Um apelo pelos pobres. Carta aberta do Irmão Antonio Cechin

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04 Outubro 2012

"Nosso receio, o povo dos porões e da despoluição do Planeta, em relação a uma possível reeleição da atual administração da cidade é imenso. Basta o simples fato emblemático da chapa proposta. O candidato a vice-prefeito da situação é o autor da famigerada 'lei das carroças'. Em preparação à copa do mundo, a atual administração decretou a higienização ou limpeza da cidade, o que significa a morte do povo da rua que, com investimento zero, fabricou o próprio emprego, fonte de sua própria sobrevivência e familiar", escreve Antonio Cechin, irmão marista e miltante dos movimentos sociais, em Carta Aberta.

Eis a carta.

Irmãos na fé católica: bispos, presbíteros, diáconos, pessoas consagradas de ordens e congregações religiosas femininas e masculinas, leigas e leigos da Igreja Católica que está em Porto Alegre.

Ontem adentrou em meu computador a carta que o episcopado brasileiro enviou a todos nós com recomendações em relação às próximas eleições. Aplaudo, de pé essa brilhante e apostólica iniciativa. Hoje, fazendo eco à missiva de nossos Pastores, que do alto lugar que ocupam em nossa mãe Igreja, nos prestaram esse prestimoso serviço, eu aqui, desde os porões da mesma Igreja, munido apenas da cara e a coragem que animou São Miguel Arcanjo, cujo dia festivo celebramos hoje, 29 de setembro, e também animado da coragem santo de devoção particular São Sepé Tiaraju (o Facho de Luz), e o empoderador dos movimentos populares de hoje, que, no dizer do bispo profeta e poeta D. Pedro Casaldáliga é o nosso Miguel Nativo, canonizado pelo Povo Guarani e recanonizado de novo, sempre ao modo popular,no saudoso acampamento no exato lugar em que Sepé embebeu com todo o seu sangue este nosso solo rio-grandense, na cidade de São Gabriel, a 7 de fevereiro de 2006 pelos índios guarani descendentes dos Guarani das Missões e demais nações indígenas do Rio Grande, Kaingang e Charruas, e os Movimentos Sociais dos nossos tempos: CUT, MST, Via Campesina, Movimento dos Pequenos Agricultores, Mulheres da Mística Feminina, Catadores, Carrinheiros, Povo da Rua em Geral, Comunidades Eclesiais de Base, Catequese Libertadora, Teologia da Libertação, etc.

Permitam-me o atrevimento sem tamanho, de escrever desde os porões do povo da rua, catadores, carrinheiros e demais desabrigados que se arrastam por debaixo de pontes, marquises e viadutos, e de dentro dessa mesma Igreja, esta carta aberta, brotada única e exclusivamente da minha fé católica e do meu trabalho de mais de 30 anos (1970 - 2012) sem solução de continuidade até os dias de hoje. Foi toda uma caminhada na opção pelos pobres, dentro do modelo tipicamente latino-americano de Igreja, iniciado por D. Hélder Câmara, fundador da CNBB que reúne todos os nossos bispos. Deus me dá a agradável alegria de sentir que não pequei por omissão. Num esforço permanente procurei sempre o seguimento dos passos do Mestre que nos asseverou: "tudo o que fizerdes ao menor dos meus irmãos, foi e a Mim mesmo que o fizestes".

As eleições para o governo da cidade estão às portas. Nosso Único e verdadeiro Mestre, o Homem Jesus de Nazaré, nos legou o critério por excelência para a escolha dos melhores entre os melhores quando disse "pelos seus frutos, os conhecereis. É pelos atos, pelos fatos, pelas realizações, que temos de escolher, tanto os candidatos quanto os partidos políticos. Jamais pelas simples palavras das propagandas e das promessas".

Candidatos em quem votar, entendemos que deverão ser daquele partido local, que coloca no centro de sua missão diuturna de governar, nos próximos quatro anos, a nossa cidade, sempre e em primeiríssimo lugar, as pessoas da classe social mais baixa e totalmente carente, através de ações já demonstradas no passado e já realizadas, no jeito próprio de governar de próprio partido que é sempre mais do que um candidato individualmente, uma vez que, segundo nosso Mestre, a Comunidade começa sempre com, no mínimo duas pessoas, quando disse: "onde duas ou mais pessoas se unirem para o bem, lá estou eu no meio delas".

Não acredito que haja últimos, entre os últimos mais carentes, do que o povo da rua. Apesar de uma apenas aparente loteria biológica os tenha jogado debaixo de pontes e viadutos, em cavernas e túneis desativados, totalmente despidos de direitos, como vieram ao mundo, o instinto de sobrevivência que o divino Criador lhes instilou na alma, faz com que seu programa de vida seja o provérbio "ajuda-te que Deus te ajudará!" Em busca diuturna, percorrem os locais em que a sociedade despeja seus restos, ou seja, tudo que se denomina como lixo. Quais autênticos animais famintos, sem olhar nem cheirar, devoram qualquer resto de comida que encontram, com grande voracidade.

Num segundo momento de seu peregrinar atrás de sobrevivência, descobrem em meio aos descartes da sociedade consumista, os resíduos sólidos. Aos poucos, fruto da própria teimosia, vão se tornando carrinheiros, catadores, carroceiros. Quando tem a sorte de encontrar alguém por perto que os ajude na organização do trabalho, constroem Coletivos de Trabalho que tem tudo para se transformar numa Comunidade Ecologica de Base, ao mesmo tempo Comunidade Ecumênica de Base e também Eclesial de Base. Vão se tornando cidadãos da Igreja e da Pátria, realizando o projeto que Jesus trouxe de junto do Pai: o Reino de Deus.

Pessoalmente, comecei a votar no ano de 1946, aos 19 anos de idade, logo que terminou a ditadura Vargas. Eram os tempos da Liga Eleitoral Católica (L.E.C). A instituição Igreja elaborava uma lista de candidatos íntegros nos quais poderíamos votar tranquilos. Descobri com o andar dos anos que é exigência pouca, muito pouca. Não foi por nada que durante os tenebrosos tempos da ditadura militar iniciada em 1964, tempos de "Brasil nunca mais", nós das Comunidades Eclesiais de Base, da Catequese Libertadora que fui defender na cidade de Medellin em preparação à Assembléia dos Bispos, ao mesmo tempo preliminar da Teologia da Libertação e de um modelo de Igreja tipicamente latino-americano, ajudamos a construir, contra a classe dominante e torturadora, o partido dos trabalhadores (PT), ou seja, um partido político da classe então mais do que oprimida que enriqueceu a Igreja Latino-Americana de uma segunda plêiade de santos mártires, preconizada por Dom Hélder quando, em companhia de uma quase centena de colegas irmãos bispos, realizou o encerramento do Concílio Vaticano II, nos subterrâneos de Roma ou seja nas Catacumbas. Com esse ato entramos todos em contato, na América Latina, com a Igreja de Raiz que foi uma Igreja de santos Mártires. O partido dos trabalhadores (PT) também nosso, da Igreja, para o qual colaboramos através dos engajamentos das nossas Comunidades Eclesiais de Base com ferramentas básicas: nas Vilas periféricas em que moramos com a ferramenta Associação de Moradores; nas fábricas em que trabalhamos com vistas a melhores condições de vida e trabalho, com a ferramenta sindicado, e na Política a fim de mudanças para melhor, na ferramenta Partido Político, sempre com letra maiúscula, porque, através de um mínimo de análise de classe, tem que ser um partido da classe trabalhadora. Conseguiu o também nosso PT, naquela época, polarizar todas as forças vivas da nação. Ao fim de várias tentativas, conseguimos eleger Lula e Dilma para a presidência da republica, Olívio e Tarso para a prefeitura de Porto Alegre e também para o governo de nosso Estado.

Os que fomos torturados pelos esbirros da classe dominante de caráter nazista, estamos convencidos de que a análise da ideologia do partido a que pertencem os candidatos é absolutamente importante. O simples fato de ser um partido da classe rica, sempre hegemônica dentro do sistema capitalista, é argumento capital para que não arraste nosso voto em sua direção. A análise de classe por isso é fundamental em nosso entender. A classe oprimida exige nosso voto sempre em seu favor.

Face à eleição do titular da Prefeitura para o próximo quadriênio, em texto redigido às pressas, que vai em anexo desta carta, faço um breve relato da História da Salvação do povo da rua, nesses últimos 30 anos. Descrevo um pouco a epopeia dos nossos lázaros em sua Caminhada rocambolesca, verdadeira história de libertação para eles e, naturalmente, para quem, do lado de fora da participação da rica experiência, "tem olhos para ver, ouvidos para ouvir e coração para sentir", parafraseando assim a própria linguagem de Jesus de Nazaré. É Ele o Mestre divino na arte de ler a transparência dos fatos, o divino que neles se revela. Por isso mesmo o Nazareno os chama sinais dos tempos, sempre fatos e acontecimentos que, para os sem fé, não passam de simples fatos de história humana universal.

Em síntese, o único partido que, em Porto Alegre, colocou no centro de sua ação de governar, a categoria mais carente da população, o chamado povo da rua: carroceiros, carrinheiros, catadores em geral, foi o partido que as comunidades eclesiais de base, a catequese da libertação, a teologia da libertação e a pastoral da Ecologia da Igreja Católica ajudaram a construir, antes, durante , e depois da época da ditadura militar. Houve deslizes no partido? Como toda organização terrestre não é nem de anjos, nem de santos, mas de pecadores. Onde se viu que quando qualquer ferramenta apresenta defeito, só por isso jogá-la fora e comprar nova ferramenta? Já erramos no passado quando um monge católico, abandonou nossa mãe-Igreja para fundar uma outra que se dividiu em centena de outras. Já acusaram o modelo de Igreja dos Pobres queria ser, pelo simples fato de se auto-denominar Igreja dos Pobres, era uma segunda Igreja. Nada disso nós nunca pensamos em tal. O que sempre quisemos e continuamos querendo é que nossa Igreja seja uma Igreja Pobre. Transformação que ainda não conseguimos de todo, apenas de uma parte e ainda minoritária.

Nosso receio, o povo dos porões e da despoluição do Planeta, em relação a uma possível reeleição da atual administração da cidade é imenso. Basta o simples fato emblemático da chapa proposta. O candidato a vice-prefeito da situação é o autor da famigerada "lei das carroças". Em preparação à copa do mundo, a atual administração decretou a higienização ou limpeza da cidade, o que significa a morte do povo da rua que, com investimento zero, fabricou o próprio emprego, fonte de sua própria sobrevivência e familiar. Essa "lei das carroças" defende posição totalmente contrária à promulgada pelo ex-presidente Luís Inácio da Silva que regula toda a política nacional em relação aos resíduos sólidos.

A lei do presidente Lula, para todo o país, consagra que até a própria coleta para trabalho coletivo ou individual deve estar em mãos do próprio catador, ainda que seja carroceiro ou carrinheiro.

Na linguagem do Movimento dos Sem Terra, criado pelas Comunidades Eclesiais de Base, hábeis na destoca para um roçado, a expressão: "A lei é o toco atrás do qual o latifundiário se esconde a fim de acabar conosco". Como gente pequena só consegue algo através de muita luta, enquanto o grande recebe tudo de mão beijada porque ele tem o dinheiro que é seu deus, o lema do MST é: A luta faz a lei.

Concluindo essa minha despretensiosa carta, sem interesse de espécie alguma, mas apenas de ser coerente. Da planície dos meus 85 anos de vida, adianto de que não disponho de nenhum outro título, de nenhuma outra comprovação de meus objetivos com esta carta aberta, a não ser o meu passado e a minha história de lutas em favor dos excluídos por excelência, tanto do campo como da cidade. Esta carta muito me será de auxílio na hora de cantar o meu nunc dimittis, a exemplo do velho Simeão.

Um grande e afetuoso abraço a todos os meus queridos irmãos na fé, desde o alto da hierarquia da nossa Igreja até as mais humildes pessoas de boa vontade.

Irmão Antônio Cechin, da Congregação dos Irmãos Maristas, em trabalhos de empoderamento popular, a serviço da Igreja.

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