A riqueza alimentar das Plantas Alimentícias Não Convencionais

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29 Agosto 2013

Quem anda pelas ruas de Manaus e de outras cidades do Brasil pode se surpreender ao descobrir que muitas plantas e flores que nascem espontaneamente em terrenos, jardins, calçadas e espaços públicos podem ir para a mesa não como peças de decoração, mas sim, como alimento.

A reportagem é de Cassandra Castro, publicada pelo jornal A Crítica, 27-08-2013.

Olhares mais atentos aliados ao conhecimento descobrem como estas plantas podem marcar uma verdadeira revolução alimentar e por que não, econômica, além de também derrubar tabus em relação às chamadas plantas alimentícias não convencionais.

O professor doutor Valdely Ferreira Kinupp é um estudioso apaixonado pelas chamadas PANC ( Plantas Alimentícias Não Convencionais) e defensor ferrenho de um melhor aproveitamento delas no nosso dia a dia. Confira aqui algumas espécies e forma de consumo e uso.

Em sua tese de doutorado, Kinupp nos leva a refletir sobre as influências que recebemos sobre nossos hábitos alimentares e como um certo ‘conservadorismo’ acaba barrando a oportunidade de experimentações gastronômicas.“Essas plantas geralmente são chamadas de ‘daninhas’, ‘nocivas’ e vários outros nomes preconceituosos, pejorativos e que refletem um ponto de vista. Você come quase a mesma coisa o ano inteiro. Vai à feira, seja orgânica ou convencional, mas não ousa experimentar uma coisa diferente”, exemplifica o professor.

O desconhecimento destas espécies ainda é grande não só no Amazonas, mas também em outras partes do Brasil, porém, aos poucos, as pessoas começam a ter contato com estas plantas e descobrem como elas podem representar alternativas para uma alimentação diferente, saudável e rentável.

Hortaliças e frutos como vitória-amazônica, caruru, orelha-de-macaco, também conhecida como espinafre regional, cariru, ora-pro-nóbis , entre outras, podem trazer ousadia de sabores à mesa.

Kinupp explica que no Amazonas existem algumas poucas espécies tidas como hortaliças como o cubiu, ária, feijão-de-asa e o quiabo-de-metro e também frutas como sorva, pajurá e abricó, por exemplo. As frutas ainda são cultivadas em pequenos plantios ou em áreas de manejo e geralmente de extrativismo. Mas, a grande maioria das PANC ainda não é cultivada e é desconhecida da população atual.

E esta riqueza alimentar, via de regra, não exige grandes adaptações ou técnicas para cultivo. As espécies de PANC são de fácil plantio e propagação e são adaptadas às condições de cada região. A maioria possui sementes, galhos, estacas que podem ser usados na propagação sem que o agricultor tenha de comprar sementes comerciais. São plantas que estão adaptadas às condições de solo e clima da região onde ocorrem e podem ser cultivadas de forma agroecológica, ou seja, sem agrotóxicos e adubação sintética.

O especialista cita alguns experimentos que fez substituindo ingredientes tradicionais por hortaliças e frutos como: vitória-amazônica, que utilizou fazendo pipoca, além das flores que são comestíveis; o caruru, rico em ferro e vitamina A, que poderia ser utilizado na pizza ou na fabricação de pão; e a orelha-de-macaco, conhecida como espinafre regional, que pode enriquecer o arroz e o feijão.

Ele estima que existam no Brasil, centenas ou milhares de espécies e exemplifica: “Em média de 10 a 20% da diversidade de espécies vegetais têm potencial alimentício, isto é, se temos 40 mil espécies no país temos de 4 mil a 8 mil espécies de PANC, pois a maioria não faz parte do nosso dia a dia. No Amazonas se estima (muito por baixo) em 8 mil espécies, daí teríamos de 800 a 1600 espécies potencialmente alimentícias.

Com tanta riqueza na natureza ainda desconhecida, Kinupp convida as pessoas a refletirem sobre o que sabem a respeito destas plantas. Quantas conhece, quantas já experimentou, se elas são vistas nos cardápios de restaurantes ou nos programas de gastronomia. “É uma reflexão que nós e poder público deveria fazer antes de tagarelar e propalar a todos os cantos nossa megafitodiversidade. Comemos muito da biodiversidade de outros países e continentes. Somos xenófilos à mesa!!!”, declara.

Bem longe dos holofotes, algumas destas plantas já tiveram seus momentos de fama em pratos de chefs renomados, despertando não só a curiosidade mas também, admiração e surpresa: como não experimentei isso antes? O assunto inclusive será tema de um encontro no dia 26 de agosto, em São Paulo, dentro do projeto “Entre estantes e panelas”.

Em Manaus, algumas destas PANC podem ser garimpadas em feiras, mas sempre é necessário que o consumidor treine o olhar e cobre dos feirantes mais ofertas destas plantas. Kinupp cita a feira do Coroado onde é possível encontrar ariá(batatinha da Amazônia), feijão-de-asa, jilosão, espinafre-da-Amazônia, entre outras. Outros locais como os feirões da Sepror e na Feira de Orgânicos no Ministério da Agricultura(MAPA) também oferecem alguns tipos de PANC.

Descobrir estas plantas diferentes e saborosas pode significar não só ousar na busca de sabores ainda desconhecidos, mas aliar esta viagem gastronômica à saúde e à valorização dos produtos regionais.

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