Evangelho: o futuro está para além da Europa. Artigo de Hans Joas

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20 Dezembro 2013

Hans Joas (1948) é um dos sociólogos mais conhecidos na Alemanha, professor da Universidade de Chicago e ex-diretor do Max-Weber-Kolleg de Erfurt de 2002 a 2011. Na Itália, publicou Abbiamo bisogno della religione? (Rubbettino 2010) e, agora, pela editora Queriniana, La fede come opzione. Possibilità di futuro per il cristianesimo (editado por Paolo Costa, 276 páginas), do qual temos publicamos aqui um trecho de suas conclusões.

No livro, o estudioso examina o fenômeno da secularização a partir de pontos de vista incomuns e responde a perguntas como, por exemplo, se a modernidade inevitavelmente leva à decadência moral, chegando a teorias imprevisíveis e contracorrentes em que ele analisa a situação sem nostalgias estéreis.

O artigo foi publicado no jornal Avvenire, dos bispos italianos, 18-12-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

"Eram tempos belos, esplêndidos, quando a Europa era um país cristão, quando uma única cristandade habitava esta parte do mundo, moldada de modo humano; um único, grande interesse comum unia as mais distantes províncias deste amplo reino espiritual". Estas são as célebres frases introdutórias de um dos escritos programáticos mais influentes do primeiro Romantismo alemão, isto é, do fragmento Cristandade ou Europa, de Novalis, escrito em 1799.

Uma concepção totalmente particular e totalmente nova do passado, do presente e do futuro aflora do seu texto sugestivo. Quanto ao passado da Europa, ele é imerso, com o tom nostálgico das fábulas, em uma luz que lembra a idade de ouro. A Idade Média, especialmente, aparece retrospectivamente como uma época caracterizada por uma cristandade homogênea. Ao invés, o presente é descrito de modo extremamente crítico. Nele, reinariam o egoísmo, um racionalismo sufocante, e interesses materiais ditariam leis. A causa principal dessa triste situação e dessas perdas pareceriam residir na secularização da Europa.

Quanto mais desolado é o quadro do presente pintado por Novalis, ainda mais luminoso é o olhar lançado sobre o futuro. Ele prevê o advento de um Estado europeu supranacional, que será mantido unido por um cristianismo renovado, superará a sua divisão confessional e, com espírito cosmopolita, não excluirá outras partes do mundo, mas convidará à convivência pacífica. Muito importante aqui, para ele, é o fato de que esse cristianismo renovado não estará mais "irreligiosamente fechado dentro das fronteiras estatais", mas saberá manter a sua distância dos interesses de cada Estado individual.

Vale a pena se perguntar brevemente como devem ser julgadas hoje as três afirmações fundamentais de Novalis. A Europa foi alguma vez uniformemente cristã? Hoje ela está completamente secularizada? O seu futuro será o futuro de um cristianismo renovado ou o cristianismo emigrará das suas fronteiras?

À primeira pergunta parece-me que devemos responder com um claro "não". Ninguém hoje contesta mais a ininterrupta importância da religião judaica na história europeia. E nem o Islã se tornou parte da Europa apenas com a imigração de mão de obra ao longo das últimas décadas, mas, ao contrário, tem uma longa história europeia, sobretudo na Península Ibérica e nos Bálcãs. Além disso, práticas e ideias religiosas pré-cristãs continuaram sendo vitais desde o fim da Idade Média, especialmente em grandes partes da Europa setentrional e oriental.

A cristianização de alguns países, por exempo a Lituânia, ocorreu apenas no século XIV. A assimilação do cristianismo continuou sendo influenciado por um longo tempo, talvez até hoje, pela específica religião pré-cristã da população. Os antigos politeísmos (especialmente os gregos e romanos) não fizeram sentir a sua influência apenas uma vez na história europeia da religião e da cultura, ou seja, no Renascimento, mas foram uma contínua fonte de inspiração ou um desafio.

Falar de um cristianismo unitária significa, além disso, perder de vista a sua intrínseca heterogeneidade. Da Reforma protestante e da consequente divisão da Igreja em diante, o caráter dramático da relação entre as diversas formas de cristianismo tornou-se evidente. Mais importante no nosso contexto é o fato de que não foi apenas a Reforma protestante que teve a consequência não desejada do pluralismo. A separação entre a cristandade ortodoxa e a latina já havia ocorrido séculos antes.

Além disso, na Idade Média, a Igreja latina se caracterizou por uma notável multiplicidade interna e teve que enfrentar continuamente os chamados movimentos heréticos. E, por fim, o advento da "opção secular" (Charles Taylor), ou seja, a crescente possibilidade de dispor de imagens do mundo independentes da fé religiosa, constitui um passo adiante substancial na direção do pluralismo, já que a reação às novas imagens seculares do mundo pode imprimir, por sua vez, um novo impulso a novas secularizações ou tornar as pessoas mais disponíveis a adotar tradições religiosas orientais – nesse caso, portanto, também não estamos lidando apenas com a secularização.

Por isso, é preciso imaginar a Europa como um continente indubitavelmente rico em tradições de pluralismo religioso. A Europa, se poderia dizer de maneira resumida, nunca foi unitariamente cristã, assim como o cristianismo nunca foi apenas europeu. Quando nos deixamos levar pelo entusiasmo de um Ocidente cristão, esquecemos que o cristianismo não apenas não teve origem na Europa, mas também que, no início, ele se difundiu através de múltiplos caminhos, alguns dos quais postos às margens extremas da Europa ou que levavam para longe dela (Armênia, Geórgia, os coptas, a difusão para a Índia ou dos nestorianos até a China). Não é por acaso que hoje, na era da globalização do cristianismo, tomamos mais consciência dessa história esquecida ou "perdida".

À segunda pergunta – se a Europa já é amplamente secular – devemos responder hoje afirmativamente, com mais confiança do que nos tempos de Novalis. Olhando para trás, ficamos surpresos ao notar que, por volta de 1800, o espírito do tempo via a religião na defensiva em diversas partes da Europa. A situação atual é extremamente heterogênea. Hoje, a Europa é efetivamente muito secularizada em alguns países, e, com poucas exceções, mesmo nos países mais secularizados, partes substanciais da população pertencem a agrupamentos religiosos, compartilham verdades de fé e participam, ao menos ocasionalmente, de práticas e ritos religiosos.

Quanto ao futuro, eu arrisco algumas previsões com grande prudência: principalmente as dissoluções – mas também as novas formações – de ambientes animados por um espírito religioso e a grande importância da migração para a Europa para a situação religiosa do continente. Obviamente, igualmente importante é o renascimento religioso nos países pós-comunistas, em que é possível constatá-lo (Rússia, Romênia).

Deve-se ressaltar o fato de que o questionamento da ideia de que a modernização leva necessariamente à secularização, sem dúvida, descerra novas possibilidades para a fé. Em todo caso, o futuro da Europa não será, nas próximas décadas, o tempo de um cristianismo renovado, mesmo que se tivesse que chegar a tal renovação.

O futuro da Europa será um futuro multirreligioso e deve se caracterizar por uma nova abertura recíproca dos crentes e dos não crentes, posto que eles concordem acerca das orientações fundamentais, em termos de valores, do universalismo moral.

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