“Não se pode separar Cristo da sua Igreja, nem a Igreja de Cristo”, diz Ladaria

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Por: André | 21 Novembro 2012

O último dia do Congresso de Teologia “Aos 50 anos do Concílio Vaticano II (1962-2012)”, organizado pelas Faculdades de Teologia da Espanha e Portugal, e que está acontecendo desde o dia 15 de novembro no Auditório João Paulo II da Universidade Pontifícia de Salamanca (UPSA), teve como convidado o Luiz Francisco Ladaria Ferrer, arcebispo secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, que deu uma palestra intitulada “Cristo, a Igreja, as religiões”.

A reportagem está publicada no sítio espanhol Religión Digital, 17-11-2012. A tradução é do Cepat.

Ladaria foi apresentado por Vicente Vide, decano da Faculdade de Teologia da Universidade de Deusto e presidente da Junta de Faculdades de Teologia da Espanha e Portugal, que saudou, entre os participantes no início da jornada, o cardeal Walter Kasper, presidente emérito do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos – que veio para pronunciar a conferência de encerramento –, e o núncio apostólico de Sua Santidade na Espanha, dom Renzo Fratini.

Cristo, único Salvador

O secretário da Doutrina da Fé começou sua intervenção afirmando que, 50 anos depois, “a Igreja, apesar de todos os problemas, enraizada na tradição, cresceu na compreensão das coisas e das palavras transmitidas, tendendo à plenitude da verdade divina”.

E propôs o tema de estudo: a relação de Cristo e da Igreja por Ele fundada com as outras religiões. Ato contínuo, repassou algumas verdades cristológicas fundamentais recordadas pelo Concílio: “Jesus Cristo é o único Salvador dos homens, em quem confluem todos os seus desejos e aspirações, embora não o conheçam”. Por isso, “todos os homens são chamados ao encontro com Cristo, luz do mundo”. Ele é o mediador e a plenitude de toda a revelação.

“O Senhor é o objetivo de toda a história humana, tudo foi criado n’Ele, e por isso só em Cristo tudo alcançará sua plenitude”, afirmou Ladaria. E por isso “não há salvação sem Cristo nem à margem d’Ele, porque a única vocação do homem, segundo o Concílio, é a divina, e seu fim último é o próprio Deus, a quem se pode chegar pela mediação única de Cristo”.

Neste tempo “não faltaram as tentativas de reduzir Jesus Cristo a uma figura religiosa a mais na história humana, a um mediador a mais”, e assinalou algumas características destas propostas teológicas, que chegam ao denominado “teocentrismo pluralista”, que não admite uma revelação historicamente concreta de Deus.

Estas teses “não podem ser harmonizadas com o que ensinou o Concílio Vaticano II, nem com a Tradição da Igreja. O cristocentrismo e o teocentrismo necessitam-se e se iluminam mutuamente: só por Cristo podemos chegar ao Pai”.

Ainda que “o cristianismo não possa descartar outros modos da presença de Deus na história”, pelo caráter absoluto de Deus. Mas “introduzir uma separação entre Jesus Cristo e o Verbo eterno não é compatível com a fé cristã”, assinalou, devido ao mistério da encarnação, e citou a declaração Dominus Iesus.

Em um segundo momento da sua exposição, Ladaria analisou a estreita relação entre Cristo e o Espírito Santo, e a necessária conjunção de cristologia e pneumatologia. Às vezes “se pensou que a economia salvífica do Espírito Santo seria mais ampla que a ação historicamente limitada do Verbo encarnado, e assim chegaria a todos os homens”.

Mas já João Paulo II advertiu na Redemptoris Missio que não se pode fazer esta distinção, e a Dominus Iesus disse que “a humanidade de Cristo é o lugar do Espírito Santo e de sua efusão à humanidade”. Isto, segundo Ladaria, “responde à tradição dos primeiros séculos”, e citou algumas passagens patrísticas fundamentais.

“O Espírito não é alternativo a Cristo, nem vem para preencher algum espaço vazio entre Cristo e o Logos”, e é o Espírito de Cristo, que sopra onde quer, sem limite algum para a sua ação. “Nem há um Logos que não seja Jesus, nem há um Espírito que não seja Espírito de Cristo”.

A Igreja e as religiões

“Não se pode separar Cristo da sua Igreja, nem a Igreja de Cristo”, recordou Ladaria. Ela entra no desígnio divino de salvação: “Cristo e a Igreja não podem ser confundidas, mas também não podem ser separadas, pois constituem um só ‘Cristo total’, e assim a Igreja é um sacramento universal de salvação, sua relevância e sua função se estendem para além de suas fronteiras visíveis, segundo a doutrina do Concílio”.

Não se trata de nenhuma diminuição da mediação única de Cristo, mas que aqui se insere o ser da Igreja: “sua mediação é sempre subordinada à de Cristo”. Por isso os cristãos podem ter uma certa vinculação com o mistério de Cristo e da Igreja mesmo sem pertencer ao seu corpo visível.

Quanto às religiões, o expositor enfrentou em primeiro lugar a dificuldade do conceito de “religião”, e repassou a consideração magisterial das religiões não cristãs e seus membros, e como “o bem das outras religiões tem que ser sanado, elevado e aperfeiçoado”, segundo os textos do Concílio. Cristo é o autor de todo o bem, de tudo o que há de verdade e de graça em todos os povos e culturas, mas que não chega à sua plenitude como na Igreja.

“O respeito e o apreço pelas grandes tradições religiosas da humanidade é um dever, mas não pode obscurecer a única mediação salvífica de Cristo... as sementes do Verbo não são o Verbo em sua integridade, nem os raios da luz são a Luz do mundo”, acrescentou. Estas sementes estão presentes nas religiões, e estão sempre referidas a Cristo, assim como foi desenvolvida no período pós-conciliar, de forma mais explícita, pela encíclica Redemptoris Missio, de João Paulo II. O desafio posterior fundamental é a declaração Dominus Iesus, que Ladaria explicou em seus principais pontos relativos a esta questão.

Deixando claro que “embora ajudem positivamente os seus membros, as religiões não são, como tais, caminho de salvação”, o que não pode levar a um pluralismo religioso de iure. “Isto pode parecer uma pretensão excludente e arrogante, mas os cristãos vivem-no como puro dom: a fé no Cristo Senhor. E com a humildade confiada de quem nos precedeu na fé, seguimos pregando o Crucificado como aquele a quem Deus constituiu Senhor e Salvador de todos, juiz de vivos e mortos. Pouca arrogância cabe diante do escândalo da cruz, e se se dá entre os cristãos, só pode ser perversão”.

O expositor concluiu sua intervenção citando os Padres da Igreja para concluir que “todos os caminhos têm que confluir em Cristo para chegar ao Pai”.

O dia anterior, no segundo dia do Congresso de Teologia “Aos 50 anos do Concílio Vaticano II (1962-2012)”, organizado pelas Faculdades de Teologia da Espanha e Portugal, no Auditório João Paulo II da Universidade Pontifícia de Salamanca (UPSA), terminou com as exposições de Salvador Pie i Ninot e Santiago Madrigal.

Os problemas eclesiológicos

Em sua colocação, intitulada “Eclesiologia e ecumenismo”, Salvador Pie i Ninot, professor da Faculdade de Teologia da Catalunha e da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, disse que nos encontramos “diante de uma doutrina católica”, distinguindo entre magistério, fé e teologia. “O grande tema da discussão do Concílio sofre de uma diferença fundamental: um texto magisterial é diferente de um texto teológico. O primeiro pretende ensinar, e a teologia é argumentativa”.

Para o expositor, a fórmula eclesiológica fundamental do Concílio é “comunhão hierárquica”, que aponta para uma coexistência entre a eclesiologia sacramental do primeiro milênio e a eclesiologia jurídica do segundo milênio, o que expressa que existe um conflito”. Não são duas eclesiologias, mas dois acentos, esclareceu.

O professor Pie i Ninot disse que “quando se fala no Concílio Vaticano II do primado, nunca se coloca como ‘de jurisdição’, que se aplica aos bispos. É uma ausência desejada, pelas ressonâncias civis, e fala-se da presidência na caridade, com um caráter mais sacramental”.

Outro tema importante na recepção desses anos foi o da Igreja como comunhão de Igrejas. Coloca-se pelo uso do termo “universal” para a Igreja, que quer ser uma tradução de “católica”. E o expositor abordou o tema complexo da discussão teológica em torno da proeminência ou não da Igreja universal com relação às Igrejas locais, representada pelos cardeais Kasper e Ratzinger no pós-concílio.

Ao falar da comunhão no Concílio, “há uma palavra decisiva sobre o primado do Papa”, para articular a comunhão com a jurisdição. Outro tema importante e polêmico quanto à sua significação ecumênica é o da expressão “subsistit in”, para reconhecer a eclesialidade dos que estão fora da comunhão da Igreja católica, já que não há um “vazio eclesiológico” fora da Igreja, e mesmo dentro dela há uma ferida por conta da ruptura da unidade. Mas é a Igreja católica que tem os meios plenos de salvação, algo que as outras confissões cristãs não têm.

“Estamos em uma etapa na qual os teólogos, e também a Igreja, temos buscar clarificações em torno desses pontos”, afirmou o expositor. Além disso, agora se diz que a Igreja pode ser “porta da fé”, como manifestaram Bento XVI e o Sínodo.

Da comunhão à missão

A segunda colocação, a cargo do jesuíta Santiago Madrigal Terrazas, professor da Faculdade de Teologia da Pontifícia Universidade de Comillas, tratou sobre “A missão da Igreja”. Nela, o professor traçou o caminho feito desde o Concílio Vaticano II até a proposta da nova evangelização. “Nunca antes um concílio havia posto tanta ênfase na ação pastoral e na atividade missionária da Igreja”, afirmou, centrando-se nos vínculos entre o decreto Ad Gentes e a constituição pastoral Gaudium et Spes.

Segundo Madrigal, “a ideia da missão tem a categoria de ideia diretriz em toda a reflexão conciliar”, e o documento relativo a este tema, por ser um dos últimos, é um texto maduro, que bebe dos anteriores. E cria o caldo de cultivo para o desenvolvimento magisterial posterior, que se cristaliza na exortação apostólica Evangelii Nuntiandi (Paulo VI) e na encíclica Redemptoris Missio (João Paulo II).

Depois de resumir os detalhes do processo de redação do documento conciliar sobre as missões, o expositor disse que “a ideia de comunhão foi uma diretriz nos documentos conciliares, e o tema da missão foi repatriado ao ser da Igreja”. Para que as missões possam acontecer, além disso, é necessário ter em conta a liberdade religiosa, outro elemento importante do Concílio.

Quanto às repercussões de tudo isto na teologia sobre a Igreja, “produziu-se uma mudança de paradigma, emergindo uma eclesiologia dinâmica e da missão”, segundo Santiago Madrigal. Quanto à linguagem sobre a nova evangelização, o expositor destacou que “a tarefa da evangelização dos homens é a missão essencial da Igreja; a Igreja existe para evangelizar”.

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