Discurso de D. José Maria Pires, ao receber titutlo honoris causa da Universidade Federal da Paraíba

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02 Outubro 2013

"Já é muito ter terra, ter pão e ter instrução. Mas não basta. Fomos feitos para viver em sociedade. Ninguém é feliz sozinho. Deus que é um só não é solitário, Ele subsiste na trindade de pessoas. A Universidade cumpre também essa função social enquanto não só reúne e desenvolve ramos diversos do saber, mas também forma as pessoas para viverem em sociedade na qual cada um deve contribuir de acordo com sua capacidade e tem direito de receber de acordo com sua necessidade. Realiza assim, o ideal da educação que consiste no desenvolvimento de todas as potencialidades do indivíduo", afirma D. José Maria Pires, arcebispo emérito da Paraíba, ao receber titutlo honoris causa da Universidade Federal da Paraíba.

Eis o texto.

Magnífica Reitora da Universidade Federal da Paraíba,
em quem saúdo todos os professores e professoras, autoridades e convidados presentes,
Minhas Senhoras e meus Senhores:

Recordo-me da primeira vez que participei de uma solenidade de formatura nesta Universidade. Foi em 1966. Eu era recém chegado à Paraíba onde iniciei meu ministério a 27 de março daquele ano. Fui eleito paraninfo geral das turmas concluintes e me lembro bem da oradora escolhida por todas as turmas, a concluinte de Serviço Social Luiza Erundina. Naquela época a juventude universitária era atuante e organizada o que não era do agrado do sistema ditatorial implantado no Brasil havia dois anos. Vários jovens formados por esta Universidade não conseguiam trabalho em razão de suas opções político-ideológicas. A oradora da turma era desse número. Fez concurso, foi aprovada, mas não conseguiu ser contratada aqui. Pesarosa de não poder atuar em sua terra natal, foi para São Paulo onde fez concurso novamente foi aprovada e logo contratada pela Prefeitura como assistente social. Inteligente e de grande sensibilidade frente aos problemas sociais, conquistou a simpatia dos mais simples e chegou a ser eleita Prefeita de São Paulo e escolheu Paulo Freire como um de seus principais auxiliares.

Muitos outros jovens universitários daquele período tiveram sorte semelhante ou ainda pior. Frei Beto, líder estudantil, Frei Carlos Josaphat, meu colega de Seminário e a nossa Presidente Dilma Roussef aí estão, entre muitos outros supérstites daquela época, para testemunhar a força aguerrida da Juventude Universitária daquele período. Hoje é outro o tempo e é outro o quadro sócio-político.

O Brasil reconquistou a liberdade para todos os seus filhos e para os estrangeiros que aqui aportam. A universidade recuperou sua autonomia e pôde desenvolver suas atividades sem interferência do poder político, atenta ao desenvolvimento social de toda a comunidade valorizando a sabedoria popular, especialmente nas áreas de alimentação e saúde.

A Universidade Federal da Paraíba chegou a promover encontros de curandeiras e de pessoas que preparavam remédios caseiros com folhas, sementes e raízes desta terra. Traziam o material que usavam, a Universidade os analisava em seu laboratório na presença dos interessados que tomavam assim conhecimento das dosagens adequadas de cada substância. Essas pessoas simples saíam daqui com um certificado que as credenciava para elaborar e comercializar certos tipos de alimentos e de medicamentos. A multimistura que uso em Belo Horizonte como primeira refeição do dia é fabricada em João Pessoa enriquecida com a variedade de nossa flora. A responsável pela produção chama-se Maria das Neves Oliveira que, para isso, tem certificado desta Universidade.

E não parou aí a ousadia –bendita ousadia- da nossa Universidade. Onde já se viu filho de agricultor cursar ensino superior sem deixar de ser agricultor? Pois a Universidade Federal da Paraíba vem realizando essa façanha! Jovens filhos de assentados passam parte do tempo na Universidade e outro período em atividades rurais junto de seus familiares para onde levam tarefas escolares a serem desenvolvidas juntamente com os trabalhos agrícolas comuns aos assentados. Nessa parceria campo-cidade a Universidade Federal da Paraíba pode servir de modelo e estímulo para outras regiões do Brasil. Não faz ainda um ano que 44 jovens e adultos provenientes de assentamentos de várias áreas do litoral e do sertão de nosso Estado se formaram em “Pedagogia do Campo”. Fui convidado para paraninfá-los, e o fiz com imensa alegria! Afinal, durante os trinta anos do meu episcopado aqui na Paraíba, apoiei as lutas dos agricultores pelo direito de permanecerem na terra em que trabalhavam, já tendo muitos deles, o direito de posse. Essa etapa ainda não se encerrou.

A luta pela posse da terra continua. Mas como sentencia a Bíblia que “não se vive somente de pão, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt. 4,4), a posse da terra deve completar-se com a posse do saber. Agora já podemos presenciar essa nova conquista da geração atual, motivo de júbilo para todos nós. Na Paraíba já não se luta apenas pelo direito à terra, mas também, pelo direito à educação. E nossa Universidade tem tido um papel decisivo na concretização desse objetivo. Quem acompanhou com atenção e simpatia a vida da Universidade nesses anos de sua existência a serviço de nossa gente, não pode deixar de reconhecer que ela cresceu e fez crescer. Inclusive para jovens oriundos de favelas ou da zona rural.

Já é muito ter terra, ter pão e ter instrução. Mas não basta. Fomos feitos para viver em sociedade. Ninguém é feliz sozinho. Deus que é um só não é solitário, Ele subsiste na trindade de pessoas. A Universidade cumpre também essa função social enquanto não só reúne e desenvolve ramos diversos do saber, mas também forma as pessoas para viverem em sociedade na qual cada um deve contribuir de acordo com sua capacidade e tem direito de receber de acordo com sua necessidade. Realiza assim, o ideal da educação que consiste no desenvolvimento de todas as potencialidades do indivíduo.

O fato de comungarmos deste mesmo ideal a Universidade Federal da Paraíba e este humilde servidor do Evangelho é que dá sentido a esta solenidade. Não atino com outro motivo que a pudesse justificar uma vez que, no meu histórico escolar, não há títulos universitários. Por isso recebo com orgulho o galardão com que a Universidade Federal da Paraíba me distingue. Passo a ser “doutor honoris causa” da Universidade que acompanhei muito de perto entre os anos de 1966 a 1995. Com ela mantive o melhor relacionamento mesmo nos anos da ditadura quando nem sempre permitiram que nos encontrássemos e colaborássemos.

Ao receber tamanha distinção, lanço de novo o olhar sobre o passado a que me referi e é lá que encontro algum motivo para a homenagem que me presta a Universidade Federal da Paraíba, concedendo o título de doutor a quem só obteve na vida um diploma: o de curso primário concedido pela Escola Urbana Monsenhor Neves, em Diamantina, Minas Gerais. É verdade que tive em meu currículo de vida outras distinções que não foram registradas em tinta e papel, mas conservadas na memória e guardadas no coração.

Meu pai terá sido o primeiro mestre que me ensinou o amor não com palavras, mas com o testemunho de uma vida íntegra e toda voltada para a família. Na minha infância, no lugarejo em que nasci, não tínhamos eletricidade, rádio, televisão e muito menos telefone. As comunicações se faziam pelo correio. Cartas e jornais só chegavam quando o estafeta vinha da cidade trazendo num animal as malas de correspondência. Muitos se reuniam à tardinha em frente à Casa Paroquial para ouvir as noticias que o Vigário ia lendo nos jornais recebidos. Nos domingos, após a missa das dez, a reunião era na casa da professora que era comadre de quase todo mundo. Aí se conversava e se trocavam informações.

Foi num desses domingos que eu, voltando da igreja, entrei na sala, interrompi a conversa das pessoas e disse alto e bom som: “Eu quero ser padre”. Foi uma gargalhada geral. E como eu insistisse na afirmação, a reação continuou indicando que ninguém me tomava a sério. Fiquei desapontado e ia começar a chorar. Foi aí que minha Madrinha de batismo me tomou à parte, me levou para o interior da casa e me disse. “José, você falou uma coisa muito séria”. E eu reafirmei: “Mas é porque eu quero mesmo ser padre”. Ela me falou: “Como é que você vai ser padre morando num lugar como esse, sem recurso, sendo você de uma família pobre?” Diante da minha insistência, minha Madrinha me disse: “Seu patrono é São José. Ele é também o padroeiro das vocações sacerdotais. Reze todo dia a São José. Ele vai encaminhar isso”. A partir de então, todas as manhãs, quando eu ia para a escola, passava na igreja que ficava aberta, me ajoelhava diante da imagem de São José e rezava: “São José, eu quero ser padre”. Levantava-me e ia para a escola.

Foi quando minha Madrinha precisou ir para Diamantina para tratamento de saúde e pediu a meus pais para que eu fosse com ela. Fui. Ocorre que nesse período, minha mãe teve um mal súbito e veio a falecer. Com a morte dela, eu fiquei definitivamente confiado à minha Madrinha que se aposentou e passou a residir de vez em Diamantina, onde terminei a escola primária e fui logo admitido no Seminário. Aqui termina a primeira fase de meu doutorado. Minha família, minha madrinha de batismo e minha terra natal que é chamada ”terra bendita e sacerdotal” em razão do grande número de sacerdotes ali nascidos, foram os articuladores dessa primeira fase.

A segunda etapa do meu doutorado foram os onze anos de Seminário.

O dia 25 de janeiro de 1931 ficou definitivamente gravado em minha memória e no meu coração. Quase não dormi naquela noite e, ao levantar-me, fui logo dizendo em alta voz: “Graças a Deus chegou o dia de eu entrar para o Seminário”. Éramos 23 os novatos que iniciávamos a primeira série ginasial. Quase todos procedentes de famílias pobres. Para fazer o meu enxoval que, entre outras peças exigia duas batinas (desde a entrada vestíamos batina que só tirávamos para o banho e para dormir) minha madrinha teve que pedir a ajuda financeira de pessoas amigas. Para o esporte, suspendíamos a batina e a prendíamos no cinturão. Tínhamos aula nos períodos da manhã e da tarde. Latim e Português eram as disciplinas principais. Tínhamos por semana cinco aulas de Latim, quatro de Português, três de matemática e de Frances e outras disciplinas com menos intensidade. Tínhamos também aula de civilidade (boas maneiras) e até de desenho, de caligrafia e de música (noções teóricas). Olhando à distância de mais de 70 anos, vejo que era exigente, mas quase completa nossa grade curricular. Das matérias mais importantes, a aula era precedida de uma hora de preparação.

Todos tínhamos um diretor espiritual com quem devíamos nos encontrar a cada mês. Ele não participava das reuniões em que os professores avaliavam o comportamento de cada aluno. O diretor espiritual é que ajudava seu dirigido a decidir se continuava no Seminário no ano seguinte ou se, convencido de que não tinha vocação para o sacerdócio, devia pedir seu desligamento do Seminário. Eram numerosas as desistências. Dos 23 que entramos no 1° ano, apenas cinco ou seis foram ordenamos sacerdotes.

Aqui termina a 2ª etapa do meu doutorado. Meus professores e meu diretor espiritual me consideraram aprovado para prosseguir e ingressar no Seminário Maior o que ocorreu no início do ano letivo de 1936.

A Filosofia fazíamos em dois anos com dedicação exclusiva: aulas pela manhã e à tarde. Livros em latim ou em francês. Era total a separação entre Seminário Maior e Menor. Não tínhamos atividades pastorais a não ser durante as férias. Antes das férias tínhamos encontro com o diretor espiritual que nos fazia as recomendações consideradas importantes. Entre elas, a assistência diária à santa missa, a recitação do terço e a visita ao Santíssimo Sacramento. No relacionamento com o povo, deveríamos ter o máximo cuidado para não faltar à prudência e ao decoro. Cuidado especial com a observância da castidade. E aí nosso Diretor sentenciava: “Cuidado com as mulheres. Também com as piedosas. Quanto mais piedosas mais perigosas.” O medo da mulher foi uma das marcas de nossa formação. Mulher não entrava no Seminário. Só homens cuidavam da cozinha e faziam a comida. Só homens atendiam a portaria e cuidavam da rouparia. Quando recebíamos visita de parentas nossas, elas não passavam da portaria ou do parlatório, como se dizia. Mesmo na festa de fim de ano, quando pais e parentes próximos eram admitidos, ficavam no mesmo auditório, mas em espaços diferentes. Como padres só deveríamos atender mulheres no confessionário e, durante as pregações, não deveríamos fixar o olhar nas pessoas, mas conservá-lo vago. Esses exageros piedosos de nossos diretores só consegui superá-los quando já sacerdote e diretor de colégio, tive que me aproximar de professoras e mães de alunos.

Em Governador Valadares, onde assumi a direção do Colégio Ibituruna, duas senhoras, mães de alunos, sentiram que poderiam ajudar-me e, em encontros na sala de visitas do Ginásio, faziam referências às minhas atitudes e reações durante as pregações, nas missas e no relacionamento com as pessoas. Trazendo aqui a memória dessas duas Senhoras da antiga Ação Católica, Myriam Graça Generoso Pereira e Maria Cecília Leite Uchoa, minhas mestras de naturalidade e de simplicidade no relacionamento com as pessoas, quero prestar homenagem a tantas mulheres que tornaram possível o exercício de meu ministério e me ajudaram a ser simples e humano na convivência com as pessoas. A elas, também, dedico esse doutorado.

Devo-o também ao Bispo que me ordenou padre, D. Serafim Gomes Jardim, àquele tempo Arcebispo de Diamantina. Como Diácono, acompanhei-o durante as Visitas Pastorais do ano de 1941. Nunca chamava a atenção de quem quer que fosse em público. Sempre dizia: “Tenho uma coisa importante a lhe dizer. Procure-me hoje à noite”.

Concluo essa volta ao passado com o testemunho de duas mulheres, minhas mestras em Teologia, ambas da Paraíba. A primeira foi uma religiosa. Chamemo-la Irmã Ambrosina. Pediram minha ajuda na identificação das causas que estavam dificultando o bom relacionamento na comunidade. Propus que se fizesse uma avaliação com a participação de todas as Irmãs. Depois de ouvi-las todas, dei o meu veredicto: É a senhora, Irmã Ambrosina, que está causando o mal-estar, devido a sua dificuldade de se integrar nos trabalhos da comunidade. A irmã adoeceu e teve que ficar de repouso. Uma de suas companheiras lhe disse: ’Você não tem motivo de ficar assim tão contrariada. O que o Bispo falou não é verdade?” Ao que ela respondeu: “Verdade era, mas ele não falou com amor”. Quase as mesmas palavras se encontram na Carta aos Efésios, onde o Apóstolo Paulo nos ensina: “seguindo a verdade em amor, cresceremos em tudo em direção Àquele que é a Cabeça, Cristo” (Efésios, 4,15). Aprendi que é sempre necessário impregnar de amor a verdade que se diz.

Meu doutorado se conclui com a lição de fé que me deu Anunciada, uma agricultora do interior da Paraíba, município de Mogeiro: Anunciada fora presa nos dias da Ditadura. O militar que a interrogou, perguntou quem orientava a comunidade da qual ela era dirigente. Ela respondeu que eram eles mesmos que combinavam tudo. E não havia outro dirigente. O militar insistiu: “Temos gravação de reuniões que vocês fazem. Vocês não têm capacidade para preparar essas reuniões. Quem de fora está orientando Vocês? Ela respondeu: “Agora entendi o que o Sr, quer saber. Para o Senhor ele pode ser de fora, para nós não é não. Quem nos orienta é Nosso Senhor Jesus Cristo”. O militar ficou irado, segurou Anunciada com força e esbravejou: “Você está brincando comigo?”. Anunciada respondeu com calma: “Não estou não senhor. O que eu disse é a verdade. Para entender isso é preciso ter fé. Se o senhor não entende é porque o senhor não tem fé”. O militar, formado em Direito, não insistiu. Liberou Anunciada e ainda mandou servir-lhe um lanche.

Como é que Anunciada, que só tem curso primário, pôde repetir com tanta perfeição o que já no século XI (1033-1109) escrevia Santo Anselmo no seu Proslogion: “Não procuro compreender para crer, mas sim crer para compreender, uma vez que estou seguro de que se não cresse não compreenderia”.

Que a manifestação de júbilo de Cristo, ao contemplar os que foram feitos doutores e doutoras pelo Pai seja a expressão do meu agradecimento a quantos me honraram com sua presença nesta noite festiva, aos que propuseram a esta Instituição conceder-me tão grande honraria e à Magnífica Reitora, que dirige com eficiência essa grandiosa instituição de ensino superior da Paraíba.

“Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, assim foi do teu agrado” (Luc. 10,21).

Muito obrigado!

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