de Cassação, que, embora rejeitando a transcrição na Itália de um casamento homossexual celebrado no exterior, sancionou para o casal gay, na presença de situações específicas, o direito a um "tratamento homogêneo ao assegurado pela lei aos casais conjugados".

Agora se ouve diretamente de dentro da Igreja o cardeal Martini, afirmando que não tem sentido demonizar os casais homossexuais e impedi-los de fazer um pacto. Com a pacatez que o diferencia, o ex-arcebispo de Milão desafia, portanto, aquela "doutrina Ratzinger" que consistiria na obrigação dos políticos católicos se se uniformizarem aos "princípios inegociáveis" proclamados pela cátedra vaticano, impedindo a aprovação de uma lei sobre as uniões civis e menos ainda sobre as uniões gays.

Há muitos anos, Carlo Maria Martini exerce a sua notável liberdade de julgamento, exortando com humildade a Igreja a não trocar o núcleo da fé pela fossilização de posições insustentáveis para o sentimento contemporâneo. Isso também vale para a posição a ser adotada com respeito às relações homossexuais, em que a instituição eclesiástica está paralisada há anos no meio do caminho. Porque, quando era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Joseph Ratzinger tinha emitido documentos para exortar o respeito pelas pessoas homossexuais e para repudiar todos os tipos de discriminação, ridicularização e perseguição.

Mas, ao mesmo tempo, havia reiterado que a prática homossexual representa uma grave ofensa contra a ordem moral: daí a condenação sem apelo das relações homem-homem ou mulher-mulher. Com a consequência de sabotar, na Itália, as tentativas do último governo Prodi de aprovar uma lei sobre os casais de fato.

No livro Credere e conoscere [Crer e conhecer] (Ed. Einaudi), no qual ele dialoga com o cirurgião católico Ignazio Marino, expoente do Partido Democrático [italiano], o cardeal Martini afirma, ao invés, que há casos em que "a boa fé, as experiências vividas, os hábitos adquiridos, o inconsciente e, provavelmente, também uma certa inclinação natural podem levar a escolher para si um tipo de vida com um parceiro do mesmo sexo".

No mundo atual, defende o purpurado, esse comportamento não pode ser "nem demonizado nem ostracizado". E, por isso, Martini se declara "pronto para admitir o valor de uma amizade duradoura e fiel entre duas pessoas do mesmo sexo".

O ex-arcebispo de Milão, além disso, salienta o significado profundo do fato de que Deus criou o homem e a mulher e, portanto, o valor primário do matrimônio heterossexual e também acrescenta que não considera como um "modelo" a união de casais do mesmo sexo. No entanto, atento às necessidades das pessoas em sua humanidade, o cardeal afirma que, se os dois parceiros do mesmo sexo "aspiram a firmar um pacto para dar uma certa estabilidade ao seu casal, por que queremos absolutamente que assim não seja"?. As motivações do matrimônio tradicional, explica, são tão fortes que não precisam ser sustentadas por meios extraordinários.

Além disso, muitos na Igreja, bispos e párocos, pensam como ele. Mesmo que não falem. Em 2008, a revista dos jesuítas milaneses Aggiornamenti Sociali publicou um estudo para dizer que – permanecendo firme a doutrina –, do ponto de vista do bem social era positivo dar a possibilidade aos casais gays de ter uma relação estável regulamentada pelo direito. E, portanto, era justo legislar sobre o assunto.

A cúpula eclesiástica, sobre a questão, fecha olhos e ouvidos. No entanto, é um sinal o fato de que, na televisão, falando no programa Otto e Mezzo, o líder católico Pier Ferdinando Casini tenha se dito publicamente de acordo com a sentença da Cassação, reafirmando que "os casais homossexuais têm direito à sua afetividade e de serem protegidos nos seus direitos". Casini deu um exemplo concreto: "Se eu convivo há 30 anos com uma pessoa, em termos de eixo hereditário, é preciso ser sensível a essa pessoa que conviveu comigo". Esse é um dos motivos pelos quais uma lei é necessária. E é bom que, no parlamento [italiano], tenham voltado a falar de algumas propostas de lei até agora congeladas.

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