A esquerda e o cruzamento de duas resistências

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13 Janeiro 2012

Conseguiremos, portanto, eliminar obstruções e incrustações, herdadas do século XX, para iniciar a civilização do humanismo plenário do século XXI? Não basta ir rumo a uma laicidade amiga da religião ou tornar os fiéis protagonistas dos movimentos de esquerda: isso já se faz. Trata-se de fazer com que toda a esquerda adquira um perfil, obviamente não confessional ou teocrático, mas, no entanto, religioso.

A opinião é do historiador italiano Fulvio De Giorgi, ex-professor da Universidade Católica do Sagrado Coração, na Itália, e atual professor de história da pedagogia e da educação da Universidade de Modena e Reggio Emilia. Foi membro do Conselho Pastoral Diocesano da Igreja de Milão.

O artigo original foi enviado tanto para o jornal Avvenire, dos bispos italianos, quanto para o jornal L'Unità, porém, nenhum deles aceitou publicá-lo. Esta versão foi publicada na revista Il Margine, de janeiro de 2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Nos últimos anos, desenvolveu-se um debate, bastante amplo e articulado, sobre a "questão católica", isto é, sobre o tema dos "católicos e a política na Itália": um debate indubitavelmente necessário e, diria, quase inevitável desde o escuro declínio da era berlusconiana. As hipóteses sobre o futuro que emergiram pouco a pouco foram as mais variadas. O Fórum de Todi das associações católicas comprometidas com o social discutiram algumas. Outras foram examinadas no encontro romano dos dias 19 e 20 de novembro das associações do catolicismo democrático (Rosa Bianca, Città dell'Uomo, Agire Politicamente, Argomenti 2000 e outras realidades de base).

Muito oportunamente, nessas discussões, recorda-se a história: como se sabe, historia magistra vitae... Embora, muitas vezes, a história ensine... mas não tem alunos! E, além disso, é preciso concordar sobre o significado das várias referências históricas evocadas (da DC aos Comitês Cívicos, do Pacto de Gentiloni a Sturzo): a história, de fato, corre o risco de ser vista ou como uma espécie de sótão dos avós, de onde, em regime de restrições, é possível pegar algum móvel velho para reacomodá-lo, ou como um destruidor de carros do qual se pode recuperar alguns carros não muito machucados para serem colocados novamente na pista. Enfim, operações residuais, para reciclados e reciclantes, com um "novismo" de sucateiros e biscateiros.

As lições da história podem ser, na realidade, de melhor cunho: mas se trata, então, não de se dirigir ao supermercado do passado, mas sim de olhar para o presente com um olho no futuro. Ler os problemas de hoje, conhecendo, porém, as suas origens e desdobramentos históricos: exatamente para identificar as respostas novas, neste momento mais adequadas, e também para não repetir os erros do passado.

Gostaria, então, de acenar, inserindo o caso italiano em horizontes mais vastos, ao que me parece ser um cruzamento paralisante de duas resistências obstinadas, que a história do século XX entrega neste início do século XXI: parece-me necessário, de fato, despedir-se, ou, melhor, libertar-se desses freios automáticos, mas agora historicamente sem motivação, que continuam bloqueando uma situação que eu chamaria de "civilização".

O triunfo global do neoliberalismo, depois do fim do comunismo na Europa Oriental, e a consequente reviravolta de civilização, caracterizada por uma globalização desregulada e por um niilismo pós-moderno, estão, neste momento, fechando o seu ciclo histórico, queimados pela crise antes financeira e depois também econômica mundial (e, no fundo, o berlusconismo nada mais foi do que a versão italiana, com características específicas de populismo, dessa reviravolta neoliberal mundial).

Não é por acaso que os principais sujeitos coletivos que sofreram uma "marginalidade de valor" durante essa hegemonia de uma civilização individualista e antissolidária parecem agora reemergir: refiro-me, de um lado, à Igreja Católica e, de outro, aos movimentos político-sociais da esquerda. Porém, cada um desses sujeitos parece estar bloqueado, nas suas potencialidades de incisividade histórica, por resistência psicológicas e culturais que, como eu disse, vêm do passado, mas que já não se justificam mais: e se trata de duas resistências "cruzadas".

De um lado, o Igreja Católica vem de um longo Kulturkampf contra o totalitarismo comunista: uma disputa corpo a corpo dramática que envolveu muitas energias espirituais e institucionais. A civilização contemporânea não pode deixar de ser grata à Igreja Católica por esse compromisso, coerente até o martírio: mesmo que a memória seja curta e até na Polônia muitos não se lembrem mais. Desde 1991, João Paulo II tinha entrevisto, além disso, os riscos do pós-comunismo, com grande lucidez (Centesimus Annus, 42):

A solução marxista faliu, mas permanecem no mundo fenômenos de marginalização e de exploração, especialmente no Terceiro Mundo, e fenômenos de alienação humana, especialmente nos Países mais avançados, contra os quais se levanta com firmeza a voz da Igreja. Tantas multidões vivem ainda agora em condições de grande miséria material e moral. A queda do sistema comunista, em tantos países, elimina certamente um obstáculo para enfrentar de modo adequado e realístico estes problemas, mas não basta para resolvê-los. Existe até o risco de se difundir uma ideologia radical de tipo capitalista, que se recusa mesmo a tomá-los em conta, considerando a priori condenada ao fracasso toda a tentativa de os encarar e confia fideisticamente a sua solução ao livre desenvolvimento das forças de mercado.

A Igreja devia e deveria, portanto, emprestar a sua própria voz a essas multidões mundiais, que ficaram sem voz depois do colapso do marxismo (por mais distorcida que fosse tal voz): deveria preencher o vácuo. Sem integralismos e sonhos de hegemonia confessionais, sem fazer política de partido, no espírito de laicidade indicado pelo Concílio Vaticano II, deveria educar consciências adultas aos valores da paz, da justiça social e da salvaguarda da criação e fazer fermentar, de baixo, a sociedade, no sentido do humanismo plenário e da partilha. Nem sempre isso foi e é feito, porque uma persistente resistência residual do anticomunismo serve de freio: mas assim corre-se o risco de tornar improdutiva a boa semente evangélica e marginalizar o próprio ensino social do magistério.

Além disso, no pano de fundo de civilização que estamos vivendo, o lugar dos cristãos leigos só pode ser “à esquerda”, para reivindicar uma igualdade mais profunda (entendendo-se igualdade jurídica e política, e o compromisso com a redução das desigualdades sociais): a igualdade em dignidade da pessoa humana.

Nesse sentido, o meu pensamento é exatamente o oposto do de Galli della Loggia, que vê os católicos objetivamente situados à direita. Trata-se justamente do contrário, e não por integralismo, mas sim por discernimento laico à luz dos valores evangélicos.

Ma os movimentos da esquerda (que, nos países não anglo-saxônicos, vêm da história do socialismo marxista, embora tenham evoluído de forma variável em diversas tendências, até mesmo muito diversas) também devem superar seus bloqueios. A globalização neoliberal não só se beneficiou com o colapso dos comunismos, mas também marcou o xeque-mate das social-democracias antes marxistas e neokeynesianas. Houve, assim, um desvio radical-liberal das esquerdas, que sofreram a hegemonia do adversário. Os valores da solidariedade não se sustentaram, por não serem mais apoiados por um horizonte forte de transcendência do sistema social dado: o milenarismo profano das velhas esquerdas entrou em declínio, e um empirismo de fôlego curto e de pensamento frágil tomou o seu lugar. Isso aconteceu e ainda acontece, inibindo, preventivamente, as próprias condições de se pensar verdadeiros projetos inovadores de esquerda, por um bloqueio psicológico e cultural que freia as esquerdas de adquirir “um horizonte religioso”: isto é, um investimento de sentido e de valor que transcenda o sistema social dado. Mas assim não se tem apenas a impotência: tem-se o fim da "razão social" da esquerda (como o último Berlinguer tinha intuído).

Não basta ir rumo a uma laicidade (imprescindível!) amiga da religião ou tornar os fiéis protagonistas em seu próprio direito dos movimentos de esquerda: isso já se faz. Trata-se, ao contrário, de fazer com que toda a esquerda adquira um perfil, obviamente não confessional ou teocrático, mas, no entanto, religioso. Nem todos, nos movimentos de esquerda, são mulheres, mas um perfil "feminista" é quase imprescindível para toda a esquerda. Nem todos são sindicalistas, mas o apoio ao mundo do trabalho organizado é patrimônio de toda a esquerda.

Assim também nem todos são fiéis ou praticantes de cultos religiosos, mas todos, entre si diversamente fiéis ("qualquer espécie de crente", como diz Arrigo Levi), deveriam sentir como próprio o perfil religioso da esquerda enquanto tal. Conseguiremos, portanto, eliminar obstruções e incrustações, herdadas do século XX, para iniciar a civilização do humanismo plenário do século XXI?

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