O medo dos cristãos: ''Melhor o regime de Assad do que as vinganças islâmicas''

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27 Janeiro 2012

Alimentos orgânicos, meditação cenobítica no deserto entre os muros de um mosteiro de quase um milênio e diálogo radical com o Islã, a qualquer custo, contra o pesadelo crescente do fundamentalismo. A exceção que confirma a regra dos cristãos sírios inclinados em tudo e por tudo com o regime se encarna na figura do padre Paolo Dall'Oglio, que, no ano passado, foi posto no Index pelos líderes das Igrejas locais por causa de suas críticas à repressão violenta das manifestações por parte da polícia de Assad.

A reportagem é de Lorenzo Cremonesi, publicada no jornal Corriere della Sera, 26-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Para encontrá-los, subimos até o seu centro de ermitagem, incrustado entre os desfiladeiros rochosos de Mar Musa. "É o primeiro episódio de violência odiosa contra um religioso. Deve servir de alerta à comunidade internacional", observa, amargurado, esse jesuíta nascido em Roma em 1954 e que está na Síria há mais de três décadas, referindo-se ao assassinato do pope cristão-ortodoxo nesta quarta-feira, 25 de janeiro, no subúrbio de Hama.

A minoria cristã nesse país está dominada pelo medo. Estão prontos para fechar os olhos diante do horror das brutalidades cometidas pelos militares, a fim de não perder sua posição privilegiada no sistema de poder alauíta e xiita. Eles sabem muito bem que a democracia significa vitória do Islã sunita. E a temem como peste. Ao contrário, preferem a modernidade, embora não democrática, mas que garante que suas mulheres não terão que usar o véu, defende o inteligente e provocador padre Paolo.

Desde o outono [europeu], ele aceitou ficar mais ou menos isolado no seu mosteiro, a quase 100 quilômetros de Damasco, que ele mesmo quis colocar novamente em funcionamento nos anos 1980 a partir das ruínas abandonadas há quase dois séculos. "Foi a condição para permitirem que eu ficasse no país depois de já ter sido publicado o meu decreto de expulsão. A Igreja local, em grande parte, não me queria. No passado, não tinham apreciado as minhas denúncias contra os casos generalizados de homossexualidade e de pedofilia entre alguns prelados importantes. E as minhas críticas ao regime se tornaram uma arma excelente para tentar se livrar de mim. Depois, a reação dos meus amigos no país e no exterior me salvou. O regime concedeu a graça: eu fico em troca da discrição. Mas é complicado me fazer calar totalmente".

Porém, ouvindo as críticas contra o padre Paolo entre os expoentes do clero local não é difícil compreender o sentido profundo da histórica aliança entre regime e cristãos na Síria. "Há rumores de que ele seja um espião norte-americano. Eles descobriram visores noturnos de raios infravermelhos entre as suas coisas", confidencia Gabriele Daoud, prelado da Igreja siro-ortodoxa na Basílica de São Jorge, o episcopado no coração da cidade velha de Damasco. Palavras só podem causar graça a quem recém conheceu o jesuíta italiano.

Se continua existindo um traço forte do seu passado como membro da extrema esquerda italiana é justamento o enraizado antiamericanismo. "O Pe. Paolo é um utopista. Ele não entende que os contestadores do presidente Bashar são financiados pela Arábia Saudita. Eles pedem reformas? Mas já foram superadas pelas promessas do nosso governo que garantirá uma nova Constituição e eleições livres em junho. As suas demandas já foram respondidas", acrescenta o sacerdote Chihade Abboud, porta-voz do patriarcado melquita.

Desde o fim do Império Otomano, os cristãos residentes no moderno Estado sírio buscam a proteção do poder central. "Depois do eclipse do mandato francês em meados dos anos 1940, eles encontraram um entendimento com o poder sunita. Mas a sua posição de privilégio cresceu depois do golpe de Estado alauíta nos anos 1970. Desde então, o país é governado por uma aliança de ferro entre as minorias. Cristãos, xiitas alauítas, drusos e até curdos sabem muito bem que os seus privilégios se fundamentam na supressão dos privilégios da maioria sunita", observa Mouner Darwish, sírio ortodoxo e autor de um livro sobre a emigração cristã da Síria.

Minorias em crise: uma condição que se tornou a regra entre os cristãos cada vez mais ameaçados no Oriente Médio. "Basta observar o fracasso violento das revoluções violentas no Egito, na Líbia e no Iêmen para entender os nossos medos. Se somarmos a isso o crescimento generalizado da Irmandade Muçulmana, a partir da Tunísia, onde hoje as eleições são vencidas pelos islâmicos, não é difícil entender os motivos da hostilidade cristã contra as revoltas na Síria", defende o proprietário armênio da Avicenna, conhecida livraria da capital.

Há apenas 20 anos, as 11 denominações cristãs locais reuniam 13% da população. Mas hoje caíram para 8%, com uma taxa de natalidade estável de 1,5%, quase a metade da taxa dos muçulmanos. Darwish comenta: "Somos uma comunidade na defensiva. Pensamos que o Ocidente já nos abandonou nas mãos da Irmandade Muçulmana. O nosso último bastião continua sendo, para muitos, o presidente Assad. Uma atitude compreensível, talvez. Mas perdedora".

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