Montini, o papa ambrosiano. Artigo de Sergio Luzzatto

Revista ihu on-line

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Ontologias Anarquistas. Um pensamento para além do cânone

Edição: 543

Leia mais

Mais Lidos

  • O que muda (para pior) no financiamento do SUS

    LER MAIS
  • Ou isto, ou aquilo

    LER MAIS
  • Desmatamento na Amazônia aumenta 212% em outubro deste ano, aponta Imazon

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

25 Janeiro 2012

O pontificado do Papa Ratti (Pio XI) deve ser considerado a época decisiva para a definição do projeto de Igreja que o Papa Montini (Paulo VI, foto) tentaria realizar no tempo do Concílio Vaticano II.

A análise é do historiador italiano Sergio Luzzatto, professor da Universidade de Turim, em artigo publicado no jornal Il Sole 24 Ore, 22-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Há um dualismo na história da Itália unida – entre Milão e Roma – que merece ser compreendido por uma variedade de pontos de vista, político, econômico, cultural, mas também do ponto de vista religioso. É um dualismo não declarado, obviamente, dentro de um todo que se pensa e se quer unitário, a comunidade católica dos batizados. Mas é um dualismo reconhecível subterraneamente, que opõe uma polaridade ambrosiano e uma polaridade romana. Sob a Basílica de Santo Ambrósio, o campo magnético de um catolicismo por vocação social mais do que temporal, secular mais do que burocrático, dialogante mais do que intransigente. Sob a Basílica de São Pedro, o campo magnético de um catolicismo por definição papal e curial, quando não também jesuítico e antimoderno.

O fato de que, dos últimos dois conclaves, tenham saído eleitos, em 1978 e 2005, dois pontífices estrangeiros, o Papa Wojtyla e o Papa Ratzinger, corre o risco hoje de mascarar uma evidência que poderia voltar com atualidade no conclave por vir: a história da Igreja na Itália moderna também pode ser interpretada como uma história dos modos pelos quais a Milão católica se movimentou para a conquista da Roma pontifícia. Ou, melhor, dizendo-o com menos ênfase e mais exatidão: a história da vida religiosa na Itália moderna pode ser interpretada como uma história dos modos pelos quais o catolicismo ambrosiano tentou assegurar para si uma forma de hegemonia nos Palácios Vaticanos e até no trono petrino.

No século XX, os momentos-chave dessa história coincidiram com os pontificados de Pio XI, de 1922 a 1939, e de Paulo VI, de 1963 a 1978 (com o intervalo dos reinados de Pio XII e de João XXIII, um mais atraído pela polaridade romana; o outro, pela polaridade ambrosiana). Tanto o Papa Ratti quanto o Papa Montini entraram como arcebispos de Milão no conclave do qual saíram pontífices, assumindo o nome, respectivamente, de Pio XI e de Paulo VI. E justamente o pontificado do Papa Ratti deve ser considerado a época decisiva para a definição do projeto de Igreja que o Papa Montini tentaria realizar no tempo do Concílio Vaticano II: como demonstra agora um importante livro publicado pela editora Mulino, Mons. Montini, de Fulvio Di Giorgi.

Simplificando, se poderia dizer que Di Giorgi coloca em campo as figuras de dois grandes clérigos do século XX – além do bresciano Giovanni Battista Montini, o milanês Agostino Gemelli – e analisa o seu desafio (aberto ou subterrâneo) para concorrer ao favor de um terceiro, lombardo, justamente Pio XI. Ambos os desafiadores compartilhavam com o Papa Ratti o projeto de uma reconquista católica da sociedade italiana que se fundamentasse não na antimodernidade, mas sim na modernização: não no bastião de uma ideologia, mas no impacto de uma pedagogia, não no apelo integralista à pureza da fé, mas sim na utilidade missionária das obras de caridade, não na proteção defensiva de cargos curiais, mas sim na ofensiva sem preconceitos de grupos laicais, não em uma rejeição preconceituosa da civilização laica, mas na desejável formação de uma classe dirigente católica. No entanto, o padre Gemelli e Dom Montini acabaram interpretando o projeto de modos muito diferentes resultando-se complementares.

Lendo o que um Montini com pouco mais de 20 anos escrevia no jornal dos estudantes católicos da Bréscia, La Fionda, nos anos posteriores à Grande Guerra, é palpável como a sua geração – o futuro Paulo VI havia nascido em 1897 – havia ficado marcada pelo conflito mundial quando ainda não tinha conhecido o trauma das trincheiras. Com o Gemelli ultrapatriótico de 1915-1918, o jovem Montini compartilhava uma ideia de Igreja tão voluntarista e militante a ponto de induzir Di Giorgi a falar de "atrevimento católico". Assim, depois da Marcha sobre Roma, a própria derrota daquele Partido Popular do qual o pai de Montini, Giorgio, havia sido cofundador e deputado, persuadiria o filho da necessidade de combater pela reconquista da Igreja, entrando diretamente na arena social da Itália e traduzindo em oportunidade religiosa e atrofia política induzida pelo regime fascista.

O autor de Mons. Montini não hesita em qualificar o pontificado do Papa Ratti como um experimento de "modernização totalitária". Mas Di Giorgi tem o cuidado de distinguir, na comitiva de Papa Pio XI, o que tornou Dom Montini representativo de uma sensibilidade de minoria com relação à sensibilidade de maioria representada pelo Pe. Gemelli. Aliados no apoio da ambiciosíssima criação deste último, a Universidade Católica do Sagrado Coração, além da associação de leigos de vida consagrada dos Missionários da Realeza de Cristo; unidos também no compromisso pela milícia leiga de massa da Ação Católica, contra a centralidade eclesial da Cúria, Gemini e Montini se encontraram divididos pelo problema da atitude com relação ao regime: indulgente (nos limites da cumplicidade) a abordagem de um; severa (nos limites da refração) a de outro.

Uma primeira crise rompeu em 1933. Montini foi obrigado a renunciar da liderança da Fuci, a Federação Universitária Católica Italiana, substituído por um fiduciário de Gemelli que oferecia ao fascismo garantias muito melhores de observância. Mas a crise espiritualmente mais grave rompeu em 1938. Então – já como braço direito do cardeal Pacelli na cúpula da Secretaria de Estado vaticana –, Montini teve que reconhecer de uma vez por todas as implicações políticas e morais do programa gemelliano de uma reconquista católica da Itália a ser realizada ao custo de subscrever os piores desvios do fascismo, da invasão militar da Abissínia à perseguição legal dos judeus.

Prudente de caráter e também de ofício, como diplomata da Santa Sé, Montini guardou para si uma anotação do dia 9 de abril de 1939, onde, a propósito das leis raciais e da atitude de Pio XII (Papa Pacelli, novo sucessor de Pio XI), estava escrito: "É preciso que o papa não tenha medo de deplorar abertamente aquilo que, segundo o Evangelho e a lei natural, o é" (deplorável). Mas Montini não esperou nem o desvio imperialista, nem o antissemita do regime para entregar à revista Azione Fucina, em 1931, uma opinião transparente sobre Benito Mussolini e sobre o culto dos italianos pelo Duce. "Aproximem-se, são homens" aqueles que "a palavra diz grandes": "assim como nós, fracos e caducos, e talvez (se devemos defender que a moralidade dos grandes não deve ser tão rígida como a dos pequenos) inferiores e degenerados".

A diferença de Gemelli, em suma, o Montini dos anos 1930 se recusou a se deixar encantar pela ''humanidade superior" da civilização fascista e decidiu investir tudo na "superior humanidade", em uma "civilização do amor". Tendo deixado a presidência da Fuci, entregou-se a um trabalho cultural de grande respiro para as editoras Morcelliana e Studium, enquanto começou a tecer – no rastro do humanismo integral de Jacques Maritain – uma rede de "montinianos" provenientes dos quatro cantos da Itália e prometidos a um belo futuro político depois da tragédia da Segunda Guerra Mundial: homens de fé e de ciência que se chamavam Alcide De Gasperi, Guido Gonella, Giorgio La Pira, Aldo Moro.

Mesmo depois da guerra, em 1954, as resistências do catolicismo romano ao catolicismo ambrosiano de Dom Montini seriam traduzidas em um afastamento seu dos Sacros Palácios, naquela espécie de aposentadoria que foi a sua nomeação a arcebispo de Milão: tanto que um Pe. Gemelli já doente e ácido pôde ironizar sobre ele como de "um transatlântico que veio encalhar no Canal".

Mas Dom Montini sairia gloriosamente das águas rasas do Canal em 1963: para entrar novamente em Roma como papa e para levar a Igreja Católica – no rastro de João XXIII – rumo a diálogo novo com a modernidade.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Montini, o papa ambrosiano. Artigo de Sergio Luzzatto - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV