Síria, o último apelo. Entrevista com Paolo Dall'Oglio

Revista ihu on-line

Do ethos ao business em tempos de “Future-se”

Edição: 539

Leia mais

Grande Sertão: Veredas. Travessias

Edição: 538

Leia mais

A fagocitose do capital e as possibilidades de uma economia que faz viver e não mata

Edição: 537

Leia mais

Mais Lidos

  • ''Há um plano para forçar Bergoglio a renunciar", denuncia Arturo Sosa

    LER MAIS
  • EUA: um complô para fazer com que o papa renuncie

    LER MAIS
  • “Construímos cidades para que as pessoas invistam, não para que vivam”. Entrevista com David Harvey

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

27 Janeiro 2012

Do mosteiro de São Moisés, o Abissínio (deirmarmusa.org), a 100 km ao norte de Damasco, um olhar abrangente sobre a situação síria com o padre jesuíta Paolo Dall'Oglio.

A reportagem é de Marialaura Conte e Martino Diez, publicada no sítio da Fundação Oasis, 24-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Das fronteiras da Síria, surgem notícias fragmentárias e confusas. Como o senhor descreveria a atual situação do país onde vive há 30 anos? Em que ponto está o confronto?

Em primeiro lugar, gostaria de dizer que, ao aceitar dar uma entrevista, assumo qualquer responsabilidade com relação ao compromisso de não agir politicamente para evitar a minha expulsão. A renúncia a esse silêncio se deve à gravidade da situação que obriga a fazer todo o possível pela pacificação, na justiça, do país. Todo cálculo de oportunidade pessoal estaria fora de lugar.

Além disso, nas últimas semanas, o Estado optou por deixar um maior espaço à liberdade de informação, e, portanto, considero esta minha contribuição como uma resposta positiva à abertura do governo. Espero que este gesto seja entendido na sua intenção patriótica e solidária e, como tal, apreciado no quadro do crescimento do país, através de uma maior liberdade de opinião.

A situação continua tensa e cheia de violência. O território parece estar dividido irregularmente entre regiões onde predomina o movimento de oposição, tanto pacífico quanto mais ou menos violento, e aquelas em que o Estado mantém o controle e é até apoiado claramente pelas populações. Há duas grandes ilhas, Damasco e Aleppo, que continuam firmemente nas mãos do governo, mas a sua extensão vai se reduzindo dia após dia, e a insegurança também lhes toca profundamente.

A região montanhosa entre o mar e o rio Orontes, que vai da Beqaa libanesa até Antioquia, está quase inteiramente sob o controle do governo. De fato, tal região é habitada principalmente por minorias (relativamente ao conjunto do país) muçulmanas, alauítas e ismaelitas, e cristãs, bizantinas, tanto ortodoxas quanto católicas, e maronitas. Os sunitas, maioria no país, são uma minoria nessa região. Foram estes últimos que se sublevaram, provavelmente esperando uma rápida insurreição geral. Aqui, a repressão teve um sucesso substancial. Consequentemente, a eventualidade, prevista por muitos, de uma divisão do país é realmente concreta nessa região. Isso desenharia uma Síria costeira na órbita iraniana, junto com o sul do Líbano, do Hezbollah, que se contraporia a uma Síria interna sunita ligada ao Iraque central, a leste, e ao Beirute de Hariri, a oeste.

Esse desastroso panorama ainda não corresponde à realidade global do país. O equilíbrio de forças está balanceado. Mesmo com dificuldades, o essencial dos serviços estatais funciona. Uma grande parte da população continua incapaz de tomar uma posição e permanece neutra, de fato. Por outro lado, independentemente das filiações religiosas, ainda é maciça, embora abalada, a adesão popular ao poder constituído, também por causa da forte ligação dos sírios à unidade nacional e à recusa de se deixar reduzir à única referência identitária confessional. No entanto, algumas regiões estão nas mãos do "exército livre", embora não arriscaria a dizer que estavelmente.

Em geral, o clima político é confuso, a segurança, carente. Registram-se episódios de furto, vandalismo, sabotagem, atentados, sequestros, acertos de contas, vinganças e assassinatos. A violência só aumenta. Delinquentes pura e simplesmente também se aproveitam da situação. Nós, muitas vezes, participamos de funerais de pessoas mortas em violentos confrontos ou atentados.

Muitos querem continuar esperando que a promessa de reforma constitucional seja realidade em breve e que a presidência Bashar al-Assad supere a crise e obtenha uma eleição plebiscitária para um novo mandato.

Sobre as possíveis soluções, no verão de 2011, o senhor desejava o nascimento de uma forma de democracia consensual, que soubesse levar em conta a pluralidade de identidades presentes no país. Mas, desde então, as coisas parecem ter ido em outra direção, e a situação tornou-se gangrenosa. Considera que essa proposta ainda seja viável?

Paradoxalmente, acredito ainda mais nela hoje, porque a sensação, nos dois campos, que se chegou ao impasse, também do ponto de vista do equilíbrio de forças. Nos últimos meses, e por vontade, em certo sentido, "recíproca", a situação foi estimulada decisivamente para a militarização do conflito. Mas vê-se agora, com clareza crescente, que nenhuma das duas partes tem os meios para aniquilar a outra, por muitos motivos locais, nacionais e internacionais.

O senhor fala de conflito. Entende essa palavra em sentido metafórico ou concreto?

Em um sentido muito concreto. É destes dias a notícia de um cessar-fogo entre o Exército sírio regular e as forças antigovernamentais, acordado na cidade de Zabadani, perto do Líbano. É um cenário de guerra civil.

Essa situação não lhe lembra perigosamente o Iraque? À parte do fato de que o movimento não começou com uma invasão militar estrangeira, não há muitos traços em comum?

Certamente, há características em comum e diferenças igualmente. O fenômeno dos sequestros, por exemplo, é extremamente preocupante. Se continuarmos assim, para as pessoas comuns, é o fim. A sensação, no que se refere à maior parte da população cristã, é duplo: de um lado, é a de ser triturados em um conflito que é, em última análise, entre muçulmanos, e, de outro lado, são muitos os se sentem inteiramente solidários com a Síria dos Assad. Ela havia assegurado um nível de laicidade do Estado percebido como uma ocasião de promoção por parte da minoria cristã. Isso, no momento em que a maioria sunita o percebia como um poder de aliança de minorias.

Localmente, um importante número de cristãos se inclina pelo governo. Muitos são funcionários e empregados do Estado, e outros participam do conflito como membros do Exército, da polícia e dos serviços de segurança. Muitos jovens se tornaram voluntários das tropas envolvidas na repressão do "terrorismo". Também deve ser relevada uma presença dos cristãos nos movimentos de oposição, e eles naturalmente escolhem os partidos menos caracterizados no plano religioso. Contudo, como no Iraque, o sentimento dominante é que uma guerra civil seria infinitamente deletéria justamente para os cristãos, que provavelmente emigrariam em massa.

Há posições diferentes entre os cristãos?

Há uma inclinação muito explícita pelo governo de grande parte das diversas autoridades eclesiásticas. Essa posição, no entanto, tende a dar lugar a uma neutralidade mais pronunciada. Compreendem-se bem, como dissemos, as razões de quem teme o nascimento de uma república islâmica sunita. Outros, porém, insistem na possibilidade de que a revolução abra espaços à democracia. Mas é totalmente enganador dividir o campo simplesmente entre democráticos e antidemocráticos, assim como entre pró-regime e antirregime. A realidade é mais complexa. Há muitos jovens, tanto cristãos quanto muçulmanos, que se consomem com toda a sua pessoa para favorecer o nascimento de uma democracia digna desse nome na Síria.

Alguns consideram que esse objetivo pode ser alcançado melhor e mais seguramente através da evolução do regime atual. Outros, ao contrário, igualmente comprometidos com a democracia, apontam para a mudança súbita, contra o atual sistema dominante. Eu percebi claramente que as posições são muito articuladas quando houve a questão da minha expulsão. Seis mil e seiscentos jovens aderiram à página do Facebook "Não à expulsão do Padre Paolo". A oposição aderente aos Comitês de Coordenação promoveu um "Domingo do Padre Paolo", em que, em diversas manifestações em todo o país, expressou-se solidariedade para comigo... até mesmo por parte de grupos de mulheres muçulmanas com véu! Independentemente do uso político do episódio, é significativo que, entre os jovens, que assumiram a minha defesa, todos comprometidos pela democracia, contavam-se tanto pessoas pró-governo quanto pró-revolucionários, e eram tanto muçulmanos quanto cristãos.

E, a propósito do decreto de expulsão, como está a sua situação?

Trata-se de uma velha história em que interagem questões internas à Igreja local, com consequências políticas, e questões diretamente relacionadas com os 20 anos de trabalho cultural para o surgimento da sociedade civil, o diálogo inter-religioso e o amadurecimento democrático que caracterizaram a nossa ação local. Ainda em fevereiro de 2010, o parque natural do mosteiro foi suprimido, e todas as atividades foram suspensas, incluindo os congressos de diálogo inter-religioso. Em março de 2011, como se soube em nível internacional e independentemente do movimento de oposição na Síria, foi bloqueada a minha autorização de permanência. Na prática, se eu tivesse deixado a Síria, eu não poderia mais voltar. Depois, em novembro, chegou o decreto de expulsão, que não foi aplicado e atualmente está congelado, também por efeito de uma ampla e variada mobilização, sobretudo de jovens, em minha defesa. Independentemente do meu caso pessoal, essa história manifesta a qualidade da sociedade síria que reagiu em defesa de um símbolo de harmonia inter-religiosa e de reconciliação civil.

Eu sinto o dever de propor uma intervenção não violenta de pacificação, árabe e internacional, com a participação de voluntários locais. Eu não entendo porque Gandhi não possa ser de inspiração para resolver o conflito sírio em andamento. Peço que se forme um corpo de 50 mil "acompanhadores" não violentos, desarmado, provenientes de todo o mundo. Digo "acompanhadores" e não observadores, porque estes últimos são percebidos por muitos na Síria como as vanguardas das invasões armadas e como censores movidos pela inimizade. Mesmo a palavra "internacional" cheira a complô na Síria e provoca reações negativas. Deveriam ser convidados pela própria Síria, por proposta da ONU, acompanhadores expoentes da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, dos escoteiros, de Santo Egídio, da Non Violente Peace Force, enfim, expoentes da sociedade civil planetária, a fim de ajudar o amadurecimento democrático da Síria. Não há necessidade de forças armadas internacionais que são percebidas aqui como forças de ocupação golpistas, movidas por interesses econômicos e estratégicos. A violência criminosa pode e deve ser combatida pela polícia do Estado, em cooperação com a população local e com o controle da imprensa livre e dos "acompanhadores".

Infelizmente, a parte central da união civil capaz de negociar o amadurecimento democrático parece cada vez mais absorvida pela polarização e pela militarização do conflito em curso.

Não é a primeira vez que eu faço propostas desse tipo. Em 2001, eu havia sugerido a criação de um canal de saída dos combatentes árabes do Afeganistão, pessoas que por décadas haviam se engajado, também dos Estados Unidos, para ir libertar Cabul e que, de repente, se descobria como hostil e terrorista. Bem, hoje, 2011, se fala de negociação com os talibãs, depois de 10 anos de guerra feroz, de muitos mortos e sofrimentos infinitos! Em 2003, para o Iraque, durante um jejum público, havíamos declarado que não se podia calar, porque o regime de Saddam Hussein era intolerável, mas também não se podia fazer a escolha da guerra. E se sabe o que aconteceu depois.

O senhor defende, portanto, o caminho das negociações. No entanto, em um documento que vocês enviaram para a Páscoa de 2011, lemos que "os danos causados à sociedade síria já são irreparáveis". Hoje, não é decisivamente tarde demais para negociar?

A passagem que você cita se refere à situação na Síria na última primavera, quando ainda se ventilava a possibilidade de um caminho reformista de longo prazo, conduzido pelo presidente Bashar al-Assad. Isso, por causa da violência – dizíamos – não era mais facilmente factível, e ainda menos hoje, por causa da radicalização do confronto. Já se criou uma cristalização das partes em conflito. A democratização do país implica hoje uma negociação entre os protagonistas do conflito armado e, portanto, necessita de eficazes mediações, especialmente se levarmos em conta que as dificuldades internas da Síria não são separáveis das tensões regionais. A responsabilidade e a tarefa da presidência continuam sendo grandes, porque ela é chamada a criar as condições para uma gradual transferência de poderes do velho sistema de partido único ao sistema completamente democrático que a nação vai escolher.

No entanto, não seria a primeira vez que a Síria vive uma experiência de pluralismo. Isso já aconteceu nos anos 1950, e foi um período muito instável, que só terminou com o advento ao poder do partido Ba'ath.

Eu não acho que se possa traçar um paralelo com esse mesmo período. Na época, a Síria não sabia muito bem em que campo se colocar e oscilava entre as democracias ocidentais e a URSS, até que optou por um regime de partido único. Além disso, naquele tempo, a Irmandade Muçulmana não tinha elaborado culturalmente uma perspectiva democrática, enquanto hoje isso é diferente.

Antes, o senhor ressaltou que nenhuma das partes tem hoje os instrumentos para prevalecer sobre a outra. Portanto, só resta esperar que uma se esgote?

As duas partes não se esgotarão, porque a Síria é hoje o palco de um vasto conflito regional. Aqui está em jogo a tensão entre EUA e Rússia, Turquia e Irã, sunitas e xiitas, concepção laica do Estado e visão religiosa da sociedade, e, em nível interno, assistimos ao surgimento de especificidades geográficas que até agora não tinham encontrado uma expressão adequada. Tudo isso significada que as possibilidades de alimentar o conflito são quase infinitas. Mas a novidade não está aí. Está no desejo de emancipação dos jovens, que é um imenso fato novo, um elemento de desequilíbrio nos equilíbrios conflituais tradicionais.

O que vocês fazem em seu mosteiro?

Continuamente, ao longo dos difíceis meses transcorridos, nos perguntamos o qual era nosso dever. A nossa condição monástica nos estende como a corda de um arco entre a perspectiva escatológica que aconselharia que se rezasse mais e se falasse menos, comprometendo-nos com o crescimento espiritual das pessoas, e a encarnação na história que exige a coragem, também assumindo a relatividade das nossas posições, de indicar perspectivas de "libertação" no contexto concreto.

Elaboramos documentos, divulgando-os na rede em diversas línguas. Fizemos oito dias de jejum pela reconciliação, que tiveram um impacto em nada indiferente nos ambientes juvenis mais avançados. Continuamos recebendo pessoas que desejam debater e encontrar no mosteiro o lugar de diálogo e de amadurecimento espiritual em relação a este momento trágico. Também iniciamos a produção de um queijo de boa qualidade para sermos menos dependentes da caridade internacional... Acima de tudo, vivemos dia após dia a angústia deste país, buscando transformá-la em solidariedade e em esperança.

Gostaria de enfatizar um sinal positivo: há alguns dias, como mencionei na premissa, o governo começou a permitir um acesso maior e pluralista aos jornalistas estrangeiros. É um fato crucial, que também muda a nossa situação. A liberdade de imprensa representa uma pré-condição para a reconciliação através da negociação. A escolha do Estado, se confirmada, poderia evitar um prolongamento dramático da guerra. A liberdade de informação reduz o número das mortes.

A Al-Jazeera é considerada por muitos no Ocidente como uma fonte informada sobre os fatos sírios. Como o senhor a considera?

É um canal de televisão de partido. A sua ação contribuiu para a concatenação dos movimentos revolucionários do ano passado, e isso certamente deve ser reconhecido. Foi um elemento extraordinário de ruptura do monopólio da informação por parte dos governos totalitários e um fator de mudança. No entanto, com relação à Síria, ela fez a opção militar. Milita contra o regime de modo partidário e, portanto, a objetividade da informação sofre com isso. Assistimos a uma guerra civil televisiva, antes ainda que no campo. Vemos sob os nossos olhos uma rixa entre os canais de TV que opõe realidades como a al-Jazeera aos meios de comunicação controlados pelo sistema dominante, estes também hábeis em defender a sua causa. Estou convencido de que assegurar uma liberdade de imprensa generalizada favoreceria uma escuta das boas razões e, consequentemente, ajudaria a pacificação.

O senhor faz referência a esse desejo generalizado de democracia e de participação da sociedade civil, mas onde percebe isso? Como se expressa?

Justamente, não nos meios de comunicação, onde circulam as teorias da conspiração mais disparatadas. Fala-se de um grande entendimento, entre EUA, Israel, al-Qaeda, salafistas, Irmandade Muçulmana e Liga Árabe, que visaria a derrubar o último Estado árabe que ainda não capitulou diante do projeto sionista e não renunciou a lutar contra o imperialismo... É evidente que, nesse nível, discutir é difícil. No entanto, eu vejo o surgimento da sociedade civil na vida cotidiana, vejo isso o amor patriótico de todos aqueles que estão dispostos a pagar pessoalmente. Noto um extraordinário amadurecimento civil e moral nos jovens que se comprometem com a mudança.

A grave dificuldade é quesetores cultos e socialmente avançados da sociedade, assim como ambientes eclesiásticos, também se deixam levar por uma lógica extremista e radical, que se expressa em frases como: "Tudo, mas nunca entregar o Estado à Irmandade Muçulmana!". Alguns até cedem a lógicas genocidas, para as quais se, para salvar o país, é preciso matar milhões de pessoas, paciência. A radicalização da linguagem cria uma espiral de violência sem saída. Não tenho ilusões e não me desespero. A violência de hoje e os seus filhos são chamados a se tornar os cidadãos de amanhã. Certamente, é um dever de todos, global, e, portanto, com maior razão, mediterrânico e italiano, o de agir imediatamente para evitar o pior.

Qual foi a importância do papel das novas mídias?


Eu diria que foi fundamental. Sem as novas mídias, a lógica da repressão teria podido agir sem dificuldades. Não teria havido a primavera árabe, ou pelo menos teria assumido formas muito diferentes, mais "clássicas": concentração dos insurgentes em uma região e a sua progressiva expansão, como, no passado, no Vietnã, Nicarágua, Curdistão iraquiano etc. Sem o controle internacional, permitido pelas novas mídias, teria havido massacres mais graves ainda. A repressão capilar torna-se relativamente impotente, por causa da pressão internacional construída sobre o uso das novas mídias, do amadurecimento civil, especialmente juvenil, favorecido pelas redes sociais e também pela nova militância religiosa que se organiza em rede.

Quantas armas estão em circulação na Síria hoje?

Seria preciso saber quantas haviam antes ainda. Na previsão de tempos escuros, todos tendem a preparar seus arsenais domésticos. Dito isso, a fronteira libanesa é uma peneira, assim como o Iraque (durante a guerra contra os aliados ocidentais, a fronteira siro-iraquiana era muitas vezes ultrapassada por combatentes islamistas sunitas...), o contrabando com a Turquia está florescendo, os desertos são difíceis de ser patrulhados. Aqueles que querem apoiar os grupos armados do exterior não são poucos e já são eficazes.

Desculpe se insistimos, mas o senhor não acha, infelizmente, que é mais fácil armar os adversário do que fazer surgir um espaço de diálogo?

Francamente, se a guerra contra o Irã estourar, as coisas aqui poderão se mover muito, muito rapidamente, mas também muito tragicamente. Penso que é preciso iniciar uma negociação séria com o Irã, que permita que o país tenha acesso ao status de potência nuclear, sob certas condições, para criar um equilíbrio de dissuasão na lógica da Guerra Fria, mas de modo muito mais concordado e limitado. Índia, Paquistão e Israel já são nucleares. Em todo caso, só um desarmamento nuclear generalizado e planetário, garantido por uma verdadeira autoridade mundial, tornariam injustificadas as aspirações iranianas. Então, dialoguemos com o Irã e comprometamo-nos a fazer da Síria um lugar de encontro e de acordo entre sunitas e xiitas. Esse áspero confronto intercomunitário se desenvolve em toda a região: no Bahrein, no Iêmen, na Arábia Saudita, no Líbano etc. Por isso, procuremos expressar uma gramática alternativa à do "quanto pior, melhor".

De onde surgiram essas revoluções? Por que justamente em 2011?

Para os três países norte-africanos, Egito, Líbia e Tunísia, a intolerabilidade da passagem geracional do poder de pai para filho parece ter marcado o destino dessas ditaduras. Os povos já não suportam mais a ideia de serem tratados como propriedade privada e objeto de herança. A oposição já era muito forte. Depois, à intolerabilidade do presente, somou-se a crise econômica, e eu diria também um verdadeiro amadurecimento juvenil, a cujo desenvolvimento – dentre outras coisas – a Europa também concorreu e por um longo tempo, através de instituições como a fundação euro-mediterrânica Anna Lindh e as várias formas de cooperação internacional para o desenvolvimento. Assim, chegamos ao ponto de ruptura depois que, durante anos, os egípcios gritaram nas ruas kifâya, o slogan da pré-revolução: Chega!

Padre Paolo, que papel a Itália pode desempenhar?

Roma, no pós-Berlusconi, pode novamente aspirar a desempenhar um papel significativo, e, portanto, convém que ela se mexa para propor imediatamente uma mesa de negociações entre os beligerantes no campo e também entre os beligerantes residentes fora da Síria. Espero que o ministro [Andrea] Riccardi [fundador da Comunidade de Santo Egídio], que ama este país, possa fazer propostas eficazes. Ao mesmo tempo, a Igreja italiana também pode dizer uma palavra no sentido da resolução não violenta dos conflitos regionais, pode favorecer a criação de um espaço de negociação e promover a mediação internacional. Também espero que a Igreja italiana se comprometa com a criação de corpos de voluntários não violentos e inter-religiosos de "acompanhadores" da paz.

A negociação pode ser buscada infinitamente?

É preciso começar logo, porque o tempo à disposição é pouco!

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Síria, o último apelo. Entrevista com Paolo Dall'Oglio - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV