''O futuro das cidades passa pela solidariedade''. Entrevista com Jean-Christophe Rufin

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22 Outubro 2013

Para o escritor Jean-Christophe Rufin, o espaço urbano é o lugar em que se chocam os individualismos. Mas para viver bem com os outros é preciso menos consumismo, mais civilidade e solidariedade.

Publicamos aqui um trecho da entrevista concedida ao L'Atlas des villes, copublicado pela revista La Vie e pelo jornal Le Monde.

A reportagem é de Chantal Cabé, publicada no sítio da revista La Vie, 17-10-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Em que medida a vida na cidade é sinônimo de civilidade?

O ser humano que vive na cidade é levado a encontrar outras pessoas que não são seus semelhantes. Portanto, ou os enfrenta, ou, se quiser viver com eles, elabora algo que, graças ao diálogo, está na ordem se não da verdade, ao menos da verdade comum. É a própria origem da civilidade. O termo polis significa, em grego antigo, "cidade" e é constitutivo do pensamento grego. Mas o coração desse pensamento é o diálogo, o intercâmbio, graças ao qual se busca alcançar a verdade. É justamente característico daquilo que vive o habitante da cidade. Soma-se a isso uma certa cortesia de modos, uma benevolência com relação ao outro, especialmente se estiver na miséria ou no infortúnio. Certamente, essa ajuda mútua existe também no campo, mas na cidade ele se exerce para com pessoas que são diferentes de nós mesmos e que também pode ser estrangeiras.

A partir do século XIX, desenvolve-se a ideia de que a vida no campo é mais sadia do que na cidade. Esse juízo de valor lhe parece justo?

No século XVIII, com o pensamento iluminista, faz-se apologia das cidades pela sua sociabilidade (a conversa, os salões, as novas formas sociais de comunicação e de cultura) e pela sua responsabilidade política. No século XIX, duas correntes vão contribuir para reabilitar (e para idealizador) o campo: o romantismo, admirador das cascadas, das escuridões das florestas, e o positivismo, promotor das ciências e do higienismo. O enraizamento no território concorre para forjar um modelo ideal de campo. Evidentemente, isso não faz sentido, porque a expectativa de vida não é mais alta no campo. Lá também se pode morrer de maneira trágica. Basta olhar para o efeito de pesticidas sobre os agricultores. A ideia de um campo como fonte de saúde continua forte nas populações contemporâneas, em sua maior parte provenientes do êxodo rural. Na realidade, o enraizamento e a eternidade das coisas inscritas nas paisagens com relação  ao cosmopolitismo das cidades e à sua abertura ao futuro são duas visões que hoje se completam ao invés de se opor.

Insegurança, violência, poluição, densidade excessiva... a cidade é o receptáculo de todas as misérias?

É impossível falar sobre isso de maneira global. A cidade tem uma história, um destino, épocas que a transformam. A própria cidade pode ter sido em um primeiro momento um lugar muito harmonioso, com a descoberta dos recursos minerais e o estabelecimento de indústrias. Depois, em um segundo momento, tornou-se poluída e poluente. E, em um terceiro momento, tornou-se novamente cidade-jardim, como as cidades mineiras do Norte e do Leste da França. Do mesmo modo, cidades hipermodernas na origem, como Detroit nos Estados Unidos, tornam-se cidades em crise, criminógenas, após o colapso da indústria que as sustentava. Outro exemplo na França é a cidade da minha infância, Bourges. Ela se preservou da modernidade por todo o século XIX, rejeitando a ferrovia e a fábrica Michelin. Tais decisões empobreceram a cidade, mas permitiram que se preservasse um núcleo histórico que não mudou desde a Idade Média. Hoje, a cidade se lançou em uma modernização extensa, mas pode alavancar o seu patrimônio intacto para reforçar a sua capacidade de atração turística. São essa vida e essas épocas posteriores que tornam a cidade apaixonante.

A segregação é uma fatalidade para o mundo urbano de amanhã?

Eu temo que sim, infelizmente. De fato, a menos que se volte a formas autoritárias de escolha do alojamento – como na União Soviética ou no tempo do apartheid, o que evidentemente eu não desejo –, uma segregação sutil e muito difícil de combater ocorre naturalmente entre os habitantes por causa dos preços, da vizinhança etc. Nos Bálcãs, conta-se uma historinha. Um sérvio e um cigano moram um ao lado do outro em duas casas iguais. Cada um faz a estimativa da própria casa. O sérvio diz: "Minha casa vale 100 mil euros". E o cigano: "A minha vale 200 mil". O sérvio rebate: "Não é possível! Ela é idêntica!". O cigano responde: "Sim, mas eu não tenho um vizinho cigano!". Isso não significa que não se possa fazer nada para conter essa tendência. É o papel ambíguo do Estado nas sociedades liberais.

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