Para cientista erosão do solo ameaça a Amazônia

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27 Março 2012

O professor Luiz Carlos Baldicero Molion, um nome respeitado no mundo científico, dentro e fora do Brasil, é também conhecido por suas opiniões fortes e pelas polêmicas a que elas já deram origem. Uma das mais rumorosas polêmicas em que ele se vê envolvido diz respeito à questão do aquecimento global, teoria que levou a própria ONU a criar, em 1988, o Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas (IPCC). Indiferente ao coro da maioria, Luiz Carlos Molion prevê exatamente o contrário. Ao invés de aquecimento, diz ele, a Terra vai passar por um período de resfriamento ao longo dos próximos vinte a vinte e cinco anos.

Luiz Carlos Molion
reforçou esta semana, em Belém, a fama de polemista que o acompanha ao participar, como conferencista, do simpósio que assinalou o transcurso do Dia Meteorológico Mundial. Promovido pelo Instituto Nacional de Meteorologia, com apoio de diversos organismos públicos federais e estaduais, além de entidades privadas, o evento foi realizado quinta e sexta-feira no auditório da Sudam. O tema do seminário, baseado em decisão do Conselho Executivo da Organização Meteorológica Mundial, foi “O tempo, o clima e a água: motores de nosso futuro”.

A reportagem e a entrevista foram publicadas pelo Diário do Pará, 26-03-2012.

Em sua palestra, proferida na sexta-feira, Luiz Carlos Molion discorreu sobre as perspectivas climáticas para os próximos 20 anos.

Graduado em física pela Universidade de São Paulo, PhD em meteorologia e pós-doutorado em hidrologia de florestas, Luiz Carlos Molion é pesquisador sênior aposentado do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, do Ministério da Ciência e Tecnologia. Atualmente é professor associado do Instituto de Ciências Atmosféricas da Universidade Federal de Alagoas, professor visitante da Western Michigan University, professor de pós graduação da Universidade de Évora, Portugal, e membro do Grupo Gestor da Comissão de Climatologia da Organização Meteorológica Mundial.

Em sua palestra e depois na entrevista, Luiz Carlos Molion bateu forte como sempre no que considera falsas verdades científicas, exercitando com gosto a arte da polêmica, em que tem se revelado um mestre. Sobre a teoria do aquecimento global e das mudanças climáticas, por exemplo, disse que ela foi concebida no início da década de 1970, pelos países ricos, como resposta estratégica ao primeiro choque do petróleo. A alta abrupta dos preços e a perspectiva do esgotamento das reservas mundiais – dizia-se, na época, que o mundo ficaria sem petróleo até o ano 2000 – levaram aqueles países a criar mecanismos que inibissem o consumo nas nações mais pobres.

Hoje em dia, segundo Luiz Carlos Molion, o discurso do aquecimento global continua cumprindo essa função estratégica, mas já agora combinada a outra tarefa não menos importante, esta restrita ao domínio da política e da economia. Trata-se, segundo ele, de criar dificuldades para as nações mais pobres, que ainda buscam o seu próprio desenvolvimento. É o caso do Brasil, onde, segundo ele, grandes organizações não governamentais, a serviço de poderosos interesses financeiros fincados no exterior, teriam uma atuação intensa, sobretudo na Amazônia. Uma região onde o desmatamento, conforme frisou, não chega a representar por si só a maior ameaça. O que verdadeiramente ameaça a Amazônia, segundo ele, é a erosão dos solos.

Eis a entrevista.

O desmatamento pode levar à desertificação da Amazônia, conforme advertências feitas por alguns pesquisadores?

Não, esse risco não existe. Não há nenhum dado científico que sustente a hipótese de desertificação da Amazônia. Na verdade, o grande impacto ambiental do desmatamento é a exposição do solo às chuvas. Nós fizemos experiências, cerca de 25 anos atrás; medimos quanta água ficava retida na copa da floresta, que era ordem de 10%. Se eu retirar a floresta, vai aumentar em 10% o volume de água, em torno de 300 mm de chuva. Quando a chuva cai, o impacto da água desagrega o solo e a enxurrada leva partículas de solo para os rios. Nos experimentos que nós fizemos, ficou evidenciado que a quantidade de solo perdida chega a ser o equivalente a uma camada de dois centímetros, dois centímetros e meio, por ano. Isso corresponde a aproximadamente 300 toneladas de solo por hectare por ano. São 300 mil quilos de solo por hectare, que anualmente a enxurrada leva para os rios.

Num cenário de longo prazo, quais são as consequências do processo erosivo para os solos e águas da região amazônica?

Toda essa massa de solo, uma vez carreada para os rios e igarapés, muda a qualidade da água, com todas as consequências advindas dessa mudança, inclusive para a própria vida aquática. Então, se o homem desenvolver a Amazônia cuidando com técnicas de proteção do solo, eu diria que nós não teremos grandes problemas ambientais. Pode haver localmente pequeno aumento de temperatura. Como, por exemplo, numa cidade como Belém. Isso é óbvio, porque à medida que a urbanização vai se instalando e a cidade vai ficando maior, há uma tendência de a temperatura ficar mais elevada, na comparação com as áreas circundantes que ainda preservam sua vegetação. Mas isso é um efeito local, porque basicamente é a evaporação da água da chuva que controla a temperatura. Se a superfície está impermeabilizada por asfalto e concreto, a chuva cai, escorre e vai embora. E o resultado é que todo o calor do solo contribui para aumentar a temperatura. Esse é um efeito chamado ilha de calor urbano, que Belém também sente. Mas afora isso, o grande problema é mesmo a erosão provocada pela chuva.

A que o senhor atribui a pressão da opinião pública internacional sobre a Amazônia? Pode haver algum outro interesse, além da causa ambientalista?

O que nós temos é a combinação de interesses ambientais, políticos e econômicos. Há interesses internacionais que são puramente econômicos, de um lado, para impedir o nosso desenvolvimento, o desenvolvimento do Brasil. Por outro lado, há pessoas que realmente entram na luta com o que podemos chamar de interesse puro, sem outras intenções que não as de preservar o melhor possível a região e os seus recursos naturais, as suas fontes de vida. O fato é que existem grupos, em geral os grupos grandes, de organizações não governamentais, tipo WWF, e outros, que são mantidos pelo interesse econômico. E há grupos menores que realmente tem boas intenções no sentido de conservar a floresta e a sua biodiversidade.

Que futuro o senhor vislumbra para a Amazônia, nas próximas décadas?

Considerando que a população do mundo já passou de sete bilhões de pessoas, regiões que não têm limitações de água, como é o caso da Amazônia, vão ser chamadas a fim de contribuir para a produção de alimentos e outros bens de consumo, produtos básicos, como madeira, por exemplo. A alimentação, assim como o acesso à água, é um dos maiores desafios que se impõem para o futuro da humanidade. Então, não dá para fugir disso, para imaginar que a Amazônia não deva ser utilizada para produzir alimentos. São muito poucas as regiões do mundo que têm chuvas abundantes, como é o caso da Amazônia.

De que forma a floresta amazônica contribui para melhorar as condições do clima em escala planetária?

A Amazônia, em si, é uma região muito pequena, se você pegar o globo terrestre como um todo, e existem controvérsias quanto à teoria de que eventualmente ela possa ser ou não importante para o clima global, e em que escala isso aconteceria. Então não existe um fato estabelecido. Por exemplo: se haveria ou não um impacto no clima global caso se venha a ter a região totalmente desmatada. Como eu já falei, o impacto local é inquestionável, já que o desmatamento leva a um impacto que é principalmente a erosão dos solos. Mas sob o ponto de vista global, não existe ainda um consenso sobre a importância da floresta amazônica para o clima global. O que sabemos é que a floresta sequestra carbono. Ela retira carbono da atmosfera, da ordem de um bilhão de toneladas de carbono por ano. E também sabemos que ela é uma fonte de calor muito importante para manter o clima global atual. Agora, não temos ainda condições, do ponto de vista técnico, para antever uma grande transformação. Por exemplo, não se pode afirmar com precisão se o desmatamento total alteraria o clima global ou não.

O senhor tem sido um crítico da teoria do aquecimento global, contrariando uma corrente científica sabidamente majoritária. Afinal, o aquecimento não é um fato?

Fato não é. Na minha opinião, o homem não tem condições de mudar o clima global. O clima global é controlado principalmente pela atividade solar e pelo conteúdo de calor que está armazenado nos oceanos. São esses os dois controladores mais importantes do clima global. O Sol vai entrar num mínimo de atividade, nos próximos vinte anos, e os oceanos já estão perdendo calor, conforme indicam medições de temperaturas que vimos fazendo por sistemas de boias ao longo dos últimos oito anos. Atualmente, nós temos cerca de 3.500 boias espalhadas pelos oceanos, em todo o mundo. São equipamentos com capacidade para mergulhar até dos mil metros de profundidade e que se deslocam com as correntes. Elas vão registrando dados de temperatura e salinidade, entre outras informações. Quando voltam à superfície esses dados são captados por sensores de satélite e transmitidos para os centros de estudos meteorológicos de todo o planeta. E essas boias estão indicando que os oceanos vêm perdendo calor. Então, com o Sol entrando num mínimo de atividade e os oceanos se esfriando, a tendência para os próximos vinte anos é o resfriamento global, e não o seu aquecimento, como tem sido propalado.

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