Steve Biko, o outro herói da luta contra o apartheid

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17 Dezembro 2013

Segundo Nelson Mandela, ele havia sido o "primeiro prego no caixão do apartheid". Steve Biko, que morreu como mártir no dia 12 de setembro de 1977 nas mãos da polícia do regime racista de Pretória, repousa no pequeno cemitério de sua cidade natal, King William's Town, na província de Cabo Oriental.

Foto: Portal UOL


A reportagem é de Jean-Philippe Rémy, publicado no jornal Le Monde e reproduzido pelo portal UOL, 14-12-2013.

Foram necessários 20 anos até que, no aniversário de sua morte, para o qual mais de 20 mil pessoas se reuniram, fosse erguido um muro em torno do cemitério para impedir que as vacas da região fossem pastar a grama sobre os túmulos. Também foi lançada a ideia de se erguer um mausoléu, mas a família recusou, por considerar que Steve Biko não gostaria que o tirassem do grupo de camaradas enterrados como ele em seus modestos pedaços de terra.

Stephen Bantu Biko, conhecido como Steve Biko, belo rapaz de imensa personalidade e ideias lampejantes, é o outro grande ícone dos anos de luta da África do Sul (um país onde eles não faltam). Como se deve, ele morreu puro e cedo demais. Em sua modesta lápide nesse "jardim das lembranças" inaugurado por Mandela em 1997 figuram um punho erguido e as seguintes palavras: "One Azania, one nation" ("Azania", termo da Antiguidade para designar uma parte da África, é utilizado como sinônimo de África do Sul nos movimentos inspirados pelo Black Consciousness).

As ideias de Steve Biko nunca deixaram de circular na África do Sul, sendo agora passadas por uma fundação que trabalha em diversos setores, indo do apoio à leitura na township até a organização de diálogos entre grupos, cores, religiões e todo tipo de entidade pelo mundo inteiro, mas também conduzindo uma reflexão aprofundada sobre questões ligadas ao destino dos africanos por todo o planeta.

Um prédio novinho em folha foi erguido para abrigar essas atividades, a algumas centenas de metros de sua casa, onde ainda se encontra a bela escrivaninha com seu apoio de couro, onde Steve Biko trabalhou em alguns de seus escritos. Em King William's Town, no primeiro andar da fundação que leva seu nome, visitantes percorrem um museu que retraça a vida do mártir, enquanto adolescentes da região ensaiam em xhosa um espetáculo sobre o casamento e seus contratempos. Suas clínicas ainda existem e funcionam, assim como sua creche.

"Sempre se pensa em sua luta política, mas ele era também um homem que se interessava por artes, educação e desenvolvimento econômico", lembra Obenewa Amponsah, da fundação.

Steve Biko nasceu no dia 18 de dezembro de 1946 e viveu parte de sua vida em Ginsberg, a township de King William's Town, que deve seu nome ao dono da fábrica de velas instalada no local no início do século 20. Ginsberg não gostava que seus empregados fossem muito longe quando eles não estavam na fábrica. Ele conseguira com que a administração municipal mandasse construir as primeiras casas desse bairro que, ao longo dos anos, se tornou um foco de protestos.

Foi em uma dessas casinhas que Steve Biko cresceu, depois de ter perdido seu pai prematuramente, ao lado de sua mãe Alice, que trabalhava como cozinheira no hospital vizinho, criando seus filhos de cabeça erguida apesar das adversidades. Uma modéstia que jamais enfraqueceu, mais um exemplo desses heróis anônimos produzidos pela África do Sul, esse país impossível onde o horror e o sublime se misturam sem avisar.

Crítico dos progressistas brancos mais adeptos do protesto prudente do que do de risco, que teriam deixado o apartheid sobreviver se tivessem lhes confiado as chaves da luta, Steve Biko iria ao mesmo tempo forjar um pensamento, investir em sua comunidade e inspirar uma grande parte da juventude negra do país.

A insurreição de Soweto, em 1976, quando o movimento anti-apartheid parecia estagnar, esteve na base de um movimento de jovens colegiais que se ergueram contra a educação sucateada em afrikaans, mas também fortemente influenciados pelas ideias do Black Consciousness. As townships se exaltaram e o CNA (Congresso Nacional Africano) retomou o controle do movimento. Dezenove organizações foram banidas (além das que já o eram, como o CNA), e Steve Biko foi condenado à prisão domiciliar em Ginsberg.

No dia 18 de agosto de 1977, ele foi detido em um bloqueio policial perto de King William's Town, enquanto circulava em um veículo. A prisão domiciliar incluía a proibição de se encontrar dentro de um recinto com mais de uma pessoa por vez, quanto mais viajar pelo país. Steve Biko foi transferido para Port Elizabeth, onde veio a sofrer toda a violência das forças policiais.

Talvez os serviços de inteligência tenham sido informados da preparação de uma viagem secreta que ele faria (com aterrissagem clandestina de avião) para a vizinha Botswana, com o intuito de se encontrar com o líder do CNA exilado, Oliver Tambo, e estudar as possibilidades de colaboração entre as organizações.

De qualquer forma, depois de ter sido espancado selvagemente, com o rosto já desfigurado, Steve Biko foi jogado, nu e provavelmente inconsciente, na traseira de uma Land Rover e transportado a 1.200 quilômetros de lá, em Pretória, até uma outra prisão abjeta, onde sua morte foi anunciada no dia 12 de setembro.

A foto que Donald Woods, redator-chefe do jornal local, "The Daily Dispatch", tirou de seu corpo no necrotério, e publicou na primeira página com a legenda "Nós saudamos um herói da nação", rodou o mundo. Donald Woods foi obrigado a fugir da África do Sul. E Steve Biko se tornou uma das grandes figuras do movimento anti-apartheid.

E se Steve Biko estivesse vivo, será que a África do Sul seria diferente? "Se Steve Biko ainda estivesse vivo, ele estaria morto", responde Samdille Ziralala, que conduz visitas por sua pequena casa em Ginsberg. Como costuma ser na África do Sul, é um paradoxo só na aparência. "Considerando o que se tornou o CNA, que nós chamamos de "máfia", com seu enriquecimento e sua corrupção, e sabendo que Steve Biko não teria permanecido em silêncio diante disso, teriam mandado matá-lo".

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