A Revolução cubana é uma obra evangélica, afirma frei Betto, em encontro com Fidel Castro

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Por: Jonas | 16 Fevereiro 2012

“Muitas vezes nossos movimentos falam pelo povo, querem ser vanguardas do povo, escrevem para o povo, mas não se comprometem com o povo”, disse Frei Betto, em Havana, na presença de Fidel Castro.

O discurso é de Frei Betto, publicado no sítio cubano Cubadebate, 11-02-2012. A tradução é do Cepat.

Comandante, com profunda tristeza para os inimigos deste país – e enorme alegria para nós, os amigos deste país – constata-se seu excelente estado de saúde e brilhante lucidez. Você disse que Chávez se preocupa com cada detalhe e eu gosto do sistema cubano de divisão social do trabalho: o povo cuida da sua produção econômica, Raúl da política e Fidel da ideologia, como todos (apreciamos) nesta tarde que passamos aqui. Talvez dois temas ainda não foram tratados aqui ou não foram tocados. Vou começar pelo primeiro, que foi mencionado brevemente por Pérez Esquivel: Quando me perguntam como consegui conhecer bem a Revolução cubana, eu digo: Não basta conhecer a História de Cuba, não basta conhecer o Marxismo, é necessário conhecer a vida e a obra de José Martí. Para entender Fidel como fez Katiuska (Blanco) é necessário conhecer a pedagogia dos jesuítas.

Muitos aqui, como Santiago Alba, o companheiro de Túnez, experimentou o que significa uma prova oral na escola dos jesuítas. É difícil. Daí vem Fidel. Eu não sou jesuíta, não estou fazendo nenhuma propaganda. Sou dominicano, mas como sou amigo de Fidel, nós colocamos em acordo dominicanos e jesuítas. Na tradição jesuíta existe um costume que se chama exame de consciência, que se faz neste país, com outros nomes.

Houve um tempo - venho aqui há mais de 30 anos -, que se falava de Emulação, depois de Retificação, agora de Lineamento. Se Stalin estivesse vigente, as pessoas aqui de Cuba seriam chamadas de reformistas. Porém, muitas pessoas não se dão conta que aqui não se faz mudanças no estilo de Lampedusa - mudar para deixar que fique tudo como está -, as mudanças são feitas para melhorar esta obra social da Revolução, que é uma obra, do meu ponto de vista, não somente política ou ideológica, é uma obra Evangélica.

O que significa evangelismo de Jesus? Significa dar comida a quem tem fome, saúde a quem está enfermo, amparo a quem está desamparado, ocupação a quem está desempregado. Isso está na letra do Evangelho. Por isso, digo que esta é uma obra transcendente.

Nós, muitas vezes, nos movimentos progressistas, nós estamos fazendo o que faz a Revolução cubana, nosso exame de consciência ou nossa autocrítica. Por que não existem movimentos progressistas no mundo, com exceção da América Latina? Diante da crise financeira na Europa, que proposta temos? Fala-se da ocupação de Wall Street, que é um movimento de indignação, mas muita gente não se dá conta de que Wall Street significa a rua do muro, e enquanto este muro não vir abaixo, nossa indignação não irá resultar em nada. Será bom para nós, não para o povo.

Duas coisas são fundamentais, e essas duas coisas foram praticadas na história da Revolução cubana. Primeiro: ter um projeto e não somente a indignação. Ter uma proposta, metas. E, segundo, raízes populares, contato com o povo. Gramsci dizia: O povo tem as vivências, mas muitas vezes não compreende sua situação. Nós, intelectuais, compreendemos a realidade, porém não a vivenciamos.

Aqui, falou-se muito de internet, e creio que há ali uma trincheira de luta muito importante, mas eu tenho 13.000 seguidores no twitter, e confesso que me sinto muito mais feliz trabalhando com 13 camponeses, 13 desempregados, 13 trabalhadores. Muitas vezes nossos movimentos falam pelo povo, querem ser vanguardas do povo, escrevem para o povo, mas não se comprometem com o povo. Deveríamos fazer certa higienização política. O povo não tem bom odor para nós os intelectuais, os artistas, os inteligentes, os cultos. Se o povo não vem até nós, não vamos a parte nenhuma.

Cuba é o único país da América Latina que teve uma revolução exitosa. Recentemente, houve outras revoluções na Nicarágua, e demais, porém a mais exitosa é esta. Porque não é uma revolução como a que houve na Europa, que era um socialismo peruca, que vinha de cima para baixo. Aqui não, aqui é o cabelo, de baixo para cima - eu estava seguindo um pouco a equação do cabelo, porque Zuleica (Romay, presidenta do Instituto Cubano do Livro) tem um cabelo curto, Abel um cabelo longo e Fidel tem equilíbrio -. E a virtude está no meio.

A hora se adianta e eu sei que o Comandante ainda tem três delegações esta noite, fazer oito chamadas internacionais, ler três livros e mais ou menos 200 telegramas, porque a receita desta capacidade de trabalho é um segredo de Estado de Cuba. Não esperem saber, porque nunca vamos saber.

Chamo a atenção sobre isto: devemos fazer uma autocrítica, perguntar-nos como está nossa inserção social para a mobilização política e que projeto de sociedade estamos elaborando junto com este povo, junto com os indignados, camponeses, desempregados.

O segundo assunto do que não se falou:

Pela convocação do presidente Lula da Silva e agora pela acolhida da presidenta Dilma, de 20 a 22 de junho, deste ano, vão se reunir no Rio de Janeiro a (reunião) Rio +20, lugar em que esteve o Comandante, em 1992, e fez seu mais breve discurso, sete minutos, uma surpresa internacional porque todos pensavam que ele ia falar bastante, mas disse uma frase que ficou consagrada: É preciso salvar a principal espécie em extinção, o ser humano.

O que nós temos que fazer de agora para frente? Convencer nossos governos a estarem presentes no Rio de Janeiro. Não podemos permitir que todos esse chefes de Estado virem as costas para a questão ambiental, porque não se trata de salvar o meio ambiente, trata-se de salvar todo o ambiente. O grupo do G-8 não tem nenhum interesse nisso. Obama foi a Copenhagen porque recebeu equivocadamente o prêmio Nobel da Paz - para a vergonha de Esquivel – e tinha que passar por Copenhagen para chegar a Oslo, tinha que fazer uma escala técnica. Foi à conferência para fazer uma demagogia, mas não está comprometido com isso.

Então, nós temos duas tarefas: mobilizar os Chefes de Estado de nossos países e convencê-los a estarem presentes no Rio de Janeiro, porque estar presente ali é apoiar um projeto de preservação ambiental efetivo, de salvação da humanidade, de salvação deste planeta que perdeu 30% de sua capacidade de se regenerar. Ou há uma intervenção humana ou será o apocalipse.

Lá vai se realizar a Cúpula dos Povos e a presidenta Dilma nós disse em Porto Alegre, no Fórum Social temático, que esta reunião é mais importante que a reunião dos Chefes de Estado. Então, nossos movimentos têm que se fazerem presentes para que esta cúpula possa ressoar muito alto no mundo todo e cada vez conscientizar mais pessoas neste projeto ambiental, que por sua urgência tem também uma dimensão política muito curiosa. O tema da ecologia, de todos os temas curiosos, é o único que não faz distinção de classes. A ecologia é como os aviões comerciais, que tem duas classes, executiva e econômica, mas, quando vem abaixo, todos morrem da mesma forma. Não há privilégios.

E finalizo, Comandante, agradecendo por sua paciência, seu diálogo com todo esse grupo e pela sua capacidade de escutar. Agradeço também a Abel, Zuleica, a todos os companheiros e companheiras de Cuba, ao povo que nos escuta, que se interessa pelo nosso debate, por nossa conversa. Peço que Deus abençoe este país e que cuide da vida de Fidel e de sua saúde.

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