OGM. Estudo polêmico é excluído de revista

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Por: André | 20 Dezembro 2013

Trata-se, como pretende, do resultado de pressões exercidas pela Monsanto? O biólogo Gilles-Eric Séralini (Universidade de Caen) anunciou, em 28 de novembro, durante uma coletiva de imprensa em Bruxelas, que seu trabalho sobre os efeitos de longo prazo (dois anos) de um milho transgênico (o NK603) e de seu herbicida associado (o Roundup) estava para ser retirado da Food and Chemical Toxicology, revista que aceitou sua publicação em setembro de 2012. O editor Elsevier, proprietário da publicação, confirmou a retirada algumas horas depois.

A reportagem é de Stéphane Foucart e publicada no jornal francês Le Monde, 29-11-2013. A tradução é de André Langer.

Esta medida, tomada pelo comitê editorial do periódico, apaga da literatura científica o conjunto de resultados e dados dos trabalhos do pesquisador francês. Estes haviam provocado uma tempestade midiática ao sugerir que o consumo por ratos do NK603 e/ou do herbicida ao qual se torna tolerante, provocava o aparecimento de tumores nos animais, tais como: distúrbios no fígado e nos rins.

“Preocupação em relação ao baixo número de animais por grupo”

É numa carta de 19 de novembro que Wallace Hayes, encarregado editorial da revista, anuncia a Séranini sua intenção de retirar o controverso estudo. Hayes reconhecia na carta que o trabalho do pesquisador francês “não tem sinais de fraude ou de má interpretação de dados”. “Entretanto, acrescenta, existe uma causa legítima de preocupação em relação ao pequeno número de animais por grupo, assim como sobre a raça escolhida”. Assim, continua a carta, a retirada do estudo é motivada por seu caráter “não conclusivo”.

De fato, o estudo não convenceu a comunidade científica competente e todas as experiências coletivas feitas sobre estes trabalhos concluíram seu caráter “não conclusivo”. Mesmo assim, a Agência Nacional de Segurança Sanitária da Alimentação, do Meio Ambiente e do Trabalho (Anses) pediu a realização de estudos similares, e os testes regulamentares devem ser realizados em 90 dias... Recursos financeiros europeus e nacionais foram destinados a este fim.

Séralini e sua equipe contestam violentamente a retirada do seu estudo e ameaçam inclusive levar a revista à Justiça. De acordo com as regras em vigor na Food and Chemical Toxicology, a retirada de um artigo só pode ocorrer em caso de “falha ética”, “plágio”, “publicação anterior” ou “conclusões não confiáveis, seja por fraude, erros de boa fé (erro de cálculo, erro experimental)”. O pesquisador francês insiste em que o aspecto contestado do seu trabalho – isto é, o protocolo experimental em si – não entra em nenhuma dessas categorias.

Suspeita de pressão da indústria das biotecnologias

Séralini vai mais longe e suspeita da indústria das biotecnologias de terem feito pressão para obter a retirada de seu estudo. O pesquisador francês cita a entrada no comitê editorial da revista, no começo de 2013, do toxicólogo Richard Goodman, professor na Universidade de Nebraska (Estados Unidos) e ex-funcionário da Monsanto.

Perguntado pelo Le Monde, Hayes garante que Goodman não está associado à peritagem crítica que levou à retirada do estudo. “Séralini não pode ignorá-lo – acrescenta Hayes –, porque ele sabe que assinou o acordo de confidencialidade que assinamos a fim de analisar alguns dos seus dados não publicados”.

Além da retirada do seu estudo, Séralini diz também ter sido objeto de “pressões pessoais insuportáveis” desde a publicação de seus trabalhos. Ele foi associado, especialmente nos sítios de internet, a um movimento sectário próximo ao esoterismo cristão – essas difamações foram retomadas pela imprensa nacional.

A eurodeputada Corinne Lepage, mas também a Associação Gerações Futuras, a Fundação Ciências Cidadãs e a Ong Corporate Europe Observatory (CEO), de Bruxelas, associaram-se ao biólogo francês para denunciar a influência do mundo industrial sobre as revistas científicas. “As pressões para a ‘despublicação’ do estudo do professor Séralini mostram até que ponto a indústria das biotecnologias está decidida a controlar inclusive a produção científica – declarou Lepage. Assistimos a uma verdadeira tomada do poder dos lobbies e isso é extremamente preocupante para as nossas sociedades”.

Hayes responde que o comitê da Food and Chemical Toxicology é “equilibrado” com “cientistas provenientes dos governos, das indústrias e da academia”.

Não é certo que a entrada de Goodman ao comitê editorial da revista tenha sido determinante para estabelecer um viés pró-indústria em seu interior. Toxicólogo, Wallace Hayes é, também ele, consultor e ex-vice-presidente da tabagista RJ Reynolds; entre os quatro managing editors encontra-se um outro consultor e um cientista empregado pela Pioneer. Quanto à toxicóloga no posto de review editor, Susan Barlow, também ela é consultora. O Le Monde revelou, em janeiro de 2012, que ela prestou serviços para a Philip Morris, aceitando que os executivos da tabagista abonassem um estudo publicado em 2001 com seu nome na Paediatric and Perinatal Epidemiology. O estudo nunca foi retirado...

Séralini recebeu também o apoio do matemático Paul Deheuvels (Universidade Pierre-et-Marie-Curie de Paris), membro da Academia de Ciências. Convidado para falar na coletiva de imprensa organizada em torno do biólogo francês, o estatístico fez um apelo para que a ciência seja produzida sem pressões exteriores.  O fato é engraçado quando se sabe que Deheuvels, climatologista cético notório, concedeu, em dezembro de 2010, em nome do Club de l’Horloge (próximo da extrema direita), o prêmio Lyssenko da “desinformação científica” ao climatologista Jean Jouzel, medalha de ouro do CNRS e um dos cientistas franceses mais citados.

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