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26 Março 2012

Assis é o local de nascimento da Europa moderna. E São Francisco, aquele que começou a árdua viagem que leva ao divino partindo do humano. Uma viagem atormentada e de caminhos interrompidos, que acompanhou a história do indivíduo do humanismo ao niilismo contemporâneo. Por essas razões, o filósofo Massimo Cacciari – que jamais abandonou a interrogação sobre os fundamentos – identifica em São Francisco, e nas primeiras interpretações sobre ele, a origem do desenrolar de narrativas sobre a consciência e o destino europeu.

A reportagem é de Pierluigi Panza, publicada no jornal Corriere della Sera, 22-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No seu novo livro, Doppio ritratto. San Francesco in Dante e Giotto [Duplo retrato. São Francisco em Dante e Giotto] (Ed. Adelphi, 86 páginas), Cacciari se move à definição do "seu" São Francisco à luz de um conhecimento bibliográfico rigoroso, que passa dos estudos de Paul Sabatier aos de Henry Thode. E se move para mostrar um Francisco mais complexo do que algumas interpretações pós-modernas, que fizeram dele ora um profeta socialista, ora um revolucionário Nova Era. Para atingir o seu objetivo, Cacciari atravessa as estradas traçadas pelos dois "maiores artesãos do vulgar europeu", isto é, Giotto e Dante, sobre a figura do pobrezinho de Assis. E relata o conflito de interpretação da revolução franciscana desencadeado pelos dois.

Giotto e Dante são ambos católicos, nascidos cerca de 40 anos depois da morte do Santo (1226). E o fato de se ocuparem de Francisco já é um testemunho de como a figura do santo era percebida como coesa pela Igreja. Mas os dois artesãos não conseguem dar razão totalmente ao "crucificado de Assis", porque a sua força é muito vasta: ambos o traduzem e o traem.

Giotto representa Francisco nos afrescos da Basílica Superior de Assis, referindo-se à Legenda Maior de Boaventura de Bagnoregio, e, em Florença, na Capela Bardi de Santa Cruz. Dante o coloca nos Céu dos espíritos sábios (Paraíso, Canto XI) e confia a ele o elogio a São Tomás de Aquino.

"A visão giottesca parece ser mais ingênua e nova; na realidade, é uma operação política precisa", destaca Cacciari. No ciclo de afrescos da Basílica Superior de Assis, de fato, falta o encontro de Francisco com os leprosos, o dom dos estigmas, e a cena do manto doado ao pobre é adoçada, parece uma troca entre cavaleiros. O episódio da morte também não mostra Francisco nu sobre a terra nua da Porciúncula. "Em síntese, uma representação homogênea com as exigências do primeiro papa franciscano (Nicolau IV): Francisco está em perfeita harmonia com a Igreja e se inclina a ela".

Em Dante, a perspectiva é diferente. Francisco é o alter Christus, que recebe os estigmas no Monte Alverne. Não se prostra, mas submete realmente ao papa a sua Regra. Não faz milagres, mas é o serafim de uma religião quase solar ("não diga Assis, que pouco e mal diria / Mas diga Oriente, por melhor falar"). Em Dante, Francisco está em guerra com as forças que transformaram o sólio de Pedro em uma Babilônia e morre pobre e nu como um "profeta" de uma nova ordem. Na Comédia, ele é tratado ao lado de São Domingos, porque Dante busca no cristianismo uma concórdia de opostos e aprecia tanto a força regeneradora da pobreza, quanto a da sabedoria dominicana.

Mas a preferência do poeta é por Francisco e pela sua loucura profética, embora nem Dante nem Giotto parecem compreender até as extremas consequências a força da revolução da pobreza: "Pobreza é a violência de quem quer o Reino. Somente o pobre é verdadeiramente poderoso", escreve Cacciari. Francisco vive um "esvaziamento de si mesmo" semelhante ao desejado por Deus para criar o universo.

Doppio ritratto é um livro erudito e intenso, em que Cacciari também faz encontrar as interpretações de Francisco com os filósofos a ele caros, como Nietzsche. E descobre Francisco sob os despojos do mendigo "de cujos olhos falava a bondade em pessoa", encontrado por Zaratustra, com o qual ele compartilha a náusea perante a avidez, a luxúria e o orgulho.

E redescobrir até no Anticristo Zaratustra o rosto de Francisco significa que a mensagem do pobrezinho de Assis ainda age hoje no plano duplo delineado por Giotto e Dante.

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