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Por: Jonas | 23 Outubro 2012

A descoberta do bóson de Higgs está tão fresca que a exibição no museu da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (Cern) ainda não se atualizou. No trabalho exposto – um curta-metragem que projeta imagens do nascimento do Universo numa enorme tela – o narrador pergunta: “Encontraremos o bóson de Higgs?”

A reportagem é publicada no sítio Religión Digital, 21-10-2012. A tradução é do Cepat.

Agora que finalmente foi visto – uma descoberta científica que nos aproxima mais do que nunca dos primeiros momentos após o Big Bang –, a Cern abriu suas portas para eruditos que assumem um enfoque muito diferente para a pergunta a respeito da forma como se criou o Universo.

No dia 15 de outubro, um grupo de teólogos, filósofos e físicos se reuniu dois dias, em Genebra, para falar sobre o Big Bang. O que aconteceu quando pessoas de tão diferentes visões do Universo se sentaram para discutir?

“Dei-me conta de que era necessário discuti-lo”, disse Rolf Heuer, diretor geral da Cern. “Precisamos, como cientistas ingênuos, discutir com filósofos e teólogos o tempo anterior ao Big Bang”.

A primeira pessoa a propor a teoria do Big Bang foi um sacerdote católico, Georgs Lemaitre, que também era professor de física na Universidade Católica de Lovain. Em 1931, num trabalho acadêmico, propôs que o Universo em expansão deveria ter se originado num ponto finito no tempo. Para ele, os seus interesses religiosos eram tão importantes como a sua ciência, como presidente da Academia Pontifícia de Ciências, de 1960 até a sua morte, em 1966.

Charles Darwin, de quem se pode dizer que deflagrou o debate da religião versus ciência, lutou com sua própria fé. Darwin cresceu na fé anglicana e em seus diários de exploração, em seu barco, o Beagle, referiu-se a si mesmo como “bastante ortodoxo”. Em sua autobiografia, Darwin escreveu: “O mistério do princípio de todas as coisas é insolúvel para nós; e de minha parte devo me conformar em permanecer como agnóstico”.

Um dos organizadores da Cern, desta reunião incomum, foi Wilton Park, um fórum global estabelecido por Winston Churchill. Trata-se de uma organização usualmente associada com discussões de alto nível sobre política global e, inclusive, confidenciais, sobre assuntos de segurança internacional, que talvez enfatize o quão seriamente a Cern considera este encontro.

Contudo, a própria ideia de um “tempo antes do Big Bang” é um território impossível para os físicos. É uma área de pura especulação; antes do tempo e o espaço como os cientistas os entendem, e onde as leis da física se rompem completamente.

Então, fazem isso num âmbito em que a ciência e a religião possam se entender? Um dos participantes mais francos, Lawrence Krauss, um físico teórico e diretor do Projeto Origens, na Universidade Estatal de Arizona, afirma que definitivamente não. “Numa reunião como esta, alguém tem a impressão de que Deus importa aos cientistas; mas, não”, aponta.

“O poder da ciência é incerto. Tudo é incerto, mas a ciência pode definir essa incerteza”. “Por isso a ciência progride e a religião não”.

Entretanto, a sugestão de que ciência e religião são fundamentalmente incompatíveis foi motivo de discórdia durante a reunião. John Lennox, professor de matemática na Universidade de Oxford, também se declara cristão. Ele pensa que apenas o fato dos seres humanos poderem fazer ciência é uma evidência para Deus.

“Se os ateus têm razão de que a mente faz ciência... é o produto de um processo não guiado, sem sentido”. “Agora, se soubesse que seu computador é produto de um processo não guiado, sem sentido, não confiaria nele”. “Por isso, para mim o ateísmo mina a racionalidade de que necessito para fazer ciência”.

Porém, este debate aparentemente insolúvel, de Deus versus a ciência, foi apenas uma parte do encontro. Heur expressou que desejava que os participantes “desenvolvessem um entendimento comum” da visão dos demais.

Todavia, até mesmo intercambiar em alguns momentos foi fastidioso; cientistas e filósofos costumam falar linguagens muito diferentes.

A descoberta de uma “partícula de Higgs” precedeu este encontro de religiosos e cientistas.

Andrew Pinsent é diretor de pesquisa no Centro Ian Ramsey para a Ciência e a Religião, da Universidade de Oxford. É também um físico treinado, que já trabalhou na Cern. “Temos que nos educar mutuamente nos termos que usamos”, disse. Por exemplo, explica, “os filósofos estiveram discutindo o significado da [palavra] verdade durante séculos”. Porém, para muitos físicos, usar essa palavra é um território incômodo quando falam sobre o que sabemos do Universo e do Big Bang.

Krauss afirma que a palavra está no centro de “uma das diferenças fundamentais entre ciência e religião”. “Os que são religiosos acreditam que conhecem a verdade”, aponta. “E sabem a resposta antes de existir a pergunta. Com os cientistas é exatamente o contrário”. “Na ciência, embora usemos a palavra verdade, o que realmente importa é se funciona”. “Por isso, é um assunto sensível, porque se você sabe a verdade, não precisa lidar com esta perguntinha sobre se algo funciona ou não”.

Apesar da barreira entre visões opostas do mundo e léxicos incompatíveis, Pinsent acredita que colaborar com a filosofia poderia ajudar a ciência a enfrentar melhor as perguntas muito grandes. “Num quarto de século, não houve novos avanços conceituais na física”, afirma. Acrescentando que isto, em parte, é porque a ciência isolada “é muito boa para produzir coisas”, mas não para produzir ideias”.

Evoca Einstein como exemplo de um cientista verdadeiramente filosófico. “Ele começou formulando as perguntas que uma criança faria”, assinala Pinsent, “como: ‘o que seria cavalgar sobre um raio de luz?’”

E Heuer aceita a ideia de levar filosofia à própria Cern. “Não iria tão longe como deixá-los fazer experimentos aqui”, brinca, “mas não seria nenhum problema ter um filósofo residente”.

A principal conclusão do evento foi simples: continuar conversando. “Enfrentamos um problema em nossa cultura de hiperespecialização”, destaca Pinsent. “Esta ignorância de outros campos pode causar problemas, como uma carência de coesão social”.

E embora Krauss tenha dito que a reunião às vezes foi sentida como “de pessoas que não podem se comunicar ao busca se comunicar”, vê algum valor neste intercâmbio, algo esotérico.

“Muita gente de fé vê a ciência como uma ameaça”, aponta. “Não acredito que a ciência seja uma ameaça, por isso é útil para os cientistas mostrar que não veem necessariamente dessa forma”.

Como disse um colaborador durante o encontro: “a religião não acrescenta aos fatos científicos, mas dá forma para nossa visão do mundo”. E como a Cern está buscando pistas sobre como existiu o mundo para começar, deseja ver como suas descobertas se encaixariam em qualquer visão do mundo.

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