Francisco e o destino da modernidade. Artigo de Mauro Magatti

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04 Outubro 2013

O papa parece criar um espaço de diálogo novo. Onde crentes e não crentes possam se reencontrar. A grande arte de Francisco é saber fazer isso em um nível que não é intelectual. Ele fala diretamente à vida, que é de todos, do rico e do pobre, do culto e do ignorante.

A opinião é do sociólogo e economista italiano Mauro Magatti, professor da Universidade Católica de Milão, em artigo para o jornal L'Unità, 02-10-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

As notícias que, nestes anos difíceis, chegam do mundo suscitam grandes apreensões: focos de guerra e de violência, uma crise econômica que não se consegue domar e que afeta duramente as mulheres e os mais fracos.

Acrescentam-se democracias em dificuldade – e não só na Itália, mas também nos EUA –; fatos dramáticos, como as recentes e trágicas mortes dos jovens etíopes nas praias sicilianas; vidas esquecidas de tantos idosos que se deslocam como sobreviventes pelas ruas das nossas cidades ou de tantos jovens que, juntamente com o trabalho, têm o seu futuro negado.

O quadro não é totalmente sombrio, ainda bem. Há muitos que constroem, que trabalham pela paz e pela justiça, que reagem à perda do sentido. Mas não se pode negar que o tempo que nos toca viver está repleto de incógnitas. A crise econômica de 2008 nos inseriu, definitivamente, no século XXI, que se destaca com as suas dinâmicas tão diferentes das do período histórico às nossas costas. Para além da propaganda cotidiana, sabemos muito bem que o problema não é voltar atrás – o que, além de ser impossível, não é nem desejável –, mas sim entender como seguir em frente, como imaginar e realizar o nosso futuro.

É nesse marco de profunda mudança histórica que deve ser colocada a figura de Francisco, o primeiro papa não europeu, tão distante das lógicas estreitas da nossa política e das preocupações mundanas de uma grande parte da Cúria. Com a sua eleição, aconteceu algo semelhante à eleição de Wojtyla. À época, a história do papa polonês se entrelaçou com a queda da União Soviética. Hoje, a do papa sul-americano se cruza com os destinos da globalização.

Francisco sabe que a sua tarefa é, acima de tudo, renovar a Igreja. É esse o significado do nome que ele escolheu. Ele quer renová-la não só porque conhece os muitos problemas que a deixaram doente, mas também porque, nunca como neste momento, há uma enorme necessidade de uma Igreja renovada. O mundo de hoje, de fato, parece perdido.

Parece-me encontrar aqui a chave de leitura do modo de proceder do pontífice e da sua disponibilidade ao diálogo com a modernidade. Estamos todos juntos no mesmo barco: a história do homem e da sua liberdade. A Igreja também, nessa década, sentiu dolorosamente o peso da história que avança, com as suas conquistas e os seus fracassos. Ela não é imune às transformações que investem sobre a condição humana comum. Ao contrário de outros, porém, a Igreja não se cansa de denunciar que muitos dos nossos problemas decorrem de algumas distorções que se produziram ao longo do caminho que, laboriosamente, o homem moderno está percorrendo.

À sua Igreja, Francisco parece pedir que olhe com mais amizade e envolvimento para o destino da modernidade. Que não diz respeito aos outros (os não crentes). Mas que envolve a todos nós. Justamente porque leva em consideração os destinos do humano, a Igreja não pode se limitar a julgar o mundo. Quase como se estivesse fora dele. Mas ela se sente profundamente envolvida nele, partindo naturalmente do ponto de vista que, para um cristão, é o privilegiado: o dos pobres e dos últimos, não apenas no sentido material. Desse ponto de vista, Francisco não muda, com relação aos antecessores, o seu juízo sobre o mundo. O que muda é somente a abordagem, na convicção de que isso possa se revelar mais profícuo para todos. Segundo o ensinamento do Concílio Vaticano II.

Ao mesmo tempo, àqueles que se declaram não crentes, Francisco pede que compartilhem as suas preocupações e as suas apreensões por uma humanidade perdida. E que corre o risco de ser esmagada por esses mesmos sistemas que deveriam protegê-la e colocar-se a seu serviço. Francisco quer provocar a soberba do homem que se sente completamente autônomo, que deixa de se fazer perguntas, que se fecha em uma imanência absoluta. Justamente como o seu irmão gêmeo religioso, o fundamentalista antirreligioso, ele é igualmente cego e não reconhece mas nem mesmo a realidade.

Francisco, assim, parece criar um espaço de diálogo novo. Onde crentes e não crentes possam se reencontrar, para além das barreiras ideológicas, a fim de pôr em comum a sua visão do mundo e, sem fingimentos, interrogar-se em torno da condição humana comum.

A grande arte de Francisco é saber fazer isso em um nível que não é intelectual. Francisco fala diretamente à vida, que é de todos, do rico e do pobre, do culto e do ignorante. Um plano em que todos podemos ser envolvidos como membros de um povo que caminhar pelos caminhos da história. As primeiras reações – e não podia ser de outra forma – sublinham as implicações que as ideias de Francisco parecem poder ter sobre a Igreja Católica e sobre a sua renovação. Que é mais do nunca necessária.

Mas não deve escapar de ninguém que a grande abertura de Francisco precisa encontrar igual disponibilidade também no mundo dos não crentes, em que muitas vezes prevalece um rígido fechamento com relação às perguntas latentes do nosso tempo. Aos não crentes, Francisco pede que se reflita sobre a dramaticidade da nossa condição e se reconheça que há algo de errado com as vicissitudes modernas.

Se ele tiver êxito nessa dupla intenção, Francisco alcançará um resultado extraordinário. Mas é muito difícil que ele consiga fazer isso sozinho. O seu apelo é lançado a todos os homens de boa vontade. A nós, cabe a tarefa de acolhê-lo e de responder positivamente, aceitando caminhar na mesma estrada.

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