EUA manterão presença no Oriente Médio apesar do xisto

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14 Setembro 2013

"Quando a notícia de uma nova crise chega a Washington, não é à toa que a primeira pergunta que todos fazem é: 'Onde está o porta-aviões mais próximo?'". disse o presidente Bill Clinton, à bordo do USS Theodore Roosevelt, em 1993.

A reportagem é de Ed Crooks e Geoff Dyer, publicada pelo Financial Times e reproduzida pelo jornal Valor, 13/09/13

Decorridos 20 anos do reconhecimento de Clinton ao poder da frota naval dos EUA, a localização de seus porta-aviões ainda revela muita coisa sobre as prioridades do país em sua política externa. Dos dez porta-aviões operacionais da Marinha americana, três estão em águas internacionais: um no Japão e dois com a 5ª Frota no golfo Pérsico, baseada no Bahrein.

Desses dois, o USS Nimitz dirigiu-se para o mar Vermelho na semana passada, assumindo posição para possíveis ataques aéreos contra a Síria. O outro, o USS Harry Truman, continua no mar da Arábia, lançando missões de apoio às tropas americanas no Afeganistão.

Ambos estão posicionados para manter vigilância sobre os países produtores de petróleo do Oriente Médio e, em especial, sobre o estreito de Ormuz, na boca do golfo, por onde passa um quinto do petróleo consumido no mundo.

Os porta-aviões são a evidência física de que, embora muita coisa tenha mudado no mercado global de petróleo nos últimos cinco anos, muita coisa segue igual. O boom do gás de xisto nos EUA liberou reservas enormes de petróleo e gás, transformando o setor energético do país e aumentando as esperanças de que ele poderá começar a livrar sua economia e sua política externa das políticas tumultuadas do Oriente Médio.

Os EUA vivem inquietos com o fornecimento de energia desde o embargo árabe do petróleo, em 1973. Todos os presidentes depois de Richard Nixon falaram em acabar, sem sucesso, com a dependência que os EUA têm do petróleo estrangeiro. Até agora.

Graças a uma combinação de alta produção em lugares como a reserva de xisto de Bakken, em Dakota do Norte, com a demanda doméstica que ainda está 10% abaixo do pico registrado em 2005, a parcela da demanda dos EUA por petróleo atendida pelas importações caiu de 60%, em 2005, para menos de 40% neste ano. A Agência Internacional de Energia (AIE) acredita que os EUA poderão ser mais ou menos autossuficientes em energia até a década de 2030.

Tom Donilon, que até recentemente foi conselheiro de segurança nacional de Barack Obama, já descreveu o boom do xisto betuminoso como um "momento transformador" que "nos dará mais força para perseguir e implementar nossos objetivos de segurança internacional."

Outros têm ido ainda mais longe. Lisa Murkowski, da Comissão de Energia do Senado, escreveu que a dependência dos EUA em relação à Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep), "torna difícil para nós fomentar nossos valores e defender nossos interesses", mas essa dependência poderá ser quebrada até 2020.

Em meio a esse otimismo, a crise da Síria tem sido um choque de realidade. A Síria não exporta muito petróleo nem controla rotas comerciais importantes. Mas sua guerra civil se transformou em uma batalha por procuração para os maiores produtores de energia do mundo, com a Rússia e o Irã apoiando o presidente Bashar al-Assad, e a Arábia Saudita, o Qatar e os EUA apoiando os rebeldes.

Analistas acreditam que, se os EUA iniciarem um ataque, o preço do petróleo vai subir ainda mais. A crise está demonstrando tanto o potencial da "arma energética" dos EUA quanto suas limitações.

"A independência energética", que tornaria possível para os EUA voltar as costas para o resto do mundo em geral, e para o Oriente Médio em particular, continua sendo uma visão atraente. Mas a realidade não é tão simples.

Poucos anos atrás, todo o petróleo processado na refinaria Phillips 66, em Bayway, Nova Jersey, vinha de navios do norte ou oeste da África, ou da costa leste do Canadá. Agora, cerca de um terço dele chega em vagões de trens vindos de Dakota do Norte. Os avanços nas técnicas de fraturamento hidráulico ("fracking") e de perfuração horizontal possibilitaram uma alta de 50% na produção de petróleo dos EUA desde 2008. Eles também têm sido responsáveis por um boom do gás natural, que é hoje muito mais barato na América do Norte do que na Europa ou na Ásia. Mais de duas dezenas de projetos estão em desenvolvimento para a exportação de gás natural liquefeito a partir dos Estados Unidos.

Donilon diz que o aumento da produção de petróleo e gás está ajudando os EUA a atingir seus objetivos de política externa. No ano passado, quando os EUA e outros países impuseram sanções mais duras contra o Irã, foi mais fácil coordenar a iniciativa porque a alta da produção americana reduziu os temores de um aumento prejudicial do petróleo.

"As sanções contra o Irã foram mais bem-sucedidas do que as pessoas imaginaram, porque pudemos repor a oferta perdida nos mercados mundiais e, assim, obter a cooperação de China, Índia e outros países", diz Jason Bordoff, um ex-funcionário graduado da Casa Branca, que hoje está no Centro de Política Energética Global da Universidade Colúmbia. "Pudemos tirar 1,5 milhão de barris do mercado por dia sem provocar uma alta dos preços, que prejudicaria nossa economia e beneficiaria o Irã."

O aumento da produção americana também está amenizando a ameaça de uma alta dos preços por causa da crise síria. O mercado mundial de petróleo está pressionado, com a produção gravemente afetada na Líbia e na Nigéria. A produção da Arábia Saudita está no maior patamar em 24 anos, enquanto o reino tenta suprir a queda na oferta e a capacidade sobressalente da Opep para cobrir qualquer interrupção.

A crise recente dos preços do petróleo teria sido pior sem o fornecimento extra dos EUA, que injetou um adicional de 1 milhão de barris por dia no mercado ao longo do último ano.

Nos mercados de gás, o aumento da produção americana também está reduzindo a influência dos rivais dos EUA. A Rússia vinha conseguindo usar sua posição de maior exportador de gás do mundo para exercer influência sobre seus vizinhos menores, especialmente a Ucrânia, e para fortalecer seus laços com países como Alemanha, Itália e China. Mas agora essa posição está ameaçada pela competição do fornecimento de GNL que de outra forma teria ido para os EUA, e provavelmente pelas exportações dos próprios EUA.

A Lituânia, por exemplo, está construindo um terminal importante de GNL, abrindo uma potencial fonte alternativa de gás que poderia suprir 75% da demanda de todos os três países bálticos. A China vem realizando negociações difíceis com a Rússia sobre a construção de um duto de gás, exigindo um preço menor. Clientes de todas as partes da Europa estão renegociando contratos a termos mais favoráveis, e a Ucrânia vem adotando uma postura abertamente confrontadora, recusando-se a pagar uma conta de US$ 7 bilhões da Gazprom, a estatal de gás russa.

Mesmo com a autossuficiência, EUA ainda teriam que cuidar do fornecimento a países aliados

Um benefício direto para os EUA, segundo sugere David Goldwyn, um ex-funcionário do governo americano que hoje é consultor de energia, é que a Rússia está mais uma vez preparada para abrir seu mercado às companhias estrangeiras de petróleo, permitindo que a estatal Rosneft trabalhe com a ExxonMobil dos EUA na exploração do mar de Kara, no oceano Ártico.

A diplomacia do gás americano obteve outro sucesso notável. O Japão disse em março que vai negociar a proposta comercial Parceria Transpacífico, um objetivo dos EUA, em parte porque aderir ao acordo facilitará o caminho para a importação de GNL americano.

O "know-how" dos EUA na exploração de xisto betuminoso também poderá ser um produto de exportação útil. O governo vem trabalhando com países como Polônia, Ucrânia, Jordânia, China e México para ajudá-los a desenvolver seus recursos de xisto para que possam atender a uma parte maior de suas necessidades energéticas com a produção doméstica, em vez de importar da Rússia, do Irã ou de quaisquer outros países potencialmente não amigáveis.

O boom do xisto está criando empregos, gerando lucros e aumentando a receita tributária. Conforme observa Donilon: "A supremacia política e militar de um país depende de sua vitalidade econômica".

A redução da dependência dos EUA em relação ao Oriente Médio também parece uma maneira atraente de economizar dinheiro. Em resposta aos cortes orçamentários implementados neste ano, a Marinha americana pretende deixar no golfo Pérsico apenas um dos atuais dois porta-aviões. Mas, mesmo com a confiança dos EUA em seus recursos energéticos mais alta do que nunca, há o perigo de esse otimismo antecipar-se à realidade.

As tendências e previsões parecem encorajadoras, mas os EUA ainda são o maior, ou segundo maior, importador de petróleo do mundo (disputa o posto palmo a palmo com a China). Por enquanto, os danos à economia americana causados pelos preços mais altos do petróleo são maiores do que os benefícios pelo incentivo que dão ao boom em Dakota do Norte e no Texas.

Conforme as últimas semanas vêm mostrando, embora a produção de petróleo dos EUA possa ajudar a moderar os preços, ela não pode controlá-los. Os produtores de petróleo do setor privado dos EUA jamais seguirão os passos da indústria estatal da Arábia Saudita, segurando a capacidade de reserva para estabilizar o mercado quando necessário.

E a distinção entre os referenciais de petróleo bruto negociados nos EUA e no mercado internacional também não será de grande ajuda. O mercado do petróleo é um mercado global e, quando os preços mundiais do petróleo sobem, os preços nos EUA também sobem.

Além disso, a revolução do petróleo de xisto é ainda muito nova, e o setor precisará dar prosseguimento ao crescimento acelerado dos últimos anos para poder cumprir a promessa de autossuficiência sugerida pela

"Seria muita irresponsabilidade tomar decisões políticas de defesa com base na suposição de que os EUA serão autossuficientes em energia em 10 ou 20 anos", diz Michael Levi do Council on Foreign Relations. "Se isso não se confirmar, seria desastroso. Uma das grandes lições aqui é: não seja confiante demais."

Mesmo que os EUA consigam garantir toda a energia de que precisam, ainda teriam que se preocupar com o fornecimento a seus aliados e parceiros comerciais. Se o estreito de Ormuz for fechado e a China ficar sem petróleo, isso também seris um problema dos EUA.

Os americanos também possuem outros interesses na região além do petróleo. Conforme observa Ernest Moniz, secretário de Energia dos EUA: "Importamos pouquíssimo petróleo do Oriente Médio, mas isso não muda nossa postura em relação à segurança nessa parte do mundo".

Para os aliados dos EUA que exportam petróleo, a revolução do xisto não é uma oportunidade, e sim uma ameaça. Se a produção americana seguir crescendo e a demanda enfraquecer, haverá o risco de excesso de oferta, forçando a Arábia Saudita e os países-membros da Opep a reduzir a produção ou correr o risco de um colapso dos preços. Numa região turbulenta, a possibilidade de uma queda das receitas do petróleo pressionando os orçamentos é preocupante para qualquer governo.

Trevor Houser da consultoria Rhodium Group, diz: "Não está claro para mim que uma grande queda nas receitas do petróleo para Arábia Saudita, Kuait ou Emirados Árabes Unidos serviria para melhorar a estabilidade política global, diante da atual instabilidade da região, e não está claro se isso no final das contas seria de interesse dos EUA".

Em 1973, quando Nixon lançou o Projeto Independência 1980, cuja intenção era tornar os Estados Unidos autossuficientes em energia até o fim daquela década, ele disse que seu objetivo era ter certeza de que "vamos depositar nosso destino e nosso futuro somente em nossas mãos".

Quarenta anos depois, essa promessa ainda não dá sinais de ter sido cumprida.

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