Lehman Brothers: as 24h que mudaram o Ocidente rico

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05 Maio 2012

No dia 18 de maio, estreia [na Europa] o filme do novato J. C. Chandor que tem um mérito: conta os fatos, pela primeira vez, a partir de "dentro", ou seja, a partir do coração de um sistema que está prestes a entrar em colapso. O olhar se concentra nos pensamentos e nas palavras de um microcosmo autorreferencial.

A reportagem é de Massimo Giannini, publicada no jornal La Repubblica, 03-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"Lembrem-se desse dia, rapazes: será um banho de sangue...". Ainda faltam algumas horas antes do amanhecer de uma segunda-feira de setembro que irá mudar a história do Ocidente rico, e o experiente e muito bem pago gerente de risco de um dos maiores bancos de investimentos de Manhattan adverte os seus dois analistas financeiros mais jovens que o Grand Guignol do capitalismo global está prestes a começar.

O Big Crash planetário, desencadeado no dia 15 de setembro de 2008, com o colapso do Lehman Brothers, fará correr rios de sangue. Falências em cadeia, custando 2,5 trilhões de dólares em resgates públicos nos EUA, 1,2 trilhões de euros na Europa, 618 bilhões de libras esterlinas na Grã-Bretanha. Custos econômicos exorbitantes: 25 trilhões de dólares de perdas para as empresas em ações, quase a metade do PIB mundial de um ano. Custos humanos devastadores: 34 milhões de postos de trabalho queimados, e um exército transnacional de 212 milhões de desempregados.

Essa é uma das cenas principais de Margin call, o filme do novato J. C. Chandor, que tem um grande mérito: contar, pela primeira vez, a partir de "dentro", ou seja, a partir do coração de um sistema que está prestes a entrar em colapso, aquelas 24 horas fatais que abalaram o mundo.

Digo logo que essa operação me parece bem sucedida. O estilo cinematográfico pode parecer "mínimo". Mas é exatamente essa a tarefa à qual o filme se destina. Aqui, não há tempo para traçar o afresco epocal de toda uma civilização capitalista, com as suas riquezas exibidas e as suas misérias escondidas. Não há espaço para a dramatização embora magistral e envolvente dos dois míticos Wall Street de Oliver Stone. O olhar de Stone se estendia sobre toda a gama de comportamentos privados e dos mandamentos públicos daquelas que Paolo Volponi definiria como as "moscas do capital", tanto quanto o de Chandor se concentra sobre os pensamentos e as palavras de um microcosmo autorreferencial que o mundo sequer vê, mas que fará com que o mundo pague o preço da sua volatilidade moral e da sua desonestidade profissional.

O épico irresistível de Gordon Gekko-Michael Douglas, construído sobre a força dos animal spirits schumpeterianos e sobre a arrogância de uma classe dominante, no entanto, abre espaço para a ética muito resistível de Sam Roger-Kevin Spacey, baseada na fraqueza do espírito humano e na inconsistência de uma classe dominante que, diante do dinheiro, não sabe dizer um único "não".

A dimensão temporal do filme se encerra inteiramente em uma noite. Exatamente no dia em que é demitido juntamente com outros 80 colegas, o "analista de risco" Eric Dale (Stanley Tucci) descobre uma gigantesca bolha no seu banco de investimentos, que tem na barriga uma quantidade enorme de títulos tóxicos e que já esteve várias vezes abaixo das margens de segurança fixadas pelo mercado.

Até agora, ninguém havia se dado conta, mas a bolha está prestes a explodir: quando o mercado entender, o banco irá acumular uma montanha de perdas, superiores à sua capitalização na Bolsa, e o calote será inevitável.

Assim começa a noite mais longa. A cadeia de comando se põe em movimento para "resolver o problema". Na hierarquia empresarial, há um extraordinário Paul Bettany, no papel de um Will Emerson inescrupuloso que, como o androide de Blade Runner, "em dez anos aqui dentro, eu já vi coisas que vocês nem imaginam".

Há um atormentado Kevin Spacey, que chora porque o seu cachorro "está morrendo de câncer de fígado", mas que demite 80% dos seus empregados, dizendo aos sobreviventes que "agora vocês têm uma grande oportunidade, porque mandamos para a rua três de cada sete daqueles que estavam entre vocês e o seu chefe".

Há um glacial Simon Baker, no papel do vice-presidente Jared Cohen, que os seus submissos definem como um "um verdadeiro assassino". Há uma resignada Demi Moore, que, no papel de uma fragilíssima Sarah Robertson, rendeu-se às escolhas dos superiores, embora sabendo que isso não lhe bastaria para salvar o seu posto de trabalho.

E, finalmente, há um convincente Jeremy Irons, o chefe-executivo de "86 milhões de salário anual" John Tuld, que voa de helicóptero às duas da manhã sobre o arranha-céus do banco de investimentos e que já tem a solução no bolso: "Vendamos tudo", porque "esse é só o começo" e porque "farão muito dinheiro com essa bagunça".

A dimensão física do filme se esgota no perímetro quase claustrofóbico dos escritórios bancários. Chandor sugere a ideia de uma desconexão irredutível entre a vida real e a artificial vivida pela "casta" dos sacerdotes do dinheiro, que observam a noite de Manhattan do alto do seu arranha-céus, sem ver e sem entender os humores e os rumores não só da Big Apple que não dorme nunca, mas também de todo o universo que está ao redor.

Em uma das duas únicas incursões fora do templo do Capital, o jovem dealer Peter Sullivan diz ao amigo, enquanto correm de carro em direção à Uptown: "Olhe para essas pessoas. Elas não têm a menor ideia do que vai acontecer...".

O fim já está escrito. Ao amanhecer, o banco vende os seus títulos podres para os clientes mais afeiçoados. O vírus mortal é inoculado, como quer o cínico Tuld (nomen omen: o CEO do Lehman chamava-se Richard Fuld). O sangue começa a escorrer. Ninguém soube se opor a uma decisão que mudará para sempre o curso das finanças globais. No entanto, cada um poderia ter feito isso.

Esta é a verdadeira mensagem de Margin call: o que aconteceu e continua acontecendo na bancarrota financeira e social dos últimos anos parece estar escrito em um roteiro coletivo que responde a regras imutáveis. Mas, ao invés, é a soma das escolhas ou das não escolhas de muitos indivíduos, que não sabem resistir às suas tentações ou às suas frustrações.

Isso vale em toda parte: no maior banco de investimentos norte-americano, como na menor empresa italiana. Pouco antes que a "tempestade perfeita" comece, Dale pergunta a Robertson: "Então você aceitou a proposta deles? Mesmo que lhe mandem para a rua?". Sarah responde: "Eu acho que não havia outra escolha". E Eric. "É verdade, nunca parece que há uma outra escolha...".

No entanto, no capitalismo, assim como na vida, sempre há uma outra escolha. Trata-se apenas de querer fazê-la.

Nota: O filme Margin Call será exibido e debatido no IHU nos dias 14, 15 e 22 de maio. Confira a programação: http://bit.ly/HOXwyO

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